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domingo, 4 de janeiro de 2015

Fuga


a chuva copiosa e sem saídas
cercou-te em pedaços de nada
ficaste presa na tua própria armadilha

na fronte tinhas um cartaz publicitário do fracasso
mas as nossas mãos viajaram no piano
à procura da lua
que em breve irias pisar

montados nas palavras
facas que rasgaram as sombras dos teus medos
ajudei-te a fugir através do bosque dos sons
mas as notas eram flechas
que esbarravam nos muros de água
que teimavam em te abraçar
faiscavam retrocediam
e caíam nas lágrimas da tua destruição

dós sem sol capitulavam enlouquecidos
nas catapultas que vazavam angústias sem fim
de ti em mim
de um fim de tarde nunca sentido ferido sitiado
entre muralhas e dardos
angústias desvendadas por chispas
que se extinguiam em mares sem rios
em rios sem nascentes
em lagos verticais acordados de estios e de tédios
do teu sono sem ondas

mas
como afogados
agarrámo-nos a uma nota que saiu distraída com asas
filha pródiga dissonante à procura de aventura

voámos
fugiste para além do cerco dos sonhos que não tinhas
até que tudo se dissipou na distância
da floresta mágica de sons
pudeste então sorrir
soubeste pisar a lua
e no sol que concebeste
finalmente
viste que nada mudou na criança que há em ti


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