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quinta-feira, 27 de abril de 2017

Na leveza vencida do olhar



Encontrei um tesouro
quando senti um aroma delicado
nas palavras que tecias com afeto.
Tendo pensado em beijá-las
com a faina indefensável do meu jeito,
compus no teu corpo
o desejo alicerçado de o abrir.
Descobri um sorriso de luz
aberto nos teus olhos,
que bebi,
até que em mim, a escaldar, se fundisse.
A razão,
antes cansada do gota a gota do sol,
ficou turva da tua limpidez
em segredos embrulhada, que rasguei.
Na leveza vencida do olhar,
encontrámos um rio caudaloso
e conquistámos, hirta,
a persistência da carne a acreditar.



Jaime Portela


quinta-feira, 20 de abril de 2017

Há quem diga



Há quem diga
que o poema só vale uma ilusão
de salvar do naufrágio a certeza
arrumada além-mar do coração.

Há quem jure
que a alegria vale menos que a pobreza
de carpir a presença da saudade
no sorrir macilento da tristeza.

Também dizem
que um poeta só vale a ingenuidade
a cuidar que é verdade o seu amar
sem julgar o que é falso ou realidade.

Ainda assim,
é no todo que eu busco o meu trovar
sem banir a contenda que me assola
no silêncio dos cantos por achar.



Jaime Portela


quinta-feira, 13 de abril de 2017

As velas que nos arrestam


Impúdica,
descobres-te de um jeito rebelde,
sabendo que o sol que irradias
me desacata e seduz
em recatos de palavras
emersas nas fragrâncias da pele
à contraluz do teu céu.

Atingido,
tacteio os teus seios miúdos,
fartos e dóceis
aos meus gestos lúbricos,
em carícias recíprocas dilatadas
pelas confidências nuas
de cúmplices amantes.

Na chave que desatina
em secreta fechadura,
sou o patrono,
sou o criado
das brumas que te molestam.

No mastaréu em espertina
em barcarola madura,
és a serva,
és a dona
das velas que nos arrestam.



Jaime Portela


quinta-feira, 6 de abril de 2017

A vida pode ser eterna e mansa


Em cada momento,
conheces da vida a candura dos afectos,
sempre desvendados
pelo nariz atrevido de ateia cristã
e embalsamados em sonhos na retina,
visíveis pelo brilho entrelaçado nos teus olhos.
É o agora a silenciar o depois…

Vacilando entre a luz e as sombras,
viajas com os olhos
por entre a chegada em alvoroço
e a partida de afogo insuportável,
com a boca ferrada na dança dos corpos
a embalar o inadiável,
numa cama de metáforas onde te deito
e te amo.

O deslumbre da Primavera
é o tempo de içar velas na certeza
de marearmos na esteira da estrela cicerone,
que de nós tão companheira
nos guia de mãos dadas.

Caminhamos na cumplicidade
de passados dispersos,
beijamos a pele de uvas maduras
de paladares antigos,
renovados na paz dos frutos silvestres
saboreados com o mosto que no corpo fermenta.

Navegamos na embriaguez a projetar-se,
lenta e voluptuosa,
na ternura tatuada do desejo sem saída,
acerejada  no incêndio festivo
do teu botão de rosa
em inúteis espinhos escondido,
que afago em gestos finos,
numa partilha em dádivas prementes concebida.

Para nós,
a vida pode ser eterna e mansa,
sem pressa, sem sustos ou medos de criança…


Jaime Portela


quinta-feira, 30 de março de 2017

Se o silêncio nos agride



Se o silêncio nos agride ao escutarmos
a malquerença vestida sem palavras,
somos punidos por tenazes
agrilhoadas aos pulsos emudecidos.
Nesta prisão, se voluntária e apática,
a luz, desonesta,
finta-nos pelos apagados buracos da grade
onde não cabe aceso um fio de revolta.
E a nossa indolência, quiçá indigência,
vagueia alucinada, parecendo serena,
pelo ar pesado que nos tolhe os pulmões,
submersos no plágio mental
da nossa carne servil.
Mas, se em nós houver
qualquer virtude plasmada no fígado,
seja na fresca sorte da chuva
ou no quente quebranto do vento,
só quebrando a frescura do silêncio agressor
para então ouvir as palavras despidas.


Jaime Portela


quinta-feira, 23 de março de 2017

Procura-me



Procura-me nas tuas palavras,
nos teus gestos ou no disfarce
da serenidade que te devasta.
Esmagarei o que te assombra.

Descobre-me no teu corpo,
no teu sangue ou no amordaçado recato
que desmaia o teu olhar.
Lamberei as tuas feridas.

Segreda-me os teus medos,
os teus silêncios ou as fraquezas
que estalam desalmadas no teu peito.
Beijarei a tua alma.

Procura-te, do teu vinho serei ébrio
a voar no teu regaço.

Descobre-te, serás a pele que bebo
nas asas do meu abraço.

Jaime Portela



quinta-feira, 16 de março de 2017

A rosa que há em ti



A rosa que há em ti
na dolência dos teus gritos,
quero vê-la abrir-se de orvalho
e de cores carmim revestida,
quero vê-la ao adormecermos
nas nuvens das copas das árvores
que plantámos com ventos de mar,
os mesmos que nos inspiram
numa torrente de igual fulgor.

Essa rosa, franzina no riso,
que de tão sensível
te atinge e subjuga inabalável,
quero tocá-la,
trajada com a fragilidade ilusória
da areia que o mar julga destroçar,
ao nos fundirmos deitados
na fogueira da inquietude
dos incêndios vivos da carne.

A rosa que guardas circunspecta,
que na seiva do teu querer me levanta
e me empurra para ti, é uma flor
que te aumenta, que antes nunca vi.


Autor: Jaime Portela


quinta-feira, 9 de março de 2017

Esta noite


Esta noite,
ao caminhar no inventário
que das nossas memórias conservo,
engoli o mar que nos une e separa
na vastidão de um tempo sem tempo
e abracei-te
com o sal que me acende de sol.
Esta noite
levei-te flores roubadas
do jardim que para mim plantaste
e nem uma ficou,
para que novos canteiros se abram
com a chuva salgada pelos beijos
de flores e carícias sedentos.
Esta noite
acreditei que podia voar e fui ver-te
de nuvens despida à espera de mim.
Cedi à saudade,
nutri de certezas
a tua arca de pétalas roxas
e bebi inteira a tristeza
que teima em queimar o teu peito.
Esta noite
derramei orvalhos
na rosa que há no sol do teu corpo.
Esta noite
salgaste os meus lábios,
bebi o sal que ao sol te ofereci.


Jaime Portela


quinta-feira, 2 de março de 2017

Ainda há tempo


Ainda que convencidos
da cumplicidade da pele
que no corpo estala em arroubos da carne,
poderão ser mendigas as mãos
que nas noites de espuma se enlaçam.

Ainda que convencidos
do poema que do afeto se abre,
os verbos poderão vacilar nos seus passos
e cair em jardins destroçados,
soçobrando no lodo de pétalas mirradas.

Mas, mesmo que o sol já tenha almoçado,
ainda há luz, e, enquanto o luar cresce
e nos abraça, ainda há tempo de acariciarmos
os versos da querença buliçosa
na rima do desejo dilatada.

Meu amor,
ainda há tempo de sol, ainda há tempo de luar,
para que a nossa pele se confunda
nas mãos que a fazem vibrar.


Jaime Portela


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

O olho da lupa



Acreditamos que há sempre,
algures,
uma cândida lupa que nos espia,
apesar de nos esquecermos de tal sentinela
(de contrário,
sentimos um frio na espinha que nos impõe
uma pose mais favorável).
Acreditamos, até,
que há uma sapiência omnipresente
no labirinto onde todos
nos podemos perder,
ao ponto de pensarmos
que os obstáculos são provações
deliberadas pelo olho da lupa.
E nós, vindos do pó
e que ao pó havemos de voltar,
fazemos de conta
que não somos apenas passarinhos reclusos
que gostam de cantar
engaiolados no espaço de penas
e no tempo carcereiro.
Fingimo-nos eternos,
enganamo-nos vivos,
e até inventámos
que o inverso não pode ser verdadeiro.


Jaime Portela


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Somos Deuses



Procuramos o ideal atolados em pântanos,
somos árvores perdidas a triturar
verdades escuras que adubam o chão
por onde se passeiam as raízes que nos sustentam.

Apascentamos a alma e engordamos a razão
num choro sereno,
imploramos que os braços se tornem frondosos
e abarquem um céu sempre azul,
filtrado das chuvas ácidas
que teimam em irrigar com prantos negros
as impotências da vida.

Esgravatamos as entranhas do saber
para encontrarmos o sílex do desejo,
dissolvemo-nos na pirólise de maciços rochosos
que embargam horizontes,
percorremos o mapa do querer em nascentes de força
que devorem o húmus indeclinável.

Somos Deuses,
fazemos milagres para que a seiva chegue aos frutos
que queremos ao sol,
suspensos à sombra dos nossos ramos.


Jaime Portela

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

O cetim inextinguível dos teus beijos


Correr para ti, na medida em que te falto,
é um sentir renascido
que germina oculto na sementeira dos sentidos,
é um silêncio
que se esmaga atroador no grito que detenho,
é um sonho que se furta indomável
ao sono em que perduro acordado,
longe do vento e do pranto.

Fugir de ti na medida em que te abraço,
é uma louca galopada
que mergulha nas marés do teu desejo cavado,
é um rasgar
da carta negra de intenções em desertar,
é um canto profundo
na lava que nos veste em fragores de rouquidão.

Vences-me sempre: mesmo esvaído em desejos,
despojas-me uma e outra vez
com o cetim inextinguível dos teus beijos.


Jaime Portela

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Há paredes escondidas no teu peito


Há paredes escondidas no teu peito
que se erguem
[estremunhadas]
cada vez que o riso dorme.

Há um mar que se arpoa no teu leito
à pesca de recatos
nos tapumes insulados em lençóis,
cada vez que o sol inteiro
se rende ao azul do teu sorriso.

Com o perfume do teu mar,
estou a pintar portas e janelas
nas paredes que nos separam
[pudibundas],
para que o azul se liquefaça
no sol da tua alma
de ferrolhos e cortinas despojada.


Jaime Portela


quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Permitiste que morressem

(Poema de homenagem a colegas e amigos
que morreram ainda novos, nomeadamente
o Zé Ferreira, o Hugo Vieira, o Fernando Silva e o Arnaldo Rigueiro)


Rezo-Te.
Mas temo a recusa nas Tuas palavras
sem rasto nem recurso.
Não enxotas o gato preto da janela.

Ajoelho-me, redobrado.
Fico imóvel no escuro, na Tua luz.
Falo-Te, submisso, sem respirar,
até pintar o Teu rosto na retina.

Medito nas searas
e nos vinhedos a crescer nas Tuas mãos.
Esgano a fome e a sede
na visão dos Teus frutos maduros, divinos.

Acaricio cada grão, cada bago,
de um rosário votado ao desespero.
Esperançado, imploro-Te.

Vejo mosto e massa com fermento
à Tua mesa. Na minha cabeça,
o sino a finados a prensar badaladas.

Não brotou a cura do Teu pão
nem a mão protectora do Teu vinho.
Permitiste que morressem. Impassível.
Deixo-Te, deserto.
Será que Tu existes?

Jaime Portela