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quinta-feira, 27 de julho de 2017

Somos vampiros ao sol



Em sensata alucinação,
consentida
e semeada de metáforas
mais ou menos libertinas,
os dias sucedem-se
a beijar abismos
nas grutas de sombras
que nos atraem
como drogas duras
a aliciar veias resignadas.
Se estendemos, corajosos,
os braços à realidade,
injetamo-nos
com transfusões do nosso sangue,
lambemos o contraveneno
para resistirmos
aos dentes incómodos
ferrados na carne.
Somos vampiros ao sol,
de olhos fechados
no mel de nós mesmos,
como pássaros a beijar
sementes de sésamo
na fuga ao Mito da Caverna.



Jaime Portela


quinta-feira, 20 de julho de 2017

As tuas garras



As tuas garras
sempre temeram os desígnios predatórios
que a juba leonina dos meus passos te ditava.
Contudo, o meu olhar mascarado de felino
apenas procurava o teu rasto
[de odores de leoa impregnado]
e lamber as feridas que açoitavam o teu rosto.

Apesar disso,
viajámos na direção oposta do disfarce e,
sem um arranhão,
fomos abrindo gargantas e rios
na serrania de espinhos do teu dorso,
que ainda sangrava das travessias de brumas.

Sorvemos ao sol
o fel de opressões envelhecidas,
refreámos poemas
em rimas que tememos entoar
e comemos o choro amanteigado
em forma de bolo com velas
a adocicar o grito que a tua garganta calava.

Ainda ferida,
continuas leoa briosa do teu território,
mas deixas-me entrar
sem mostrares as tuas garras:
cortaste-as e pintaste-as, porque acreditas
que o meu cheiro é miscível com o teu.



Jaime Portela


quinta-feira, 13 de julho de 2017

Na tua boca a escaldar



Quero abrigar as verdades
no teu olhar maturadas,
colhê-las, guardá-las todas a jeito
sempre à mão de semear.
Quero ver luas, seguras,
a fitar estrelas polares,
pintá-las, espalhá-las à medida
da tua face ao luar.
Quero aquecer os teus pés,
sentir Invernos de chuva,
preguiçosa, a correr pelas janelas
sem vontade de acabar.
Quero ouvir cantar o galo
a despertar-nos vaidoso
todas as manhãs de sol
no teu sorriso sem trevas.
Também quero, insaciado,
ceifar o trigo espigado
no equinócio das palavras,
maduras, na tua boca a escaldar.



Jaime Portela


quinta-feira, 6 de julho de 2017

Podes encostar a cabeça no meu ombro

Quem luta com monstros deve velar por que, ao fazê-lo,
não se transforme também em monstro.
E se tu olhares, durante muito tempo, para um abismo,
o abismo também olha para dentro de ti.
Friedrich Nietzsche




Nunca foi meu costume
cair em abismo
ou depressão,
mesmo que isso represente
um degrau sem altura que se meça.
Mas se alguém resolvesse
dar um tiro na certeza
[por engano]
e prenunciasse
[qual profeta
que a poemas recorresse]
estar errada a minha crença,
eu faria uma comédia
no mais sério desatino,
como se rir
fosse magia que mudasse
o que é mesmo uma tragédia.
Por isso,
podes encostar a cabeça no meu ombro,
podes chorar,
podes rir,
com ou sem comédias e tragédias
[não serei contagiado]
como se eu fosse um trampolim
para saltares
os degraus que te afundaste.


Jaime Portela