Translater

quinta-feira, 20 de junho de 2019

Deixemos o amor livre como a onda



Ao amor, no seu perseverante deambular
por curvas não equacionáveis,
não devemos obrigá-lo a acomodar-se,
para que, no seu mar nem sempre chão,
possa emitir o seu lamento ou a sua exaltação.

Deixemos o amor livre como a onda
que, ao inútil e utópico propósito de ser colhida,
prossegue, impávida, a sua equação
na lealdade ao ignorado fulcro que a gerou,
resistindo, até, às falaciosas voltas que o vento inventa.

Seja o amor, então, o epicentro da emoção
sem se apartar da razão inexplicável de si próprio
e desfrute das chamas que o seu fogo incita e alimenta
na sua combustão interminável,
porque é nuclear e não vem de um sol que arrefeça.



quinta-feira, 13 de junho de 2019

Dar voz ao coração



Quando não há candeia
a alumiar o caminho, apesar de claro,
é perigoso deixar de ouvir
a voz do coração.
Quando essa candeia existe,
são os nossos passos
que falam mais alto,
porque a luz brota dos pés
e a ordem rebenta nos dedos da vitória,
num contentamento
tão fundado como o ar que respiramos.
Por isso, há que abandonar
a culpa do silêncio e dar voz ao coração,
há que devolver o rumo
ao nosso porta-aviões [se à deriva]
e ver as caixas negras
de cada cicatriz do coração.


quinta-feira, 6 de junho de 2019

Escuta o canto pungente das mãos




Escuta o canto pungente das mãos
que te procuram
e que da espera se contorcem na tristeza.

Não há pranto, não há nuvens
para que o amor fique num canto
amordaçado e ferido, porque
a cada minuto sem ti
há um mar de incertezas
que no meu pensar se afundam
com uma pedra ao pescoço do desencanto.

Sem ti, sem o teu fogo,
sou um coveiro de sonhos
a remexer nas cinzas
do que não foi queimado na fogueira
do teu não.



quinta-feira, 30 de maio de 2019

Passa mais vezes por mim




Quando passas,
há um baque açucarado
que me desmancha e constrói,
que me faz estremecer e serenar,
num síncrono acelerar e travar.

Talvez,
de mim escondidas,
uma parte se assuste e outra rejubile
como a noite fria se aquece
no remanso dos teus braços.

Talvez,
mas não há forma de saber o fruto
e de sentir as raízes tropicais
que em mim se espalham
e comandam como hospedeiro cativo
sem que me fales de amor.

Em todo o caso,
passa mais vezes por mim.

quinta-feira, 23 de maio de 2019

Na contraluz do sentir




Com a paz de um encanto que desarma
ou em guerra com o fogo entranhado,
és mulher de carne e osso
ou anjo de sol que descega?
Do teu corpo
saltam auroras boreais
a cercar a árvore e a floresta
onde lobos se transformam em cordeiros.
Da tua pele,
saem centelhas douradas
para que, das formas,
se veja em ti a mestria
que Miguel Ângelo esculpiu.
É tua a virtude suprema
que nos transforma
em pseudo-machos latinos, impudentes,
mas logo caranguejos submissos.
E é na contraluz do sentir
que descobrimos a mulher fatal,
mulher de todos e de ninguém.



quinta-feira, 16 de maio de 2019

Dentro de mim




Dentro de mim,
és eterna como o rio a correr para o mar.
És a harmonia hospedada e ancorada na claridade
que exalas a fluir alegremente no meu sangue.
Por isso, fico ansioso na expectativa
do cumprimento de cada promessa, ténue que seja,
porque sei da verdade e do sentido
que afloram no instante da nudez de cada gesto.
O que acontece na longevidade de cada momento
é a nossa realidade, são sementes lançadas à terra
pela queda vertical dos frutos do nosso querer.
Fora de mim, serias uma luz transitória.
E eu, um fogo-fátuo sem mastro nem vela.
Naufragaria.



quinta-feira, 9 de maio de 2019

Vê o que te cerca



Vê o que te cerca,
não basta esvoaçar, andar por aí,
partir e chegar.

Ninguém te vai mostrar o caminho
ou perguntar para onde vais
e muito menos por que o fazes.

A vida precisa de ser abraçada
e enganada.
Cai, mas burla o fado
e esquece o coitadinho de ti.

É importante que te does,
que te entendas e que saibas
o que te levará a existir como pensas.

Vive e contagia,
agarra a luz na testa
e distribui os tesouros que encontres
na mina da vida.

Dá sentido aos teus passos,
põe amor nas entranhas do que fazes
e renasces.



quinta-feira, 2 de maio de 2019

Um povo que decidiu ser livre



Contra a vontade
dos que permanecem a cavalo
do poder despótico sobre a fome e a pobreza,
a revolta descalça dará frutos,
mas somente muitos mortos depois.

Ainda que ensanguentadas,
vencerão a verdade e as sementes
das plantas que trarão a paz,
vencerá a insurreição do querer renascer
sem olhar às incertezas do viver.

Já que os punhais geram punhais,
que vençam as flores
a dissolver a tirania que estrangula o povo
na míngua de mesas vazias.

Em qualquer caso, vencerá a liberdade
de um povo que decidiu ser livre,
porque não tem voz nem pão que lhe valha.



quinta-feira, 25 de abril de 2019

A sagração das primaveras



Apenas te vejo de fora
mas sempre iluminada por dentro,
um rio quente de sons que não dormem
e de onde a melodia corre
para que eu pare de encanto.
Imagino, então,
que és um violino,
um soprano de timbre aveludado
e eu o arco,
disposto a fazer das minhas mãos
crinas de cavalo a percorre-te de Sol a Sol,
acariciando as tuas colcheias sem pausa.
Dançaremos esse poema
até que o inverno nos deixe sem luz.
Dançaremos na poesia
até que os sons se apaguem
nas cordas desgastadas pela vida.
Até lá, tentaremos viver
nas inflexões do canto florido e prolongar,
o mais possível,
a sagração das primaveras.


quinta-feira, 18 de abril de 2019

Viva a Páscoa



E, chegados à Páscoa,
embriagamo-nos
fartamente abençoados com doces.
Não se vêm hambúrgueres
nem batatas fritas,
abolimos por um dia
todo e qualquer fast-food da nossa tentação.
Há muito esquecidos do roxo,
dos 40 dias do dilúvio
e da provação do deserto,
somos o acre amelaçado
e o gelado quente da quadra.
Também somos, dentro e fora da Páscoa,
o pão-de-ló da Europa
e os ovos-moles das crises.
Não há jejuns, não há abstinências,
só para os pobres,
que são bem-aventurados
e a isso estão obrigados.
Católicos, ateus e outros,
fazem de conta que celebram
o que já não é celebrado,
até porque na semana santa
já nem há música sacra na rádio.
A Páscoa morreu.
Viva a Páscoa.