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quinta-feira, 18 de maio de 2017

A flecha



Não viajo a tropeçar
por caminhos impossíveis,
não me recreio galante a escorregar
no gelo de mares aterrados,
nem me sonho a remar por desertos
com dunas perdidas
nos pés descalços a escaldar de dúvidas.
Não luto por causas que penso perdidas,
não entro em duelos de morte
nem durmo em oásis de verdade
condenados à secura circundante.
Por isso,
não sei o que rasga e sacode a minha paz,
não sei o que me atordoa e conduz
à tua mão envolvente,
nem sei por que te avisto,
preto no branco, ao mais brando respirar.
Apenas sei que de ti vem uma flecha
que me acerta a cada gesto,
que me enlouquece
da luz espelhada no teu nome.
Mas também sei que me fere de prazer
toda a carícia imaginada.
Por isso, só pode ser a flecha do Cupido
a vir de ti de amor envenenada…


Jaime Portela


quinta-feira, 11 de maio de 2017

Grito



Na bondade do arco-íris,
que quase todos professamos nos olhos
em juízos vivos de seres mortais,
há vergonhas negras no céu
que nos deixam no chão
por não vermos andorinhas
na razão de desgraças tão injustas.

Por outras palavras,
todos gostamos do belo e do útil,
do viver e do crescer a sorrir…
Aceitamos o frio e o calor,
o vento que nos despenteia
e o fim que há de vir.

Porém, porque não gosto nem aceito
o silêncio cinzento, orquestrado,
acuso o olhar cego do Homem
e a proteção ausente dos Deuses
[a assobiar distraídos]
perante a fome obscena, perene,
que enche de morte a barriga caduca
das crianças dos genocídios de sempre.

E grito, porque não rezo
na procissão dos Homens calados
nem canto no coro cego dos Deuses.


Jaime Portela


quinta-feira, 4 de maio de 2017

O meu legado


Pensando alto,
só agora concluí que não sou original,
pois não surgi do nada,
não apareci, por artes mágicas,
do vazio ou do éter,
e nem sequer o pecado do começo foi inédito.

Existo por opção alheia e ilusória,
não fui ouvido nem achado e,
muito menos,
criado a partir de um meu desejo.
Sou apenas o produto da ínfima probabilidade
de um projeto de vida aleatório.

Ainda assim,
repiso vivências sentidas,
digo ideias antes ditas com palavras repetidas,
porventura mal pensadas,
e quero de um modo já velho
como Adão queria Eva.

A minha memória genética
encerra lendas vivas,
reminiscências mais ou menos sonolentas
e outras quase mortas,
nos neurónios que andam distraídos
com lengalengas futuristas.

No parágrafo da minha existência,
pareço um amontoado
de palavras despejadas de uma página,
e serei,
na melhor das hipóteses,
um dador de histórias futuras
após o desenlace da última linha.

Mas não quero ir já embora.
Se não posso falar, eu penso, eu escrevo
[o meu abrigo é o agora],
para que o meu legado conste
nos projetos de vida aleatórios seguintes,
até que as lendas morram
e não marquem os pecados dos seus genes.

Jaime Portela

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Na leveza vencida do olhar



Encontrei um tesouro
quando senti um aroma delicado
nas palavras que tecias com afeto.
Tendo pensado em beijá-las
com a faina indefensável do meu jeito,
compus no teu corpo
o desejo alicerçado de o abrir.
Descobri um sorriso de luz
aberto nos teus olhos,
que bebi,
até que em mim, a escaldar, se fundisse.
A razão,
antes cansada do gota a gota do sol,
ficou turva da tua limpidez
em segredos embrulhada, que rasguei.
Na leveza vencida do olhar,
encontrámos um rio caudaloso
e conquistámos, hirta,
a persistência da carne a acreditar.



Jaime Portela


quinta-feira, 20 de abril de 2017

Há quem diga



Há quem diga
que o poema só vale uma ilusão
de salvar do naufrágio a certeza
arrumada além-mar do coração.

Há quem jure
que a alegria vale menos que a pobreza
de carpir a presença da saudade
no sorrir macilento da tristeza.

Também dizem
que um poeta só vale a ingenuidade
a cuidar que é verdade o seu amar
sem julgar o que é falso ou realidade.

Ainda assim,
é no todo que eu busco o meu trovar
sem banir a contenda que me assola
no silêncio dos cantos por achar.



Jaime Portela


quinta-feira, 13 de abril de 2017

As velas que nos arrestam


Impúdica,
descobres-te de um jeito rebelde,
sabendo que o sol que irradias
me desacata e seduz
em recatos de palavras
emersas nas fragrâncias da pele
à contraluz do teu céu.

Atingido,
tacteio os teus seios miúdos,
fartos e dóceis
aos meus gestos lúbricos,
em carícias recíprocas dilatadas
pelas confidências nuas
de cúmplices amantes.

Na chave que desatina
em secreta fechadura,
sou o patrono,
sou o criado
das brumas que te molestam.

No mastaréu em espertina
em barcarola madura,
és a serva,
és a dona
das velas que nos arrestam.



Jaime Portela


quinta-feira, 6 de abril de 2017

A vida pode ser eterna e mansa


Em cada momento,
conheces da vida a candura dos afectos,
sempre desvendados
pelo nariz atrevido de ateia cristã
e embalsamados em sonhos na retina,
visíveis pelo brilho entrelaçado nos teus olhos.
É o agora a silenciar o depois…

Vacilando entre a luz e as sombras,
viajas com os olhos
por entre a chegada em alvoroço
e a partida de afogo insuportável,
com a boca ferrada na dança dos corpos
a embalar o inadiável,
numa cama de metáforas onde te deito
e te amo.

O deslumbre da Primavera
é o tempo de içar velas na certeza
de marearmos na esteira da estrela cicerone,
que de nós tão companheira
nos guia de mãos dadas.

Caminhamos na cumplicidade
de passados dispersos,
beijamos a pele de uvas maduras
de paladares antigos,
renovados na paz dos frutos silvestres
saboreados com o mosto que no corpo fermenta.

Navegamos na embriaguez a projetar-se,
lenta e voluptuosa,
na ternura tatuada do desejo sem saída,
acerejada  no incêndio festivo
do teu botão de rosa
em inúteis espinhos escondido,
que afago em gestos finos,
numa partilha em dádivas prementes concebida.

Para nós,
a vida pode ser eterna e mansa,
sem pressa, sem sustos ou medos de criança…


Jaime Portela