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quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Erramos na floresta



Erramos na floresta
mas vemos
as nossas árvores
sem idade
onde percebemos
os mesmos sustenidos
nos ramos reservados
aos passarinhos.

Conhecemos a noite
no gesto vão da procura
do tempo ausente de nós
mas sorrimos ao dia
na aventura de momentos
descobertos a pulso
nas asas de regatos de seiva
que nos preservem
mais verdes.

Contrapomos ao dúbio
a certeza de pérolas
que esperam por nós amanhã.


Jaime Portela


quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Morro


Morro
à vista desarmada
dos teus olhos
enquanto cego me arrasto
até ao cume do teu sol
de onde me escorro
moldado em pedra e Sísifo.

Subo e desço alado,
carrego-me e despejo-me,
percorro as ladeiras
de cada um dos teus poros,
beijo-os,
chamo-os pelo nome
[batizei-os
para melhor os discernir]
e colho nas caminhadas
as flores rubras
dos teus orgasmos.

Não me canso,
fortifico-me,
porque as pedras que carrego
são feitas de micas
do nosso desejo.


Jaime Portela

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

A ilha que te cerca


Quando encalho em nuvens de pedra
enraizadas na ausência da vontade,
calo-me, e vejo um silêncio árido
que se espreguiça no horizonte da apatia.

É um silêncio acuado à porta dos sentidos,
um silêncio trespassado por um vento de cardos
que se agrafa aos ossos das palavras já mortas
com punhais de tanta negrura.

Mas foi no mar desmedido deste enfado que te vi,
que gritei à ilha que te cerca,
rainha verde emergida na bruma do silêncio
em cabelos de água de ondas convulsas sem fim.

E o mundo voltou a sorrir nas estrelas
dos teus lábios e no murmúrio dos teus olhos,
porque sabemos ler nos ecos da escuridão
as vozes que compomos corpo a corpo.


Jaime Portela

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Esta noite


Esta noite,
um por um,               
vou relembrar todos os elos dispersos de ti,
embalados por uma música
embutida em cadências empíricas
de tempos sinuosos a martelar-me a cabeça
num combate desigual,
prenhe de razões maturadas
de tão ensolarada e meditabunda insónia.
Esta noite,
vou procurar todos os embriões de poeiras,
que reúno numa constelação privativa
na gaveta da mesa-de-cabeceira da saudade,
para que sonhos futuros os tateiem vorazes
no afogo de esganar a fome pavloviana
que as tuas imagens irão despertar.
Esta noite,
o combate é desigual, mas,
qualquer que seja o desfecho,
quero quebrar, um por um, os retratos
dos elos que não queremos mais algemar.


Jaime Portela

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Levantei o sol


Levantei o sol
em manhãs de chuva cinzenta,
cosi estrelas
em cortinas bordadas de silêncios,
sem que as palavras
[daninhas que fossem]
tivessem rompido.
Atei as mãos
à ausência do teu rosto,
cravei o corpo que desejo no meu peito,
sem que o sorriso
[hotel de memórias tuas]
fosse varrido pelo sopro do tempo.
Adormeci no sonho
de voar em montanhas de volúpia,
despertei em abismos
de saudade relutante,
sem que as auroras
[madrugadas submersas de ti]
brotassem francas de brumas.
Enquanto isso,
construí outro leito,
para que não adormeças
na pedra fria de palavras.
Espera-te um jardim
onde cultivei as tuas rosas, regadas
com beijos de sol e abraços de lágrimas.


Jaime Portela


quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

O sol que a tua sombra incendeia

Já caminhei descuidado, em paz,
mas numa luta furtiva contra a ordem, corrupta,
da ditadura que se desmoronou antes da revolta.

Passeei-me pela guerra, amena,
de gritos embriagados na desordem de processos
de revoluções em curso jamais alcançadas.

Também fui fugitivo de práticas embotadas,
de tantas rezas estéreis como de juras surdas ao juízo
em confrarias fartas de talentos boçais.

Até passei fome de palavras interditas,
que não de sardinhas, que não de pão,
ainda que não soubesse pescar
nem tivesse provado o pão que o diabo amassou.

Agora, espero por ti, democraticamente, sem paz
nem revolta, sem rezas nem clamores de antigamente,
sem direito à fome que tenho do teu olhar
de Maria espontânea, ainda que não tenhas o dever
de iluminar o nosso azul sempre inacabado.

Até lá, resta-me o sol que a tua sombra incendeia.


Jaime Portela

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Não há maior fortuna


Não há maior fortuna do que ver-te
a caminhar destemida
[até quase ao infinito da alma]
enquanto os gestos vão morrendo
a cada olhar deslaçado da partida.
Deveria estar assustado
como quem dança com fogo,
ou mesmo apavorado
com a dor forçada pelo espanto,
onde as carícias teriam mãos
de fado vadio queimadas em pranto.
Ou então,
deveria partir relaxado, alegre,
ao som da Marcha Turca de Mozart.
Mas parto apenas saudoso,
por estar certo do retorno
impelido pelos ventos
da melodia sempre nova do teu corpo,
onde nos perderemos facilmente,
e devagar, para que a dança
nos prenda e nos volte a libertar.


Jaime Portela