Translater

quinta-feira, 13 de maio de 2021

Falo apenas do que sei [331]


 

Falo das coisas reais

da minha imaginação,

porque o que não imagino,

não existe.

As flores que vão surgir

no meu jardim já existem

na minha imaginação,

mas nunca haverá flores,

nem primavera, no tráfico

e na exploração de pessoas,

nas missas do padre pedófilo,

no racismo, na xenofobia,

na corrupção, na poluição

ou em qualquer ditadura.

Falo apenas do que sei,

porque se falar do que não sei,

passo a sabê-lo.



quinta-feira, 6 de maio de 2021

Covil de nevoeiros [330]

 

Há, em certas coisas que me assaltam,

uma intriga de átomos

na procura quântica da sua órbita

que nem eu próprio sei esclarecer.

A cada passo,

visito esse covil de nevoeiros,

onde florescem as dúvidas

edificadas em raízes engordadas pelo diabo

ou em destemperos, que

[à falta de melhor ideia]

atribuo a deuses brincalhões.

Vacilo no indagar,

mas ao meu ânimo é abismo o patamar

onde o palpável do ser

se confunde com a miragem.

Mas tudo fica claro ao tocar a tua luz,

talvez porque os átomos girem ao contrário

quando chegas até mim

com a nudez de uma pedra preciosa.



quinta-feira, 29 de abril de 2021

Morri descontente [329]

 


Perdi a hora do regresso

quando um escusado restolho

se desprendeu da fuga de pássaros,

amplificando os saltos

ao ritmo das borboletas

que trazias no corpo.

Acendi-me na chama que acumulavas

quando me desfraldaste em carícias

e te embalei nos meus braços,

como se neles tudo fosse inaugural.

Morri descontente na hora do adeus

quando o verso do espelho me sacudiu,

atraiçoando a verdade quente

da tua pele na minha.




quinta-feira, 22 de abril de 2021

Talvez sejam as palavras [328]

 

Talvez sejam as palavras

que semeiam a simplicidade

daquilo que nos conquista

como escadas sem regresso

em direção à evidência.

Ou porque, de alma nos olhos,

nem sempre acorrentada à cegueira,

conseguimos ouvir com nitidez

o fogo vagaroso e demorado

que vai crescendo dos sonhos.

Em qualquer caso,

para que a fantasia não espigue,

é preciso ter o saber e a felicidade

de sentir a lucidez dos desejos

e de compreender

a imparcialidade do que sentimos.



quinta-feira, 15 de abril de 2021

Ao ver-te [327]

 

Ao ver-te,

os bons presságios foram veias

num alvoroço de sangue e de chamas

a derreter o gelo da surpresa na boca.

Depois, o ruído da quase certeza

ao esvaziarmos dos sons a cidade

e ao habitarmos a ilha que, do nada,

emergiu à nossa volta deserta.

O cume da noite, de contemplações

em aromas de sal e doçura,

escancarou a verdade há muito na mesa

no enlevo cavado de marés cheias

e nos sussurros em desejos submersos.

Mas a carne,

apesar da agitação dos seus rios silvestres,

já teria desatado os nossos laços

se eles não se multiplicassem, fecundos,

a cada vez que nos descobrimos.




quinta-feira, 8 de abril de 2021

Perfeccionista [326]

 

Há, no seu sangue,

um instinto para o debruar contínuo das formas.

Não direi que o faça com afeto, ainda que,

a cada tropeção, logo se apronte um recomeço.

Mas o desejo irreprimível para bolear cada esquina

torna qualquer forma perpetuamente imperfeita.

Nesta atração pelo suplício de Tântalo redondo,

tenta alcançar o prodígio

tateando toda e qualquer zona irregular,

não sabendo que será para sempre lembrado

pela teimosia das mãos, que não param de polir.

E tem, antes da aurora, a costumeira aflição:

as formas, a retorcerem-se de loucura sem remédio,

acordam-no com a luz estroboscópica do pesadelo,

onde faz palavras cruzadas num jogo de xadrez.



quinta-feira, 1 de abril de 2021

Agarro a tua luz [325]


 

Agarro a tua luz

mal te desenhas em tons cálidos

e a tua cor se entrelaça

no desejo dos meus dedos, ávidos de ti.

Com um murmúrio envergonhado,

inundas a leitura dos meus gestos

e estrangulas vendavais

em demoras calculadas pelo corpo.

Adenso-me

no fundo do teu verbo de água,

numa dança sem império,

e é na prisão que morremos abraçados.



quinta-feira, 25 de março de 2021

Todos somos suspeitos [324]

 


Nesta mansidão agreste,

vivemos entre exércitos de más-línguas

e legiões amorfas a acreditarem no que parece.

Suspendemos o alento com o credo na boca

entrincheirados na virtude que não temos

e disparamos aromas

com o sabor torto a fel, direito a todos.

Vivemos sem nada palpável

entre as mãos do presente e o corpo do futuro,

numa trágica aparência de anjos

à espera que os demais tudo resolvam.

E, nesta inutilidade

de só vermos nos outros o pecado marcado na pele,

sem vermos os ciscos nos próprios olhos,

ninguém tem culpa de nada e, por isso,

todos somos suspeitos.


quinta-feira, 18 de março de 2021

Li o teu livro [323]

 


Li o teu livro até de madrugada

e já me ardiam os olhos quando adormeci

a percorrer-te nas entrelinhas.

Pintavas o meu corpo com as mãos

nos segredos do teu, de olhar semicerrado,

como se estivesses presa

à felicidade de um faz de conta de menina.

Mostraste-me todas as telas

penduradas nas paredes do teu corpo,

que se foi desabrochando

à medida que as nossas palavras se amavam.

Acordei abraçado à luz das tuas linhas,

de olhos pregados na tua pele garrida,

não apenas de ideias,

e desperto para continuar a ler a tua realidade.


quinta-feira, 11 de março de 2021

Não digas sequer uma palavra [322]

 

Não digas sequer uma palavra,

porque ver abrir o desejo

nos teus olhos fechados

é saboreá-lo antes, uma e outra vez,

é senti-lo mais fundo

que o mais alto dos suspiros

a esbracejarem à cadência do teu peito.

Não digas sequer uma palavra

até que o prelúdio desmaie

e a tua voz respire o latejar dos teus seios,

anunciando o que não cabe

à tona arrebatada das palavras

[só à profundidade dos sentidos].

Não digas sequer uma palavra,

porque és tão genuína como o sol

que faz crescer as plantas em silêncio.