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quinta-feira, 11 de julho de 2019

O sorriso dos teus olhos na lapela




As flores do verde maio,
ao tocar nesse teu maduro violino,
não mais terão sombra
na sinfonia de cores da nossa porta.
Na boca,
terás uma rosa à janela da alegria
e eu o sorriso dos teus olhos na lapela.
No rosto, a fertilidade
da vertigem das alturas será tua
e o trinado limiano do teu corpo
a corrente do meu rio de lembranças.
Até que tudo seja pó,
serão as plantas vicejadas pelo teu canto
a suster a minha entrega
de raízes em ti firmes,
nutridas pela chuva de flores e pólen
a cair do telhado
em permanente construção.



quinta-feira, 4 de julho de 2019

Na carícia repartida a quatro mãos




Na carícia repartida a quatro mãos
o cabelo renuncia ao penteado
e o vento afasta o rumo da palavra.

No denso gosto da luxúria do querer
pode rasgar-se a cortina
da prova da janela nunca aberta.

E é a espada e o sim que se entrelaçam
para que a pele se dobre e se atordoe,
para que a nascente
brote e morra, engolida e sequestrada.

É o insano e primevo beber
da loucura líquida
no zénite da sua matriz mais sólida.



quinta-feira, 27 de junho de 2019

Há rosas que nascem das pedras



Há rosas que nascem das pedras,
sem água nem sol,
mas que, quando sentem o céu,
passam a ter o pólen dos amantes.

As nossas, surgiram assim,
e foi para elas que criámos a chuva
e que concebemos o seu perfume
regando-as com palavras.

Mas eu fico estranho
quando não há meio de colher as pétalas
com vida na tua boca, porque, assim,
não posso tocar os teus seios.

Quanto anseio por te amar
depois de te beijar com asas de céu
para que as pedras e as sombras
se afastem e eu não padeça…

O que fazer nos intervalos de ti se,
quando toco a tua rosa,
ficas sem corpo e o meu tem de renascer
quando se apaga no teu?




quinta-feira, 20 de junho de 2019

Deixemos o amor livre como a onda



Ao amor, no seu perseverante deambular
por curvas não equacionáveis,
não devemos obrigá-lo a acomodar-se,
para que, no seu mar nem sempre chão,
possa emitir o seu lamento ou a sua exaltação.

Deixemos o amor livre como a onda
que, ao inútil e utópico propósito de ser colhida,
prossegue, impávida, a sua equação
na lealdade ao ignorado fulcro que a gerou,
resistindo, até, às falaciosas voltas que o vento inventa.

Seja o amor, então, o epicentro da emoção
sem se apartar da razão inexplicável de si próprio
e desfrute das chamas que o seu fogo incita e alimenta
na sua combustão interminável,
porque é nuclear e não vem de um sol que arrefeça.



quinta-feira, 13 de junho de 2019

Dar voz ao coração



Quando não há candeia
a alumiar o caminho, apesar de claro,
é perigoso deixar de ouvir
a voz do coração.
Quando essa candeia existe,
são os nossos passos
que falam mais alto,
porque a luz brota dos pés
e a ordem rebenta nos dedos da vitória,
num contentamento
tão fundado como o ar que respiramos.
Por isso, há que abandonar
a culpa do silêncio e dar voz ao coração,
há que devolver o rumo
ao nosso porta-aviões [se à deriva]
e ver as caixas negras
de cada cicatriz do coração.


quinta-feira, 6 de junho de 2019

Escuta o canto pungente das mãos




Escuta o canto pungente das mãos
que te procuram
e que da espera se contorcem na tristeza.

Não há pranto, não há nuvens
para que o amor fique num canto
amordaçado e ferido, porque
a cada minuto sem ti
há um mar de incertezas
que no meu pensar se afundam
com uma pedra ao pescoço do desencanto.

Sem ti, sem o teu fogo,
sou um coveiro de sonhos
a remexer nas cinzas
do que não foi queimado na fogueira
do teu não.



quinta-feira, 30 de maio de 2019

Passa mais vezes por mim




Quando passas,
há um baque açucarado
que me desmancha e constrói,
que me faz estremecer e serenar,
num síncrono acelerar e travar.

Talvez,
de mim escondidas,
uma parte se assuste e outra rejubile
como a noite fria se aquece
no remanso dos teus braços.

Talvez,
mas não há forma de saber o fruto
e de sentir as raízes tropicais
que em mim se espalham
e comandam como hospedeiro cativo
sem que me fales de amor.

Em todo o caso,
passa mais vezes por mim.