Sem o espaço ou sem a matéria
não vejo o tempo nem a sua medida.
Como não vejo Deus,
sem o Pai, O Filho e o Espírito Santo.
De resto,
o relógio é limitado,
não serve para calcular as emoções
e não existem apetrechos
para avaliar os sonhos.
O tempo, não sei bem o que é,
mas será apenas um invólucro irreal
para ordenar o real,
só que ficam de fora as partículas que,
na sua deslocação quântica,
não gastam tempo
nem percorrem espaço
para surgirem a grandes distâncias.
Se penso sem pressa e demoradamente
dentro do comboio em andamento,
qual a velocidade do pensamento?
Serão síncronos
o meu pensamento,
as palavras que agora escrevo
e o fumo do meu cigarro?
Intuo um engano nestas considerações,
mas desconheço a arte
e o engenho para iluminar tal equívoco.
Reconheço a inutilidade destas reflexões,
mas a verdade é que não percebo o que,
sendo impalpável,
nos mede e nos abate sem exceção.
© Jaime Portela, Fevereiro de 2026