Translater

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Dezembro não existe [308]



Em Dezembro,

as ruas apartam a neve da fantasia,

mas a felicidade oferecida não é o fruto

da seiva que alimenta colheitas

de momentos sem tempo.

Em Dezembro,

a felicidade é empacotada

em doses de palavras

vendidas com lacinhos de gestos voláteis.

Dezembro não existe, foi inventado,

é o output de um chip que nos implantaram

para termos o sorriso

com a declinação precisa das miragens.



quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Por ti [307]

 


Por ti, eu corto os pulsos aos dias

e, das noites, arranco devoto as raízes,

para que mentiras ou verdades

sejam profanos cantos de vida,

mas do pecado absolvidos.

 

Por ti, sou capaz de me ofertar

em prodígios de pão e de vinho,

de te despir sem macular o sacrário

e de afastar o desapego

desses verdes olhos sem cor.

 

Por ti, posso agarrar o sol, inteiro,

para enxugar do teu corpo a dor,

do teu sorriso posso romper a prisão

e beber o grito libertário

no cume festivo do êxtase partilhado.

 

Por ti, em qualquer caso, serei

chuva benfazeja ou sopro milagroso

das feridas malfeitoras do teu peito.



quinta-feira, 19 de novembro de 2020

Trôpegos [306]

 

Trôpegos, caminhamos dúbios a rezar

por um céu mais limpo e luzente,

somos medíocres infalíveis

a promover mediocridades

ou andamos de rastos

na secura do martírio transpirado

em desalento coletivo.

A postura, num modo desviante

e desgraçado em tempos traiçoeiros,

porque ficamos focados

nas consequências da noite

à luz de faróis invertidos

que não iluminam as causas,

dobra-nos a convicção pela espinha

e não rompe o manto escuro

que nos ata a crescença.

Humanos, somos gente descuidada

sem estrela nem rumo, que se lamenta

e não se governa no barro da hipocrisia

onde alegremente fervilha,

nem se deixa governar no lamaçal

que sem o sentir o perfilha.



quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Escrevo-te [305]

 

Escrevo-te

no meio de uma linha de montagem

de pássaros felizes, que das palavras

se perfumam apressados na tua direcção,

enquanto me penso percebido

pela árvore do teu sentir

e onde pousam com este canto nas asas.

 

Serás minha confidente se devolveres

os pássaros anilhados com palavras tuas,

sublinhadas pela mão que olha de frente

e agarra consistente as emoções.

 

Serás minha amante se vieres até mim

montada nos pássaros, pela urgência de ouvir

a tua própria alma, apregoando palavras

a calar o teu silêncio de laços por abrir.

 

Serás minha confidente

se o teu corpo não se acrescentar ao meu

nas asas do desejo.

Serás minha amante

se fores lava enquanto me beijas

rubra na aventura incerta da nascente.

 

Serás minha

se as tuas cartas tiverem o selo do amor

com o carimbo da paixão.



quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Parece que foi ontem [304]

 

Parece que foi ontem

que nos vestíamos de fogo

para transpormos riachos

sem nos molharmos por dentro.

Ficávamos de pele encharcada e,

com a boca na brisa que em nós rebentava,

despíamo-nos ao sol

para colher o silêncio das flores

no ventre da vida.

 

Parece que foi ontem

que pintámos o estio na alma

para profanarmos os nossos segredos

em rios de margens intangíveis.

E, de cada vez

que o desejo se imprimia na carne,

a cor dilatava-se

em pinceladas de sussurros,

plasmados ao corpo em delírio.

 

Parece que foi ontem

que me deixaste

ao sabor da procura dos teus beijos,

perdido no caruncho da saudade

com a pele de um mendigo

de corpo e alma perdido,

sufocando à míngua da tua brisa,

morrendo só, na memória do teu fogo.



quinta-feira, 29 de outubro de 2020

O gato e o rato [303]

 

Estando à mesa, não estou na mesa contigo.

Contudo, foi bom termos jogado

enquanto o jogo durou.

Acordei na renúncia do teu fado

porque o jogo da verdade terminou

por falta de cartas não viciadas.

Ainda que não te veja, nem tu me vês,

sei que continuas a beber o vinho da fantasia

na certeza de que o jogo continua.

Só que , nesta trama de mãos deturpadas,

continuaremos contrários

no segredo do gato e do rato.

Mas previno-te que podes ter adormecido gato

enquanto eu como da realidade as espinhas

e, ao acordares, eu ser um gato contigo.



quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Perguntas-me quem somos [302]

 


Perguntas-me quem somos

e eu escuto no espelho

o meu hálito impregnado de ti.

Corpos previsíveis

ou almas reais no saber maduro

que exaltamos a cada alvorada verde?

 

Sei que tatear o aceno dos teus seios

e sentir a explosão sedutora

da mocidade no teu rosto

é a senha de uma réplica a apontar

um jardim prometido pela mira do destino.

 

E também sei que as tuas mãos

pensam nas minhas,

que hão de chegar ao teu corpo

com o desejo de te tocares

como rosa por abrir,

cuidando que as carícias são minhas.

 

Por isso,

respondo-te que é o teu ser

que me faz sentir o que pareço,

que não sei se é diferente do que eu sou.

E vice-versa.



quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Guardadores de rebanhos e gaivotas [301]

 


Os rebanhos de algodão,

ao entardecer,

desciam às pastagens dos nossos sossegos

e apenas a suavidade das gaivotas

reflectida nos teus olhos

parecia querer abarcá-los.

Enquanto as nossas bocas se arrebanhavam,

havia um mar à nossa volta em gritaria

com o desejo de caber

na cegueira serpenteante das mãos,

ávidas em percorrer algodoeiros dóceis.

Abrimos, ao mar, todas as portas do peito,

e passámos a guardar

os rebanhos e as gaivotas dentro de nós.



quinta-feira, 8 de outubro de 2020

Vejo-te [300]

 


Vejo-te, nítida,

projetada sob as pálpebras cerradas,

mas inacessível

aos sabores proibidos do Olimpo.

Vejo-te, já cego,

salpicada de estrelas,

nuvem de pele macia, frutada,

mas numa fuga voluptuosa de seda inatingível.

Vejo-me, invisível,

no compasso da luz a ninar-te o coração,

a flutuar nos teus fluidos e, num pestanejar,

a percorrer as estrelas contigo.

Vejo-te, visivelmente minha,

por entre as pálpebras descerradas,

mas nem por isso menos proibida.