Na claridade da febre,
ouvem-se sombras no chumbo das botas
e torresmos de povo que não destroça
ao som de pássaros marrecos
abocanhando trapos.
A multidão vai resistindo
numa preguiça de entranhas
às hélices que revolvem os cantos.
As tendas, simbólicas,
são arrastadas no pacifismo do largo
enquanto uma via látea de galos sabidos
aplaude o crepúsculo do silêncio.
A resposta da ordem é implacável,
desigual e canina,
passa por nós no Rossio e nas praças
a borrifar-se para a carência
e para o milagre das rendas tão altas,
abrindo caminho ao triunfo dos porcos.
Não haverá vingança
para os galos da construção populista,
de tão cevados e fétidos
não servem para um churrasco.
© Jaime Portela, Outubro de 2026