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quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Para não ficar calado



Escrevo
como um pássaro que voa
sem motivo aparente,
livre como o vento
e à custa do vento.

Escrevo
sem precisar de falar a verdade,
sem me servir da mentira,
recorrendo à ficção ou à realidade,
a todas elas
ou ao seu contrário.

Escrevo
palavras que correm
de mãos dadas ou às avessas,
embaladas quase sempre
em doses ponderadas
ou desmedidas,
sem escola nem guião.

Escrevo sempre
sem razão convencido da razão,
muito ou só um bocado.
E quase sempre,
ou mesmo sempre,
para não ficar calado.



quinta-feira, 9 de agosto de 2018

O meu cão


Despiste as vestes do passado
para trajar o futuro da vontade fugaz.
Ficaste assexuada
no vazio de emoções quando a paixão
já não te rasgava as entranhas.

Sangraste, exauriste até à gota derradeira
a tua seiva aturdida
na transfusão ininterrupta de caminhos
cada vez mais destroçados.

Emudeceste, ensurdeceste,
para que os nossos tímpanos
continuassem virgens ao engenho das palavras.

Trocaste a tua pele de tatuagens genuínas
pela aparência maquilhada
de uma boneca de pilhas.

Abandonaste braços, mãos, pernas e olhos
para que eu não algemasse a tua fuga para a cegueira.

Amputaste neurónios, pensamentos e verdades
no desassossego de madrugadas vazias de sentido.

Atiraste para a lixeira
o que restava do teu corpo enlouquecido,
sem perceberes que a sua reciclagem era impossível.

Suicidaste-te para que nada mais te pedisse.
Enterrei-te, bem fundo,
a cadeado no meu paiol da indiferença,
para que o meu cão não te desenterrasse
e morresse envenenado
ao trazer-te de novo para mim.

Enterrei-me
à mesma profundidade que tu, a teu lado,
morri envenenado ao enganar o meu cão
quando voltaste para mim.




quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Surgiste



Surgiste
de sorriso livre de promessas
com as têmporas fascinadas
na claridade de uma fogueira
virgem no corpo.
Através de um periscópio distraído,
mas emerso,
vi-te a naufragar sem amparo,
exausta, a embalar sonhos sem olhos
num mar perpetuamente bravio.
Lancei-te boia e retenida
e mostraste-me o vento seco e frio
a trincar os teus pés descalços,
verdes pela ausência de beijos
mas delicados pela brancura da espera.
Deste-me o trigo do ser
penteado em madrugadas ao vento,
sonhos de liberdade
na seara por ti engalanada
com espigas de certezas.
Resta sabermos depurar o desejo,
o sumo e o resumo da vida,
ainda que a ampulheta
continue a vazar o tempo na areia.


quinta-feira, 26 de julho de 2018

Foge de mim




Nunca mais quero ver
a tua cegueira
bem maior que a de um cego.
Foge para o além da tua carne marcada
de recortes sedentos,
veste armaduras
para que as minhas mãos tropecem
e não avassalem espaços
destroçando os teus segredos.
Arranja fortalezas só tuas
de azimutes verdadeiros,
onde a fogueira não morda as ameias
da derradeira gota de paradoxos.
Rebenta em flores de pétalas e asas
e voa em archotes de verdade,
porque a tentação
é a árvore mais alta da serra.
Foge de mim
para que não me perca loucamente
na demência da tua carne
e me embriague
no sonho da terra fértil e pronta
do teu poema feito mulher.




quinta-feira, 19 de julho de 2018

Versos na areia




A noite
é uma lua diurna sem chama.
O meu rio
é um mar de estrelas sem praia.
O silêncio
é um remanso sem rua de palavras.
A nova que se renova,
mas não mostra a outra face.
No chão,
vejo-a nua na distância
do seu véu de luz usual.
A noite ofega
e a lua nega-se cheia, sem ânsia.
O mar, com tanto isco,
mareia sem moliços no papel.
As estrelas, já orvalhadas,
dançam na rua feia sem nada.
Corro o risco, mas arrisco,
risco estes versos na areia.



quinta-feira, 12 de julho de 2018

Não quero miradouros




Não quero miradouros
para vertentes de passados
nem quimeras opacas
de horizontes sitiados.
Prefiro mãos-cheias de acenos,
de rumos
com impulsos urgentes.
Não me entregarei em feitiços
adornados com verbos perecidos
ou mascarados de risos contentes.
Quero alento
inundado de futuro,
incerto mas verdadeiro,
ávido de ímpetos de vento,
com fantasias de mar
e asas de liberdade.
Quero respirar o meu sopro
em gritos com fôlego,
pleno da ousadia inaugural
e do recomeço permanente
mas nunca igual.



quinta-feira, 5 de julho de 2018

Somente



Somente o peso do dever
arrisca estrangular
a vaga libertária que há em ti,
indecisa.
É a nudez da leveza que te seduz
na procura de traições
numa rotina de caprichos redutores
vestidos de fogo
em ombros despidos,
na razão esmagada pelo prazer
como alguém sufocado pelo vício.
Esgravatas equilíbrios
que desvendas na deusa
e na prostituta que há dentro de ti,
na existência amealhada
em inventários impossíveis,
na procura de essências que viveste,
sem as viveres,
para saberes viver como sabes.
Ou então, minha amiga,
sabes, sentes e vives,
e eu é que estou estrangulado,
corrompido ou viciado na existência
de prostitutas e deusas.