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quinta-feira, 19 de maio de 2022

Tempo de rosas [402]

 


Amanhã,
quando o poema invadir os teus braços
e percorrer inteiro as veias do teu corpo,
será nas mãos que revelarás
a perceção do desejo

que há na luz do teu olhar.
Acordarás, então,
a perfeição dos teus seios
e a ternura inundará a tua pele,
moldando-te a voz
em timbres que julgavas esquecidos
nas palavras da memória submersa.
Haverá,
nesse tempo de rosas, bandos
de andorinhas perfumadas no teu rosto,
mas não será minha essa virtude,
já que me darei em silêncio
para não paralisar a beleza do teu voo.

 

© Jaime Portela, Maio de 2022


segunda-feira, 16 de maio de 2022

Exijo que me indiquem o caminho [401]

 

Exijo que me indiquem o caminho
para sair do buraco da guerra
[mais fundo e ainda mais vasto
que o Curral das Freiras]
onde estamos atolados.
É preciso recusar esta aldeia global
onde não há paz

e onde há cultos apregoados

omitindo o tributo da riqueza.
Exijo ainda que me tragam brisas
dos paraísos fiscais,
para onde foge muito do nosso suor,
onde hastearei uma bandeira
no mastro da nossa vitória.

Mas precisamos, já e não depois,
que a verdura cresça de novo
na janela do nosso otimismo
antes que a chuva lave as ideias,
para que os mísseis não se arrastem
no passo frio da mansidão das sanções.
Também exijo que nos devolvam

todas as pombas brancas que fugiram

por falta de ramos de oliveira.
Precisamos, afinal,
de enterrar o pesadelo das bombas
para ordenar a fertilidade
como a única lei do recomeço
e acordar na leveza compacta
das coisas triviais.

 

© Jaime Portela, Maio de 2022


quinta-feira, 12 de maio de 2022

Estamos zangados com a lua [400]

 


Estamos zangados com a lua,
com o céu
e com o que se passa na rua.

Andamos com esta desavença
na mala onde guardamos
as inutilidades que conquistamos,
mas a nossa alma é a mesma:
é uma liga de inferno e paraíso
caldeada pela luz
e pelas trevas do que somos.

E somos apenas a convulsão
de uma coisa que não dominamos.

Mas vivemos,
porque somos génios da ambiguidade
entre o grande e o elementar,
engrenados na imperfeição
das rodas dentadas humanas.

 

© Jaime Portela, Maio de 2022


segunda-feira, 9 de maio de 2022

Calamos o sentir [399]

 


Calamos o sentir
que brotou do nada
e escondemos
o que nos transcende.

E não sei
se a querença oculta
é igual à descoberta,
porque a raiz não perdura
sem a clorofila das folhas.

Será que
as coisas que escondemos
acabam por morrer?

 

© Jaime Portela, Maio de 2022


quinta-feira, 5 de maio de 2022

Apesar dos amanhãs paralelos [398]

 


Apesar dos amanhãs paralelos
inscritos na carne,
onde a luz que nos desliga
das sombras é recíproca,
temos facas cravadas nas têmporas
e dormimos acordados
à espera de um milagre,
quais abelhas ferradas no aroma das flores.

Possuídos apenas desta vida,
que nem sempre entende
a virtude da entrega solidária,
somos o laço de sangue que nos debela,
ao ponto de não nos sabermos desenhar
em rios, mares e florestas
nem desatar os pulsos
da cruz que nos aparta da essência.

 

© Jaime Portela, Maio de 2022


segunda-feira, 2 de maio de 2022

Há em ti [397]

 


Há em ti
prazeres que fecundam os sentidos,
onde as cores
dos mares que te habitam
reproduzem braços quentes
que me concebem.

Há em ti
prazeres que se abrem no regaço
e se afundam no teu sorriso
de ave colorida,
pintando as sementes
espalhadas pelos vales do teu corpo.

Há em ti
prazeres que se despem
na loucura que os meus olhos restituem,
vestindo-te do vinho
que bebemos
na loucura da taça da luxúria.

 

© Jaime Portela, Maio de 2022


quinta-feira, 28 de abril de 2022

Pássaros altruístas [396]

 


À margem dos sentidos que as mantêm cativas,
trago comigo palavras que me querem decifrar,

que lutam entre si

para me dividir indignamente
e devassar esconderijos que desconheço.
Destes pássaros altruístas,

que cantam ao sol continuamente de graça,
não fujo nem me salvo,
porque entre eles e eu há uma certeza cravada
que se arruína mal se constrói à deriva do não dito,
naufragando sem rumo  nas brumas do sentido.
Apesar disso, em fila indiana,
o rebanho silvestre das palavras vai sendo riscado
em poemas vivos de pássaros

que se constroem pousados nas linhas,
na mira dos contornos de um confuso retrato
que mesmo impreciso descubram.

 

© Jaime Portela, Abril de 2022


segunda-feira, 25 de abril de 2022

Na solidão [395]

 


Na solidão,

ouvimos o silêncio infiltrado na voz.

Procuramos um e outro amigo,

mas eles nem sempre têm guitarras

com as cordas no tom do nosso fado.

Então, mendigamos cores

para pintarmos o fogo

que nos falta dedicar

ao vento de assobios quentes.

Na solidão,

vemos a ausência furada nos olhos.

Abrimos a boca nua de palavras

mas nem sempre acode um vizinho

para nos dar o braço que alumie.

Então, imploramos por cravos vermelhos

para tirarmos as mãos tristes da testa

e acenarmos ao que nos foge sem freio.

Na solidão,
não é de luz a liberdade de Abril.

 

© Jaime Portela, Abril de 2022


quinta-feira, 21 de abril de 2022

Palavras mutiladas [394]

 


Se o que eu digo fosse arte,
não seria de censura
o nó que me confina a liberdade.

Nem sentiria
a ardência do vinagre
nas feridas abertas da ausência.

A luz,
que me fere como um laser,
teima em cortar
a audácia dos meus dedos.

E saem de espinhos
encravados na garganta
as palavras mutiladas que sufoco
e que não ouves.

 

© Jaime Portela, Abril de 2022


segunda-feira, 18 de abril de 2022

Da tua nobreza [393]

 


Da tua nobreza, na invencível candura
que dentro me inspira sujeito,
respiro os mil e um devaneios
em sonhos que o senso frágil não doma.

Vejo os teus cantos pelos recantos
do corpo em sobressalto
e sinto, na alma, a convulsão da entrega
semeada na palma da voz.

Do verbo, que seduzo demiurgo,
és o cetim sensual desta ímpar labuta
no tear de amanhar os sentidos.

Persista o tempo do encanto,
que não o penhor da rotina,
e seremos [e]ternamente [in]esperados.

 

© Jaime Portela, Abril de 2022