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segunda-feira, 13 de abril de 2026

Ensaio irrepetível [663]

 


Esvoaçam, sobre nós,

certezas de atrocidades estáticas.

Cheios do que nunca abraçámos,

estamos sôfregos da paz que não existe.

 

Poderíamos carregar as coroas

de todas as guerras que impedíssemos,

mas trazemos apenas

as mazelas das que permitimos.

 

Há quem morra sem ter vivido,

há quem pense sem ter pensado,

mas somente se vive o que se sente.

 

E a vida,

involuntária e de início aleatório,

é a certeza entre o espanto e a incerteza,

é um ensaio irrepetível.

 

© Jaime Portela, Abril de 2026


segunda-feira, 6 de abril de 2026

O vinho brando da languidez suave [662]

 


O vinho brando da languidez suave,

como um aconchego frágil,

entranhado e congelado

pelas dificuldades estrada fora

e desmaiado nas fontes

divorciadas dos olhos parados,

é venerado pelo povo

como um servo a um tirano subjugado.

 

Invade-o um ocioso saber agitado

em que, feito médium,

pressente aparições,

retorce cotovelos de conceitos

e que, no meio de emoções alternadas,

julgando-se certo,

se desarruma embaralhado.

 

 

Pensar e ajuizar,

misturam-se até se tornarem

numa desventurosa e convicta amálgama

de credos e sentimentos,

em que os factos e as perceções,

de tão confusos, ficam iguais

como água misturada no vinho,

uma zurrapa que, só de cheirar,

já dá voltas ao estômago.

 

© Jaime Portela, Abril de 2026


segunda-feira, 30 de março de 2026

Desperta [661]

 


Desperta,

ouve como a floresta canta:

os ventos são sussurros de uma orquestra

onde os riachos são violinos

num concerto de perfumes,

do pinho à madressilva.

 

Desperta,

podes ser um pássaro ou uma estrela

a sobrevoar o arvoredo

e esquecer a corrupção obscena da bolsa

ou a morte que espalham divertidos

os três mosqueteiros assassinos,

Putin, Trump e Netanyahu,

semeada sem dó na Ucrânia, no Irão,

na Faixa de Gaza e no Líbano.

 

Desperta,

sei que não ouves a floresta

não és um pássaro

e nem as tréguas da Páscoa te salvam,

mas compra uma máscara

porque os fumos tóxicos da guerra

vão chegar à tua garganta

antes que dês um tiro nos bandidos.

 

© Jaime Portela, Março de 2026


segunda-feira, 23 de março de 2026

A lei do mais forte [660]

 


Mergulhados no arbítrio

e num alento indefeso,

as fraturas

de um globo insanável

são loucamente geridas

por interesses obscuros

nem sempre declarados.

 

Não há linhas vermelhas

nem mistérios,

não há benevolências

nem desculpas,

há a lei do mais forte

para confiscar

os bens dos mais fracos.

 

© Jaime Portela, Março de 2026


segunda-feira, 16 de março de 2026

O horóscopo [659]



De fogosa e surreal,

tal como a carta astrológica antecipava

(censurado para menores de 18)

a ocasião foi sagrada.

O corpo claro do sonho,

imerso em primaveras inimagináveis,

fazia acabar a ideia agreste

do desperdício da vida.

 

Tudo renascia, apesar do engano,

como se antes houvesse

algo mais pesado que algodão.

Adivinhar o porvir é uma perda de tempo,

há sempre um nevoeiro

que se infiltra no cérebro

e o futuro sabe a passado, até a bolor.

 

Logo, no desencanto de afinidades,

os rios passaram a chorar por osmose,

num orvalho sem cloreto de sódio

ao som de uma melodia indistinta

de flores à procura do sol.

 

As nossas sortes,

polichinelos que a cáfila cuspiu,

são tiros remotos no escuro,

penumbras fugazes,

sonhos inacabados

sem que haja um deus que os salve.

 

Mas houve um lado saudável:

os silêncios consagraram de real

o navio que zarpou do cais

e não mais foi avistado um regresso.

E o vapor do ser, ilacrimável,

desenroupou os limites do nada,

sobrevivendo apenas a tristeza

das águas dormentes da ausência.

 

Milagre, só se voltares,

mas os ventos dizem

que nunca mais chegará qualquer nau

e os pombos do teu correio

ficaram sem GPS nas asas.

Pensa em mim e Deus talvez acorde

por ser em mim que tu pensas.

Talvez eu descanse, talvez eu esqueça.

Entretanto, vou queimar o horóscopo.

 

© Jaime Portela, Março de 2026

segunda-feira, 9 de março de 2026

Da inteligência artificial [658]

 


Nesta era da inteligência

sem massa encefálica,

porque artificial,

só o culto sistemático

das nossas aptidões

para imaginar,

para estudar

e para executar

pode ajudar à preservação

do nosso caráter

para que que não se destrua,

não se anule

ou fique semelhante aos demais.

 

 

© Jaime Portela, Março de 2026


segunda-feira, 2 de março de 2026

Entre a mosca e a brisa [657]

 


O nosso fado é o declínio,

o sopro dos prantos

que nunca tiveram vício

passa a fustigar os sonhos

e o nosso império vai definhando.

O incolor desramado,

outrora floresta verde,

força-se a ilustrar

o vácuo da deslembrança

com o esquecimento mergulhado

em nascentes desperdiçadas.

As estrelas eram fluentes,

eram águas cristalinas

que irrigavam as retinas,

mas o amor vai adormecendo

em pontos fixos das serranias da vida.

E, finalmente,

pouco ou nada se passa

entre a mosca que pousa no prato

e a brisa que a empregada provoca

quando serve a sobremesa.

 

 

© Jaime Portela, Março de 2026