Translater

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

O que vejo nos teus olhos [475]

 


O que vejo nos teus olhos

é a minha casa com janelas tuas,

praticamente iguais às que tenho

abertas para ti

nas minhas arcas ocultas.

 

De unhas perfeitas,

com aromas de amor e sorrisos

estampados no vestido justo

que do teu corpo revelam mistérios,

as visões são perturbantes,

porque reais.

 

Corpórea, apesar de deusa,

és mulher a quem vale a pena

derrubar muros e levantar círios

no ar que te beija,

porque os teus lábios

celebram um culto imaterial

de fogueira sempre acesa.

 

© Jaime Portela, Fevereiro de 2023


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

A paixão [474]

 


Sem se saber muito bem como nem porquê,

a paixão nasce condenada a não viver

no turbilhão da mente.

A maioria das vezes a sua morte é prematura,

de horas ou dias,

feita apenas de vontade e sedução.

Se por milagre sobrevive,

ergue-se em silêncio, infiltrando-se no sangue.

E ouvimos e sentimos

o seu borbulhar permanente nas entranhas.

 

À sua volta o mundo desaparece,

sinal que avança e revoga,

ilusionista, o pulsar de todas as coisas.

Não repara, nem quer saber

da crueldade da vida ou dos heróis da TV.

Vive focada em si própria

inviscerando-se no corpo do pensamento.

 

Adensa-se e, com o viço,

já nenhuma força a desarma.

Sem retorno e irrepetível, instala-se

até à raiz dos cabelos,

circula ao ritmo dos ponteiros dos segundos

na energia do cérebro, subjugando-o,

e reformula o caos do planeta.

 

Então,

os sentidos não vacilam

e ignoram o cerne do mistério da invasão.

E a paixão, bom parasita,

vive da ocasião e do sangue do hospedeiro,

até morrer.

 

© Jaime Portela, Fevereiro de 2023


segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

Traídos [473]

 


Traídos

com má-fé e humilhados

de caso pensado,

estamos cansados

do caminho

sem sabermos o destino.

Será em cima da pobreza,

em qualquer caso,

a refundação deste mundo

a saque, sem rei nem roque.

Entorpecidas,

as bocas silenciam-se,

precipitando o conceito

da fome e da impotência

à espoliação.

Somos exilados

sem exílio

num desterro de esvaídos,

na penúria sem flores

em que estão a converter

este nosso jardim

de azul celeste plantado.

 

© Jaime Portela, Janeiro de 2023


quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

Brincamos [472]

 


Brincamos à morte do conformismo

e aplaudimos as grandes causas mundiais

no remanso do sofá.

Viciados na denúncia do vício da corrupção,

contemplamos a teia

sem ver a planetária pobreza dos fracos

por onde a penúria circula exangue no sangue

e sem esganar nenhum dos senhores da guerra.

E sabemos que precisamos de uma noite

de facas longas e afiadas

contra a trampa do liberalismo selvagem

que nos vão vendendo

travestido de economia de mercado

e contra a tirania

dos ditadores que persistem no poder.

Nessa noite,

que depressa dia seria,

dançaríamos ao toque de outra Grândola,

de outro Kalinka, de outro Samba,

e só estariam terminadas quando cuspíssemos

toda a revolta entalada na garganta.

Então,

despiríamos a noite em que nos ofuscamos

e trajaríamos o raiar da nova aurora.

 

© Jaime Portela, Janeiro de 2023


segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

Alguém nos convenceu [471]

 


Alguém nos convenceu,

entre outras coisas da vida,

que com o tempo as coisas só poderiam melhorar,

que deveríamos amar os outros como a nós mesmos,

que há amores proibidos,

que a comida deve ser saudável.

Afinal, estamos pior,

o bem alheio pode ser ilegítimo,

os amores permitidos vão murchando sem brilho

e morremos cada vez mais devagar,

sofrendo mais, quase sem doenças.

Resumindo,

somos pobres com amores legítimos em dieta

e padecemos plantados na espera da morte.

Gostava de saber

quem foi o figurão que nos convenceu…

 

© Jaime Portela, Janeiro de 2023


quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

Mãos [470]

 


Tenho saudades

dos comboios a vapor

e da bisca lambida

na praça cheia de mirones e pombos

com as mãos atrás das costas.

 

E tenho saudades

dos carrinhos de folha

e de brincar ao réu-réu

com as meninas da praça

cheia de mãos

não quietas atrás das costas.

 

E também tenho saudades

de viajar por rios nunca antes navegados

na valeta da estrada

com barquinhos feitos à mão.

 

E até tenho saudades

de trocar o meu leite com cevada

pela gordurenta água d’unto

do meu vizinho

na rua das mãos sem gordura.

 

Mas não tenho saudades

da ditadura do Salazar

nem dos professores

das reguadas prepotentes

nas mãos humilhadas.

 

E também não tenho saudades

da sopa dos pobres

da abastada caridadezinha

nem das meias sardinhas

no mar de mãos sem comida.

 

© Jaime Portela, Janeiro de 2023


segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

Há uma angústia [469]

 


Há uma angústia

que se agita e cresce,

numa galopada

exterminadora de sonhos

adolescida nos olhos.

 

Ninguém gesticula

da outra margem da esperança

para que trajemos de verde

e se acendam

os pássaros de sol

dentro de nós.

 

Os rombos do navio

são o rosto dos malefícios

que queremos apear

e as injustiças

são os remos da premência.

 

O tempo de amarinhar

para escapar aos naufrágios

é sempre agora.

 

© Jaime Portela, Janeiro de 2023


quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

Sei de um pintor mentiroso [468]



Sei de um pintor mentiroso
Que diz saber o que faz
Mas é um ser ardiloso
Inoportuno e voraz

Está vendido ao carreiro
Com ar de santo acabado
Só quer o nosso roteiro
Para entregar ao parado

O costume é o vilão

De quem ficar no borralho

Agarrado à tradição

Diz que teremos atalho
Através da salvação

Da preguiça sem trabalho

 

© Jaime Portela, Janeiro de 2023