Desafino a cantar qualquer música
Não aprendi a tocar instrumentos
Mas percebo a música/bastão do governo
© Jaime Portela, Outubro de 2026
Desafino a cantar qualquer música
Não aprendi a tocar instrumentos
Mas percebo a música/bastão do governo
© Jaime Portela, Outubro de 2026
Na claridade da febre,
ouvem-se sombras no chumbo das botas
e torresmos de povo que não destroça
ao som de pássaros marrecos
abocanhando trapos.
A multidão vai resistindo
numa preguiça de entranhas
às hélices que revolvem os cantos.
As tendas, simbólicas,
são arrastadas no pacifismo do largo
enquanto uma via látea de galos sabidos
aplaude o crepúsculo do silêncio.
A resposta da ordem é implacável,
desigual e canina,
passa por nós no Rossio e nas praças
a borrifar-se para a carência
e para o milagre das rendas tão altas,
abrindo caminho ao triunfo dos porcos.
Não haverá vingança
para os galos da construção populista,
de tão cevados e fétidos
não servem para um churrasco.
© Jaime Portela, Outubro de 2026
Eu num palácio verde, concentrado
nos barulhinhos atrevidos das bolas,
eu matemático
embrenhado nas probabilidades,
eu vidente
na certeza do futuro dos segundos,
eu magnético
a tentar parar movimentos com a mente,
eu personagem empírico de silêncios,
eu aprendiz de psicólogo,
eu… eu, na verdade, nada disso,
eu somente um desafortunado palerma
homocêntrico e estúpido
a perder tempo e dinheiro na roleta,
de pálpebras impávidas, paralisadas
a pestanejarem angústias.
© Jaime Portela, Outubro de 2026
Na fuga à ligeireza alegre
com que vou fruindo da minha inteligência,
vou-me perdendo
numa letargia de gato com que espio,
por entre pestanas preguiçosas,
os trejeitos da coerência
da minha desatada fantasia.
Vou-me perdendo
enquanto me desaparecem
os encargos dos deveres,
as abundâncias auríferas
sob a sombra das janelas
que fabricavam miragens
e o murmúrio das cachoeiras esganadas
pelo sopro dos incómodos nos ouvidos
que vou confundindo com a festa dos bombos.
Cativo do carácter e dos contextos,
vou-me perdendo
ultrajado pela impassibilidade cobarde
em acabar com as guerras
e na fantasia de que terminem
as afrontas fatalistas do destino
a que estamos irremediavelmente condenados.
Vou-me perdendo, ainda,
no labirinto que nos constroem
enquanto os coelhos vão mastigando a noite
indiferentes a nós todos,
os verdadeiros bombos da festa perdidos.
© Jaime Portela, Outubro de 2026
Se sentes ódio por alguém,
tens uma espada
a perfurar-te o coração.
Por isso,
adormece o ódio
como a serpente
quando encanta o passarinho
e enterra-o
no fundo de um poço
inacessível.
E diz à raiva
que dos seus gestos
nada guarde,
nem sequer
a angústia do olhar.
Não deixes que a espada te fira
e deixa o coração respirar,
ensina a tua alma, com jeito,
a ética
e a benevolência do perdão,
© Jaime Portela, Outubro de 2026
O corpo é a casa, a nossa casa,
e a inteligência uma aldeia,
quiçá uma cidade ou até um mundo
para os mais dotados,
onde o acaso impôs
que vivêssemos a nossa existência.
Por isso,
sentir uma grande angústia
como um caso irrelevante,
na vida e no espírito,
é o princípio do saber viver
dentro da nossa casa.
Sentir isso no auge da angústia
é viver superiormente.
Quando sofremos,
achamos que a nossa dor é única
e até infinita.
Mas há milhões de pessoas
com dores ainda piores
e nada há na vida que seja infinito.
O nosso sofrimento não vale mais
do que a dor que deveras temos.
© Jaime Portela, Setembro de 2026
Deixa-me rir,
tu não querias que eu chorasse.
Vi-te nas ruas e no metro de Paris,
(com licença, meus amigos,
mas para a guerra não vou),
num piano aos oito anos,
à guitarra
a olhar para a tua amora morena
no lado errado da noite.
No ninho das águias
disseste a missa dos pássaros
e vi-te frágil quando dizias
encosta-te a mim.
Deste mais de 70 voltas ao sol
na terra dos sonhos
e não foste um homem invisível.
A gente vai continuar
à espera do fim
depois da tua viagem
na palma da mão.
Até lá, dá-me lume,
para ver bem o caminho
até à minha senhora solidão.
Deixa-me rir,
tu não querias que eu chorasse.
© Jaime Portela, Setembro de 2026
Poema em homenagem a Jorge Palma (Lisboa, 4 de junho de 1950 – 21 de setembro de 2026) foi um músico, cantor, poeta e compositor português.
Monitor ligado diante dos olhos
onde os horizontes se podem sonhar
por entre os lançamentos de faturas.
A graçola frequente e inútil de um colega
que descompõe todo o mundo
e leva repetidamente ao engano.
Na ponderação do intervalo mais insexual
de uma dissertação estética e mental,
toca o telemóvel do chefe.
Pelo tom da sua voz,
e porque se deslocou para o gabinete
em prudências de escaravelho,
há sexo no ar: é a sua amante.
A esposa chega na ocasião imprópria
e instala-se uma desarrumação de morcegos
que a caverna produz
para os licenciar à noite e não a meio da
tarde.
Ela entra de rompante no gabinete
e ouve-se o chefe dizer
uma das frases encriptadas do costume:
Fica então combinado,
pagaremos tudo na próxima semana.
Os morcegos voltam para a caverna.
© Jaime Portela, Setembro de 2026