Translater

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

Nítida [441]

 


Nítida,

de luz e alegria sempre rodeada,

sobressai,

mesmo à distância,

em cada gesto que da alma te procede,

a tua beleza nua

que eu avisto cristalina.

 

Longe de ti,

sou teu

na loucura do mais leve respirar,

há uma seta do cupido na brandura

que me chega

espelhada na força do teu olhar.

 

Perto de mim,

serás minha e serei louco a beijar

e a misturar

gota a gota do meu cheiro com o teu,

serás o meu Cavalo de Troia

e o rastilho deste fogo ao versejar.

 

© Jaime Portela, Outubro de 2022


quinta-feira, 29 de setembro de 2022

Tens a grandeza do mar [440]

 


Tens a grandeza do mar e o teu cheiro rompe

ao sabor das marés que trazem ao colo

o sargaço, para que durma e se convalesça

na praia do teu macio regaço.

 

Os teus seios são cavalos-marinhos

(onde ouço a tua ponderada ondulação

no receio do naufrágio apetecido),

são o fado da minha bem-amada tentação.

 

Do teu corpo, barco de sonhos coberto,

brotam vagas de chamegos que me afogam,

inquieto, aos remos de desejos indomáveis.

 

Fico assim, por ti agitado, se os teus olhos,

aos meus, me acenam carnais quando medito

deitado na genital quietude do teu mar.

 

© Jaime Portela, Setembro de 2022


segunda-feira, 26 de setembro de 2022

Sempre que o nosso pensar [439]

 


Sempre que o nosso pensar

em laços duplicados nos fala

e nos construímos prenhes sem o temor

de nos depredarmos,

situamo-nos num planeta que não existe,

onde as pessoas caminham sem máscaras,

assumindo o risco da mágoa

e o prazer da verdade.

 

Com o fulcro da realidade no bolso

podemos ser nudistas

e saber usar as alavancas da liberdade,

porque só com pontos fixos somos capazes

de mover montanhas e,

com as graças recebidas,

fazer brilhar nas planícies

as manhãs do sonho tão desejado.

 

Então, exposta a nossa imagem,

não com a maquilhagem nem com

a fantasia colorida, entretanto já despidas,

será fácil que armas e barões ouçam

todas as palavras que rimam geminadas

com o ardor dos nossos lábios.

 

© Jaime Portela, Setembro de 2022


quinta-feira, 22 de setembro de 2022

Por causa desse retrato [438]

 


Por causa desse retrato,

no tempo e no querer reprimido,

penso em ti encarcerado

e algemado à privação.

E nesse passo não dado,

não esclareço

nem mereço inteiramente

os teus braços de mulher.

Para nos preenchermos em fogo,

fátuo que seja,

dá-me o teu retrato,

numa libertação triunfante

dos artifícios da pele.

Porque é a tua ausência,

presa a cadeado nos meus olhos,

que me impede libertar

de uma só vez

o silêncio do teu grito asfixiado.

 

© Jaime Portela, Setembro de 2022


segunda-feira, 19 de setembro de 2022

São as tuas pernas claras [437]

 


São as tuas pernas claras

que banham a floresta de luz

quando elas fazem emergir carmim

a súplica acesa

da alma que se agiganta viva.

 

São os teus seios macios e firmes

que me enfraquecem

na solidez da buzina que destitui,

ruidosa,

o ouvido da razão.

 

São os teus olhos de núpcias

que me fazem estrebuchar

sem ar na tua boca

e regressar com magia

à Primavera.

 

São as nossas almas que,

de pardais,

se transformam em pombas,

emplumadas por toques inefáveis

de ossos e carnes, hastes

onde crescem as nossas flores.

 

© Jaime Portela, Setembro de 2022


quinta-feira, 15 de setembro de 2022

Não sei qual a razão [436]

 


Não sei qual a razão

de desejar

as coisas que consciente não quis.

Como também não sei

o motivo da procura,

num anseio impreterível

daquilo que está mais longe.

 

Este meu desassossego,

não talhado em pedra fria,

não é contente nem triste,

tal como não é um desatino,

porque o limite

tende a ser o caminho que distingo.

 

Assim sendo,

descobri que não sou o dono da alma,

porque é ela que se agita

na esperança do anseio inatingível.

 

© Jaime Portela, Setembro de 2022


segunda-feira, 12 de setembro de 2022

Para que a luz do Sol [435]

 


Para que a luz do Sol

nos dê bom dia,

dá-me as alvoradas do teu peito

numa carícia doce

e espreguiçada com manteiga

em pão torrado no sumo das ideias.

 

Dorme comigo,

tenho no toque um sopro de piano

e, na carne,

muita vontade

de voar nas tuas asas de gaivota.

 

Voa comigo,

vamos confundir o nosso cheiro

até que nas alturas profundas

nada mais corra

que o vago som de violinos seduzidos.

 

Antes que partas,

pedir-te-ei que pouses a cabeça

na minha travesseira,

verás o Sol a entrar pela janela

a suceder-me no teu corpo.

 

© Jaime Portela, Setembro de 2022


quinta-feira, 8 de setembro de 2022

Sem ti [434]

 


Sem ti,
os dias são um livro de artesão
com a folha mais importante arrancada.
E eu só me preocupo
com o que não existe,
porque se o que existe é bom
não me dá inquietude.
Por isso,
o teu silêncio, que me desassossega,
só deveria ser encarado
como incompetência minha,
até porque não tens voz de incapaz.
Para resolver este dédalo,
proponho-me
reescrever a folha que falta contigo,
para que possa voltar a dar-te
o artesanato que entretanto já fiz,
filigrana dos meus dias para os teus olhos.

 

© Jaime Portela, Setembro de 2022


segunda-feira, 5 de setembro de 2022

Agora é tarde [433]

 


Por que não fomos

indiferentes desde o começo?

Por que não te ignorei

nem tu me estranhaste?

Agora é tarde, a tua voz

é o livro aberto onde eu peco

sem jamais o querer fechar.

 

Se vestíssemos

o rosto de uma lembrança distante

no vazio abandonada…

Se zombássemos

da temperatura das línguas

e rasgássemos a bandeira do usufruto…

 

Mas não,

é o prazer que nos tortura

a alma de alegria e nos liberta

de enfados e remansos medonhos.

Mas não,

somos a sensatez derrotada

pela nossa própria ternura

a festejar a traição irrecusável.

 

© Jaime Portela, Setembro de 2022


quinta-feira, 1 de setembro de 2022

Morremos [432]

 


Morremos à visão branca

da luz que há na vontade acrítica

da espinha dorsal do querer

irrefragável,

no arder dos abraços

e no pegar do fogo espontâneo do corpo

sempre que a pele se abarca.

 

A barca do teu sorriso,

nas velas preciso, tão sedutor,

é uma nau muito amada, absolvida

por do cais não saber desatracar

[abriga-nos],

porque é sabido e ressabido

que os olhos são da verdade uma jura.

 

Perjúrio,

seria se o vento secasse da ideia

a embriaguez dos sentidos,

estrebuchando como viúva,

a carpir,

no inferno intestino em lágrimas perdida

ou com o anzol espetado na boca.

 

Desbocados,

no sentir,

onde afluem todas as auroras retidas,

morremos para nos acrescentarmos

em reiteradas frases de chuva dourada na pele.

 

© Jaime Portela, Setembro de 2022