Sentado no sofá,
com um copo de uísque na mão, sou rico.
Mas se o copo tiver água,
volto à infância onde quase tudo era pobre.
As prédicas eram feitas à base de proibições,
como faltar à missa, comentar a política
ou dizer mal do senhor professor,
do senhor padre ou do senhor regedor.
Aos senhores, todo o respeito era pouco.
Uma mera guloseima
pode desconjuntar-me os vigores
com a intemperança de memórias que os sacode.
Se na minha língua escorrega
o leite-creme dourado,
revivo os tachos de cobre da minha avó,
as corridas com os carrinhos de lata
ou as proezas com os barcos à vela
feitos com a casca grossa dos pinheiros.
O chocolate, talvez por ser negro,
transporta-me à lenda e às tréguas
da guerra entre cristãos e turcos
onde o casamento, ao som da contradança,
do rei mouro com a Floripes,
irmã de Ferrabrás,
finalmente enganou e sossegou Oliveiros
e o imperador Carlos Magno.
Mas é o maldito cigarro
que me restaura estados idos,
que me lava de azos mortos
e me branqueia de paz certos momentos
enquanto, paulatinamente,
me enegrece por dentro.
© Jaime Portela, Junho de 2026