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segunda-feira, 15 de julho de 2024

O fracasso [569]

 


O olhar, até então couraçado,

enfraquece no instante

em que a secura homocêntrica da boca

robustece o sentir irritante do fracasso.

 

O eco dos sonhos desfeitos,

numa dança lenta e vazia,

ressoa no amargo néctar da esperança

caída como folha de outono.

 

Mas há uma lição

disponível para enxotar o frio do malogro,

que nos espreita e clama

que o fracasso não é o fim,

é uma chance de aprender

que a vida é um constante recomeço.

 

 

© Jaime Portela, Julho de 2024


segunda-feira, 8 de julho de 2024

A vida tem apenas três partes [568]

 


A diferença

entre o mostrado na vida

que brota das mãos

e o fulgor da insinuação aparente,

suplanta o esperado.

No vagaroso bailado do corpo,

sobressai o impacto rubi

de uma boca sem pudor,

desavergonhada.

Ao som de um sedutor relax musical,

roda quase nua

no varão polido por mil corpos

que sobem, descem e se escondem

na noite de voyeurs masculinos.

A respiração da boca entreaberta

é húmida

e o movimento ondulatório

é lido como um convite lascivo,

irrecusável mas inventado.

E os papalvos não percebem

que a vida tem apenas três partes:

a que se mostra,

a que se esconde

e a que se inventa.

 

 

© Jaime Portela, Julho de 2024


segunda-feira, 1 de julho de 2024

Da depressão [567]

 


Se tens uma voz

que entoa um lamento

no verdadeiro instante

da tua respiração prolongada,

a tua mente é indomável,

é um cometa desgravitado

a cair na sua sombra.

 

Se tens inquietação

na epiderme dos sentidos,

e a tua voz se torna frágil

na força quebradiça da vontade,

vais escorregar

no pranto circunscrito

de um aterro de emoções

negro e conspurcado.

 

Mas há remédio,

começa por assumir o teu estado,

que não passa

de uma perturbação elétrica

que ensarilha

a comunicação entre os neurónios.

 

 

 

© Jaime Portela, Julho de 2024


segunda-feira, 24 de junho de 2024

Conheço os melros pelo sem canto [566]

 


A cenografia é uma constante

na postura das palavras de ficção

entoadas com o som da verdade.

 

As promessas, aparentes,

são convenientemente cosidas aos “ses”

que formigam como salvaguarda.

 

O futuro é tao brilhante como absurdo,

mas confunde a queda cúmplice

dos parciais comentadores de discursos.

 

Que, a mim, não me enganam,

conheço os melros pelo seu canto.

 

 

© Jaime Portela, Junho de 2024


segunda-feira, 17 de junho de 2024

O amor é cego quando nasce [565]

 


As palavras

são pousadas com suavidade

no regaço da flor inquieta,

entoando tónicas

as sílabas que chamam nuvens.

 

A respiração timbrada

quebra o sussurro da razão,

somente uma brisa inaudível

que não desadorna o momento.

 

O quebranto do olhar

vai deslizando sem quebras

até preencher certezas

e silenciar dúvidas do amor

que é cego quando nasce.

 

© Jaime Portela, Junho de 2024


segunda-feira, 10 de junho de 2024

Luís de Camões - II - Omissões [564]

 


Camões,

foste arauto dos mares e de glórias imortais,

em versos onde coloriste os heróis

que pela força da ambição de audazes interessados

se fizeram destemidos,

cantaste a todos os deuses

para que nenhum te tolhesse a divina inspiração

e mostraste novos mundos ao mundo.

 

Mas, à sombra dos lusitanos feitos,

há histórias caladas que ressoam nos versos ocultos

de ingloriosos saques de indígenas riquezas

e vidas que sob a bandeira de cruz e espada

era preciso ceifar

para que a fé cristã fosse por toda a parte espalhada.

 

Na busca insaciável de ouro bem velado,

libertando da culpa a cobiça os senhores da corte,

as caravelas fomentaram o luto, o ardil

e o tráfico de escravos, enquanto cantavas a gesta

a mando dos que lucravam com um império

erguido em pilares manchados de sangue.

 

Na trama dos teus nobres versos,

guardas os dolorosos fios,

as lágrimas caladas e as silenciadas vozes,

numa epopeia que deveria ser de contrastes,

onde o brilho das conquistas ofuscou o encoberto,

porque a verdade não engrandece.

 

Mentiste, por omissão, mas estás perdoado,

não tinhas outras velas ou outros mares

que te impedissem

de cair nas malhas da Inquisição do Santo Ofício

ou nos cordames da forca

dos que te pagavam a tença

nesta pobre e leda praia lusitana.

 

© Jaime Portela, Junho de 2024



NOTA:

Este poema tem por base a minha modesta convicção de que Camões omitiu do poema de 8.816 versos o lado mau das descobertas portuguesas, nomeadamente os saques, as mortes e outras atrocidades, para não cair nas malhas da censura feita pelo Santo Ofício que, mesmo assim, alterou alguns versos dos Lusíadas.

Para quem não conhece os Lusíadas e não leu o post anterior, é aconselhável lê-lo, nomeadamente o texto final. 

segunda-feira, 3 de junho de 2024

Luís de Camões - I - Epopeia [563]



Eterno, porque imortal,

o épico canto de Camões,

que da lei da morte se livrou,

ainda ecoa como um raro tesouro

num mundo de sonhos,

de amor e de odisseia.

 

Com a mestria da pintura que fala,

nas palavras, rimas e estrofes grandiosas,

da lírica da Corte à gloriosa epopeia,

em dez cantos teceu a saga de um povo,

a alma lusíada de uma nação.

 

Cinco séculos passados,

a chama do seu engenho ainda brilha

a iluminar o caminho de quem ama a poesia,

de quem abraça o jubileu

do seu perpétuo canto.

 

Passou o Cabo das Tormentas

e o Gigante Adamastor, morreu pobre,

mas nem o Fogo de Sant’Elmo

impediu que a sua voz esculpisse

um trinado harmónico

na vultosa causa do lusitano orgulho.

 

Versou rotas navegadas

numa densidade invencível

das caravelas de Vasco da Gama,

impensadas pelas papilas pensantes

do Velho do Restelo.

 

Em metáforas heroicas de um sonho

para além das órbitas sabidas

em oceanos nunca sulcados,

no regresso premiou os bravos marinheiros

com as belas ninfas da ilha dos amores.

 

Jamais morrerás, Camões,

para sempre viverá o teu engenho e arte

na palavra que respira

de entufado e justo orgulho no peito lusitano,

como um farol de outros feitos do porvir.

 

© Jaime Portela, Junho de 2024


                    PARA QUEM NÃO SABE

Luís Vaz de Camões é considerado o maior poeta português de todos os tempos. Nasceu a 10 Junho de 1524 (ou 1525). Celebra-se na próxima semana, portanto, o 5º centenário do seu nascimento.
A sua grande obra, Os Lusíadas, no género da Ilíada e Odisseia, de Homero, e da Eneida, de Virgílio, é uma obra de poesia épica. Provavelmente iniciada em 1556 e concluída em 1571, foi publicada em Lisboa em 12 de março de 1572, no período literário do Classicismo, ou Renascimento tardio, três anos após o regresso do autor do Oriente.
A obra é composta por dez cantos, 1 102 estrofes e 8 816 versos em oitavas decassilábicas, sujeitas ao esquema rímico fixo AB AB AB CC – oitava rima real, ou camoniana. A ação central é a descoberta do caminho marítimo da Europa para a Índia por Vasco da Gama (com saída de Lisboa a 8 de Julho de 1497, e chegada a Calecut em Maio de 1498), à volta da qual se vão evocando outros episódios da História de Portugal.