Translater

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Os bombos da festa [691]

 


Na fuga à ligeireza alegre

com que vou fruindo da minha inteligência,

vou-me perdendo

numa letargia de gato com que espio,

por entre pestanas preguiçosas,

os trejeitos da coerência

da minha desatada fantasia.

 

Vou-me perdendo

enquanto me desaparecem

os encargos dos deveres,

as abundâncias auríferas

sob a sombra das janelas

que fabricavam miragens

e o murmúrio das cachoeiras esganadas

pelo sopro dos incómodos nos ouvidos

que vou confundindo com a festa dos bombos.

 

Cativo do carácter e dos contextos,

vou-me perdendo

ultrajado pela impassibilidade cobarde

em acabar com as guerras

e na fantasia de que terminem

as afrontas fatalistas do destino

a que estamos irremediavelmente condenados.

 

Vou-me perdendo, ainda,

no labirinto que nos constroem

enquanto os coelhos vão mastigando a noite

indiferentes a nós todos,

os verdadeiros bombos da festa perdidos.

 

© Jaime Portela, Outubro de 2026


segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Do ódio ao perdão [690]

 


Se sentes ódio por alguém,

tens uma espada

a perfurar-te o coração.

 

Por isso,

adormece o ódio

como a serpente

quando encanta o passarinho

e enterra-o

no fundo de um poço

inacessível.

 

E diz à raiva

que dos seus gestos

nada guarde,

nem sequer

a angústia do olhar.

 

Não deixes que a espada te fira

e deixa o coração respirar,

ensina a tua alma, com jeito,

a ética

e a benevolência do perdão,

 

 

© Jaime Portela, Outubro de 2026



segunda-feira, 28 de setembro de 2026

A nossa casa [689]

 


O corpo é a casa, a nossa casa,

e a inteligência uma aldeia,

quiçá uma cidade ou até um mundo

para os mais dotados,

onde o acaso impôs

que vivêssemos a nossa existência.

 

Por isso,

sentir uma grande angústia

como um caso irrelevante,

na vida e no espírito,

é o princípio do saber viver

dentro da nossa casa.

 

Sentir isso no auge da angústia

é viver superiormente.

 

Quando sofremos,

achamos que a nossa dor é única

e até infinita.

Mas há milhões de pessoas

com dores ainda piores

e nada há na vida que seja infinito.

 

O nosso sofrimento não vale mais

do que a dor que deveras temos.

 

 

© Jaime Portela, Setembro de 2026


sábado, 26 de setembro de 2026

Deixa-me rir [688]


 


Deixa-me rir,

tu não querias que eu chorasse.

Vi-te nas ruas e no metro de Paris,

(com licença, meus amigos,

mas para a guerra não vou),

num piano aos oito anos,

à guitarra

a olhar para a tua amora morena

no lado errado da noite.

No ninho das águias

disseste a missa dos pássaros

e vi-te frágil quando dizias

encosta-te a mim.

Deste mais de 70 voltas ao sol

na terra dos sonhos

e não foste um homem invisível.

A gente vai continuar

à espera do fim

depois da tua viagem

na palma da mão.

Até lá, dá-me lume,

para ver bem o caminho

até à minha senhora solidão.

Deixa-me rir,

tu não querias que eu chorasse.

 

© Jaime Portela, Setembro de 2026

 

Poema em homenagem a Jorge Palma (Lisboa, 4 de junho de 1950 – 21 de setembro de 2026) foi um músico, cantor, poeta e compositor português.




segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Desarrumação de morcegos [687]

 


Monitor ligado diante dos olhos

onde os horizontes se podem sonhar

por entre os lançamentos de faturas.

 

A graçola frequente e inútil de um colega

que descompõe todo o mundo

e leva repetidamente ao engano.

 

Na ponderação do intervalo mais insexual

de uma dissertação estética e mental,

toca o telemóvel do chefe.

 

Pelo tom da sua voz,

e porque se deslocou para o gabinete

em prudências de escaravelho,

há sexo no ar: é a sua amante.

 

A esposa chega na ocasião imprópria

e instala-se uma desarrumação de morcegos

que a caverna produz

para os licenciar à noite e não a meio da tarde.

 

Ela entra de rompante no gabinete

e ouve-se o chefe dizer

uma das frases encriptadas do costume:

Fica então combinado,

pagaremos tudo na próxima semana.

 

Os morcegos voltam para a caverna.

 

© Jaime Portela, Setembro de 2026


segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Fidalguias [686]

 


Regras e formalidades

são atributo dileto das fidalguias.

E fidalgo,

não esquecer, é quem jamais se esquece

que nunca está só.

Por isso, assimilemos o fidalgo,

apartemo-lo aos banquetes e às cerimónias

transportando-o para o nosso espírito

e para a nossa compreensão de existirmos.

Então,

ficaremos sempre na nossa presença

em etiquetas e regras,

em meneios e sotaques

calculados para nós e para os outros.

Passaremos a respirar aromas

que flutuam em bamboleios de traças

em fuga à naftalina.

Como elite, temos de ter criadas

a enxugar os alvoroços no avental

para quando recebermos visitas.

Tudo isto é essencial

para cobrarmos elogios de enfisema

que se divertem a rebolar

em cachoeiras de hipocrisia visível.

 

© Jaime Portela, Setembro de 2026