Translater

quinta-feira, 9 de julho de 2020

Vou precisar de ti [287]



Vou precisar de ti
para colocarmos no meio da ponte,
de onde te escrevo,
todos os sonhos que tivemos.
Com um beijo, lançá-los-emos ao rio
para que vão até à foz do esperado.

Vamos, também, trocar de personalidade,
para não confundirmos
o Doutor Jivago com o Omar Sharif,
nem a Lara com a Tonya.
Cairemos, a pés juntos, no recomeço.
Seremos David Lean
e personagens sem as dores de cabeça
do arbitrário dever nos calcanhares.

No final, seremos amantes a dar ao corvo
o pão envenenado que o pecado cozeu.
Seremos, talvez, Romeu e Julieta causais,
porque eu não tenho vocação para Pedro
nem tu aceitarias ser Inês.

Mas, não te assustes, é apenas um guião
que vai cair ao rio do meio da ponte.
Renasceremos
águas claras e livres a correr até à foz,
construindo as margens do nosso fado.


quinta-feira, 2 de julho de 2020

A vontade surda-muda de nos termos [286]



Na verdade, nunca foste minha.
Nem eu deveras fui teu.
A nossa entrega teve
as asas da liberdade dos pássaros vestida.

Antes disso, gostava sossegadamente
da essência das coisas e era feliz.
Era um gostar de alguém
que ama sem ter mais nada para amar.

Enquanto foste minha e eu teu,
sem o sermos, senti melhor e mais perto
o inteiro mar que nos olhava,
unos, ainda que esvoaçantes.
E fui ainda mais feliz,
porque me deste o sentir sem nada me retirar.

Agora que não te tenho, sem nunca te ter tido,
vejo que nada perdi do que me deste.
Sinto o mar como quando estava contigo.
Talvez porque, errantes, as nossas asas
se tenham tornado irrelevantes,
e sejamos, um do outro,
a vontade surda-muda de nos termos.


quinta-feira, 25 de junho de 2020

Eu já não sei [285]



Enquanto, das palavras,
o grito e o silêncio se dissolvem
numa fogueira ateada por achas de inquietude,
os teus gestos, do beco para onde
há mil resignações te empurram, são inaudíveis.

E eu já não sei
se és a voz de um rio sem água
nas margens da garganta,
se alguém que se dobra para colher
uma flor que não existe.

Enquanto a noite, madrasta, prospera
na sombra que alumia a tua alma diurna,
e ela se tortura numa reza de tristezas madraças,
são invisíveis, nos teus olhos,
as centelhas que florescem no amanho do futuro.

E eu já não sei
se és a agonia amordaçada
pelo tirano calar do prazer,
se a alegria de asceta disfarçada
na luxúria do prazer desse calar.



quinta-feira, 18 de junho de 2020

O que sou já nem eu sei [284]



Não sei se sou uma aldeia
que flutua, envergonhada, na firmeza das ideias
por entre a incerteza das palavras,
se uma cidade que deambula, meretriz,
na clareza dos verbos
com a boca na ambiguidade das ideias.

Em todo o caso, debato-me enleado
na força que não faço das fraquezas
e sinto-me roubado no absurdo das certezas
perante as verdades consertadas.

Serei gota que perdura, imiscível,
num mar de gente que da lua é igualzinha?
Ou rio de evasão e permanência,
num cacto que vive morto em quarentena
para resistir à falta de água?

Ou serei, estranhamente,
um corpo só, que na poesia se arrima
para melhor se calar?
Melhor explicado, pois também
não sei dizer tudo aquilo que não sou,
o que sou, já nem eu sei.


segunda-feira, 15 de junho de 2020

Ao abrires as bainhas da pele [283]



Ao abrires as bainhas da pele
numa cadência de um milímetro por dia
[até que fiques nua],
vislumbro, em cada poro,
o indício e a fragrância da volúpia.

Do teu corpo, ora proibido, nada vi…
As minhas caladas mãos
não foram além da feição visível
[na tremura do toque e do tacto]
do teu medalhado decote.

Deste pousio,
um retiro intacto de propósitos
num conflito de herbicidas de enganos
com fertilizantes de mel,
germinará o ciclo virtuoso
da colheita sucessiva
[sem delito serôdio ou temporão]
dos recatos da alma, primeiro,
e dos recantos do corpo, depois.

Deste amadurecido vagar,
usufruto maior que a razão haverá:
as nossas bocas não serão estrangeiras
no beijar de caminhos
afeiçoados aos arbítrios da língua
e correrá geleia real [finalmente]
nos meandros das nossas fronteiras.


quinta-feira, 11 de junho de 2020

Chamar os sonhos à realidade [282]



Por vezes, notamos que o canto, dantes alegre,
deixa cair uma lágrima sentida,
esquecendo que o sonho preserva a queda
na triste elipse que nos confina
à letargia do não existir fetal.

Também sentimos que há momentos, sem magia,
em que não deixamos correr a meninice,
esquecendo que o tempo não refreia a nascente
da qual provém o enorme rio da vida.

Vemos, até, que a voz, habitualmente vibrante,
às vezes fica mortiça, declinada,
deixando de abrir prisões que acorrentamos ao colo,
esquecendo a fuga essencial
aos medos que conservamos em naftalina
nas gavetas das nossas fragilidades.

Nessas alturas, esquecemos que o sonho
antecipa o prazer das alvoradas
que hão de chegar como o vento,
que de tão prometedoras são o ar do nosso fôlego.

Mas nada de mal sucede quando a vida,
sem espartilhos, regressa célere à ribalta do sentir,
para que resista na voz de um canto menino
que pegue nos sonhos de novo
e os chame à realidade.


quinta-feira, 4 de junho de 2020

Depressão [281]



De mansinho, à falsa fé de tão subtil,
vai parasitando, da vida,
os fios do rumo e as âncoras do prumo.
Há um querer respirar
a verdade indivisível dos oásis e,
quando à porta do arvoredo viçoso,
evapora-se o refresco
da sombra sedutora das palmeiras
num caldo sem água,
inquieta e logo desfocada
no logro de uma ilha inatingível.

Erra a vida, pesarosa, na instabilidade da areia
num descompasso indizível,
e nunca há a certeza
onde é maior o doer deste confuso andar:
Se no vazio do peito,
ressequido, de um tão sofrido sentir,
se na mudez que se escuta tão conformada
a carpir.

O deserto, prepotente,
escava a fundura de um poço
donde é difícil fugir,
porque a vontade é uma avezinha entorpecida
pelos olhos especados da serpente
que a está a tentar engolir.


quinta-feira, 28 de maio de 2020

A ignorância das flores [280]



Quando vejo uma roseira esquecida
a fervilhar na margem de um caminho,
sou picado pela abelha da surpresa
e vejo nas flores uma exceção aos jardins.

Afastada a estranheza,
sou como um raio de sol, que vê, sem o perceber,
a regra de uma qualquer lei
que faz crescer na roseira flores de tanta beleza.

Comburentes da vida e da morte,
os dias passam de igual modo no jardim e fora dele
por tributo à mesma regra,
mas as flores desconhecem que são perseguidas
pelo ferrão da sua fátua existência.

O amor tem a regra e a exceção polinizadas,
tem a beleza e a ignorância das flores.


segunda-feira, 25 de maio de 2020

O povo nunca ordenou [279]



Felizmente, não partimos muitas pernas.
Mas foi mais um fragmento de Abril
que morreu, gradualmente estrangulado
pela soberania das nossas costas a ele voltadas.

Do fracasso, deveria nascer o desejo
de pendurar um Maio de giestas em cada porta,
para que o bicho cão da indiferença
não lavasse o prato da fraternidade com a língua
nem ladrasse de egoísmo à igualdade aterrada.

Deveria germinar a fome de mudança
para que a miséria morresse dentro de portas
e não morresse Abril à frieza do ferrolho.
O povo nunca ordenou. E continuamos impassíveis
com o Maio a desflorar-se caído das maçanetas.


quinta-feira, 21 de maio de 2020

Vistam-se do presente [278]



Vistam-se do presente
em brisas de carinhos, serenos,
semeando gestos a concertar o futuro.
Aguardem, calmamente,
que desabroche o que plantaram
na mira da Primavera do sonho.
Do chão, colham o fogo
e a luz, renascidos,
com a loucura sadia a nutrir-se
no sofá vermelho dos sentidos.
Amigos, omitam o ferro e a ferida.
Sejam luz dentro da luz,
um clarão onde não há o ontem.
Nem o depois. Só o agora.