Translater

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Agora que partiste



Agora que partiste,
Zé Mário,
sinto ainda mais a amargura
nos telhados enrugados dos teus olhos,
não de medo perfilados
mas da inquietação solidária
de ver o teu povo a lutar.

Os tempos foram mudando,
mas a tua vontade resistiu e venceu,
porque a cantiga é uma arma
e porque carregaste contigo
a queixa das almas jovens censuradas.

Por isso,
não posso ficar à margem do teu canto
nem distante do usufruto
que o ensaboar-me na tua voz representa,
porque, contigo, a morte nunca existiu.



A minha homenagem a José Mário Branco (1942-19/11/2019)


quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Mete andorinhas dentro do peito



Se as fontes de onde a vida nasce
se turvam de prostração,
é natural que tombem as mãos
que tecem a esperança.

Para quê teimar num sono
que adormece o sonho
se não erguemos nada mais
que a bandeira da amargura já negra?

Mais vale viver de dúbios intuitos,
troçar da nossa desgraça
ou até vestir olhar de ladrão,
do que sobreviver morto de pureza.

Mete andorinhas dentro do peito
mesmo que migrem ou morram no inverno,
elas acordam-te e fazem-te voar
ao ínfimo sinal de primavera.


quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Da vida, nada sei



Da vida, nada sei,
esforço-me por compreendê-la
ao ritmo do carro de bois
ou dos cavalos de corrida que a puxam,
enquanto ela caminha inabalável
sem se dar ao trabalho de ver
onde põe os pés.

Da vida, nada sei,
tento medir-lhe o pulso,
sentir o rumo que toma
e até ver a cor das suas vestes
sem que ela pestaneje sequer,
deixando-me confuso
a olhá-la
como um boi para um palácio.

Da vida,
nem ao menos sei para que serve,
foi coisa que me entrou,
cresceu e atou,
fazendo de mim fruto cativo,
produto de algo estranho
que nunca me fez saber
o que sou e para onde vou.



quinta-feira, 31 de outubro de 2019

O que ainda não te disse



O que ainda não te disse
é um céu fechado
de palavras silenciadas pela distância,
atadas em cordéis de medo e ensacadas
como pulmões asfixiados num corpo
que aborta as palavras antes da nascença.

O que ainda não te disse
é um rio a transbordar
de palavras povoadas de ternura,
em estantes indecisas ou espalhadas
na cobardia de lençóis
que morrem à míngua do teu perfume.

Mas digo-te,
agora que o posso fazer,
que não tenho palavras que descrevam
o tormento de fugir das sombras
para me entregar
à luz das palavras que te precedem.



quinta-feira, 24 de outubro de 2019

São tuas



São tuas
as flechas que adubaram este árido solo,
agora fértil, de onde brotam flores
com o teu nome colorido nas pétalas.

E voltei a perceber, como em criança,
como é importante um sorriso
no meio da carência
e como é belo ver a criançada
a reclamar algodão-doce.

Mudaste, mudando-me,
e já nada é consentido ou necessário,
nem mesmo adoçantes,
para o sangue de animal selvagem
que por vezes temos na alma.



quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Não me peças mais poemas



Não me peças mais poemas
que eu sou a desordem
assassina e construtora dos meus eus,
de alma em debandada e à procura
do teu cálice.

Não me peças mais poemas
que eu sou o canto no deserto e no oásis
de um palco sem auditório
repleto de cegueira,
sem cortina de fogo e vomitório.

Não me peças mais poemas
que a tua rosa é cadeia sem desonra,
é saia comprida ainda sem rugas
da liberdade de te amar
na desordem dos meus e dos teus eus.


quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Passei por uma pedra



Passei por uma pedra
e não vi mais que uma pedra.
Olhei de novo,
era apenas uma pedra, era granito.
Voltei a olhar e reparei que tinha quartzo.
E feldspato. E mica.
E achei que nada mais via
naquela rocha perdida.

Mas não,
vi o Azul Bahia brasileiro dos teus olhos,
as Rosas de Monção e Porrinho
separadas pelo Minho,
as Pedras Salgadas e Ruivas
que tantas vezes pisas com leveza na calçada.
E vi as Pretas meninas de Angola
do teu vestido Impala
e o Verde Aquário do teu sorriso
onde me afogo e consolo.

E vi muito mais de ti
nessa pedra que não passa de uma pedra,
ela traz ao meu chão
mosaicos de lembranças
do roseiral Verde Glória que há no teu colo,
muito mais fofo e sedutor que o granito.



quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Perdidos, vamos achando



Nas tuas mãos,
já acesas,
a desviar orações nas palavras
e a espernear de prazer,
há uma prece.

Nas minhas mãos,
carentes da tua flor,
há uma rosa a perder espinhos,
a abrir pétalas,
a desbulhar-se em perfumes.

Perdidos, vamos achando
o prolongar do momento
em conflito com a urgência  de serenar,
entranhados,
a agitação que me afoga e te rompe.



segunda-feira, 30 de setembro de 2019

O seu olhar



O seu olhar
é prenúncio de um mar
sem ondas
na enseada que se abre
à desejada e leda nau
que se aproxime.

De veludo
serão as suas ancas
e outras mãos
não se arrogam como suas
se não a assaltam
para que suas sejam todas.

E de seda menina
será a sua rosa
quando de orvalho embebida,
onde as bocas se podem saciar
se a língua se amotina
ao sabê-la embevecida.



quinta-feira, 26 de setembro de 2019

No tempo



No tempo
em que o teu corpo tem,
insaciado,
a sede profunda na ideia,
é no tacto e na seiva
que se doa a sua essência.
É um tempo teu,
vivido de arritmias sem esperas,
como se fosses um peixe
fora da água,
que te sacode
quando te deitas no meu
e gozas, comigo,
na cachoeira da frágua.