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segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Flores resilientes [685]

 


Palavras copiosas,

impregnadas de seda

na cara de cravos rubros hesitantes,

e o poder vai na sua rota presunçosa,

numa coreografia

sempre reinventada de estandartes

nas avenidas da verdade alternativa

e à sombra de faustosos capelos

sobre cadeiras auditadas de veludo.

 

Os cães ladram e a caravana passa,

dizem,

pelo trajeto dos cortejos autistas

que evitam os bairros indigentes,

onde o choro dos chafarizes

é um dano colateral do abandono,

tombando a alegria

distante das memórias de luz,

não que as calçadas gritem

ou se ensombrem com as caras de pau

ao pálio do faz de conta.

 

As lanças,

de quinas verbais em quarteis arrogantes,

caem em terreiros

que se vão despovoando

pela esquivança da descrença,

e, assombrosamente,

nos jardins por onde vagueiam,

as saudades pintam de cores resilientes

as flores que ainda protestam.

 

© Jaime Portela, Setembro de 2026


segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Quando se falha [684]

 


Quando se falha,

não adianta gritar como a gaivota

quando deixa escapar o peixe

que já tinha no bico.

E nada resolve o assombro

de não ter previsto o fracasso

e pensar que houve alguma raposa ladina

a chegar primeiro.

Será melhor perguntarmo-nos

o que predizia o sucesso.

Haveria a energia certa dos triunfadores,

com o céu limpo sem ventos,

ou a lucidez pálida de um tempo agreste?

Mas, quando se falha,

há sempre um búzio sem mar

e sem um rasto de som nas espiras.

 

© Jaime Portela, Agosto de 2026


segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Há pequenezas [683]

 


Há pequenezas,

frequentes na vida,

inutilidades do comum dos mortais

e do político vulgar,

tal como fazer uma piscina sem licença

ou receber avenças a governar,

que são poalhas

que terminam em feições

apagadas e caricatas

na torpeza e na desonra da vida.

À poeira da procissão

somam-se jovens névoas no horizonte,

a escurecer de exames,

fragatas, incêndios,

habitação e saúde,

e as zagaias cintilam

cada vez mais perto,

à distância

de um quarteirão de coragem.

 

© Jaime Portela, Agosto de 2026


segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Viana é amor [682]

 


Filha do rio e do monte,

o mar de Fagundes* é o padrinho

de Viana da Romaria d’Agonia**.

Na calçada,

de blusas de linho lavradas

com o gordo ouro das avós,

saias rendadas, chinelas

e brincos em coração filigrana,

a chieira*** das mordomas

é maior que a serra d’Arga.

Passam bombos barulhentos,

risonhos cabeçudos,

gigantones baloiçantes,

ranchos, filarmónicas,

num desfile interminável

que se avista

do monte de Santa Luzia.

Nas ruas da Ribeira,

há tapetes de sal e flores,

feitos toda a santa noite

para serem vistos no dia

em que os barcos rezam no mar.

Mas tudo acaba

num rio de fogo-de-artifício,

na monumental serenata****

em que a velha ponte nos lembra

que Viana é amor.

 

© Jaime Portela, Agosto de 2026

 

*Fagundes - João Álvares Fagundes (1460-1522), foi um navegador português e armador de navios de Viana do Castelo no norte de Portugal a quem se deve o reconhecimento de parte das costas do nordeste americano, naquelas que são hoje as províncias marítimas canadianas da Nova Escócia, da Terra Nova e Labrador.

**Romaria d’Agonia – festas que se realizam à volta do dia 20 de Agosto, sendo este o dia principal e feriado municipal.

***Chieira – vaidade.

****Serenata – fogo-de-artifício no rio Lima que acaba com uma cachoeira de fogo na ponte Eiffel (inaugurada em 1878) e sempre com as palavras “Viana é Amor” no final.


segunda-feira, 10 de agosto de 2026

O retrato da alma da Mona Lisa [681]

 


Por vezes,

converso comigo

nas noites apuradas da fantasia,

em palestras relaxadas de lusco-fuscos

com auditórios hipotéticos.

 

E questiono-me:

qual a razão dos cientistas

não terem vontade de explorar

matérias inexistentes,

tal como fazem os políticos?

A ética apenas existe

porque é uma invenção dos puritanos?

 

A realidade encerra-se apenas

naquilo que é orgânico

ou conseguimos ver a alma

numa escultura?

A alma precisa de vida?

Ou é a vida que precisa de alma?

 

A serenidade,

a inteligência contemplativa,

a discrição, a tranquilidade,

o mistério, a ambiguidade,

a moderação emocional,

poderá ser o retrato

da alma da Mona Lisa?

 

© Jaime Portela, Agosto de 2026


segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Desporto favorito [680]

 


A atmosfera

de muitos salões de cabeleireiro,

mas não apenas,

está frequentemente embebida

em madeixas de maledicência

sobre ausentes

ou em caracóis de insinuações

sobre terceiros.

 

Apesar das lacas,

das brilhantinas e de outras loções,

não há maior sinal

do despenteado da mente

do que não dizer grosserias

senão a propósito dos outros.

 

Há quem pratique

este desporto intensamente,

mas os vindouros

nunca os celebrarão ocultos

debaixo da sombria opacidade

dos troféus conquistados

com os seus brilharetes de dizer.

 

© Jaime Portela, Agosto de 2026


segunda-feira, 27 de julho de 2026

Aves migratórias [679]

 


Mal-aventurados

os que não meditam nem ponderam,

fazem intuitivamente, com um fim básico,

o que outros pensam e avaliam

por saberes mais que sabidos.

 

Só que os mal-aventurados

sabem dos caminhos

como as aves migratórias,

enquanto os outros só os encontram

por sendas de fingimento aos ziguezagues.

 

Os mal-aventurados

fazem parte da paisagem,

enquanto os bem-aventurados, a maioria,

são verdugos que a torturam

confundindo as aves migratórias.

 

© Jaime Portela, Julho de 2026


segunda-feira, 20 de julho de 2026

HAICAI - Interregno [678]




Partiu quem eu jamais vi

Deus omitiu-me o que faço aqui

Sou o interregno desabitado

 


© Jaime Portela, Julho de 2026