Translater

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Reflexões inúteis [655]

 


Sem o espaço ou sem a matéria

não vejo o tempo nem a sua medida.

Como não vejo Deus,

sem o Pai, O Filho e o Espírito Santo.

De resto,

o relógio é limitado,

não serve para calcular as emoções

e não existem apetrechos

para avaliar os sonhos.

O tempo, não sei bem o que é,

mas será apenas um invólucro irreal

para ordenar o real,

só que ficam de fora as partículas que,

na sua deslocação quântica,

não gastam tempo

nem percorrem espaço

para surgirem a grandes distâncias.

Se penso sem pressa e demoradamente

dentro do comboio em andamento,

qual a velocidade do pensamento?

Serão síncronos

o meu pensamento,

as palavras que agora escrevo

e o fumo do meu cigarro?

Intuo um engano nestas considerações,

mas desconheço a arte

e o engenho para iluminar tal equívoco.

Reconheço a inutilidade destas reflexões,

mas a verdade é que não percebo o que,

sendo impalpável,

nos mede e nos abate sem exceção.

 

 

© Jaime Portela, Fevereiro de 2026


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Vou ao sol enquanto esperam [654]

 


Nos anéis da germinação contínua,

esta janela alimentada pelo sol

é um lapso que respiramos

e que sabemos ser mesmo temporal.

Se o que não é ilusão é vida,

então vivemos de vez em quando

dentro desse lapso de tempo,

mas a ilusão está inocente,

pois não passa de um êxtase luminoso

para degustar e vomitar.

Só que nunca vejo

com tanta nitidez a verdade

como quando assisto a um filme

porque sei que estou a ver

a acabada representação da realidade,

ainda que os protagonistas

sejam seres tão necessários e inúteis

como a galáxia a cem milhões de anos-luz

com milhares de estrelas, planetas e poeira.

Quase tudo é representação.

Querem a realidade?

Vou ao sol enquanto esperam.

 

© Jaime Portela, Fevereiro de 2026


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Bordar com as agulhas do pensamento [653]

 


Tenho pensado nas sensações

que constroem a matéria intrínseca

do meu conhecimento de mim.

Por vezes traço-as em palavras madraças

que me desamparam depois de escritas

e deambulam ausentes de mim

por serranias e rios de reflexões,

por avenidas de imagens, por quelhas de babéis.

 

Reconheço a inutilidade desta liturgia,

mas aquieto-me ao escrever,

como quem toma um comprimido para as dores,

que logo voltam.

Esses trechos,

que abusivamente chamam de poesia,

são apenas gatafunhos da perceção

que tenho do mundo e das coisas.

Esboço-os numa quase letargia de me ver

como um reformado num banco do jardim

a consumir réstias do sol de inverno e,

se os revejo,

é como se relembrasse o deslembrado

com um ténue espanto serôdio.

 

Quando escrevo,

inspeciono-me cerimonioso

em recantos da representação

de consultórios decorados por terceiros,

onde me abandono radiografando o que não vejo

e analisando em contraluz os negativos

que vão engordando o cesto dos papéis.

Nesta refrega,

esbanjo palácios mal decorados,

carpetes floridas em exagero, fortalezas decadentes

mas, por vezes,

se a luz me esclarece certos contornos,

salvo do naufrágio do lixo alguns alicerces

e flores mais flamejantes.

 

Não sou um mistério, porque não tenho segredos,

nem a exceção, nem a regra,

sou irrepetível,

as palavras rolam saídas de um novelo

e eu limito-me a apanhá-las

e a bordar as frases com as agulhas do pensamento.

 

 

© Jaime Portela, Fevereiro de 2026


segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Useiro e vezeiro [652]

 


Fiquei inquieto

e o sossego deixou de respirar.

Então, como uma bomba,

o dia, a prometer desapoquentação,

escaqueirou-se.

Vociferei, possesso,

e as minhas mãos, a rezingar,

pediam a cura

oferecida pelo comando

como quem implora água

para apagar um incêndio.

Uma luz estroboscópica,

sem pudor,

penetrava nas crédulas mentes

ao som de granadas de fumo inventadas.

Com o risco de um AVC,

secou-se-me a garganta.

Para me salvar,

abandonei o café,

era o embusteiro do costume

a cuspir, useiro e vezeiro,

o seu desprezível veneno

em cima dos imigrantes e ciganos

pela milésima vez na TV.

 

 

© Jaime Portela, Janeiro de 2026


segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Assessoria política [651]



A confissão

é das carências mais humilhantes,

a alma tem que se virar do avesso

e mostrar-se tão nua

como quando veio ao mundo.

Por isso,

quando te confessares no discurso,

revela o que não sentes,

liberta a tua alma

do fardo dos seus mistérios

que nunca existiram.

Finge a ti mesmo,

não penses em falar da realidade,

porque na revelação há sempre erros.

Então, sê conhecedor e criterioso,

que revelar seja não dizer,

pelo menos, toda a verdade.

 

 

© Jaime Portela, Janeiro de 2026


segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

A inútil vala comum da discórdia [650]

 


Nas curvas e contracurvas dos caminhos

há obstáculos desorientadores,

ultrajantes ou corrosivos,

mas resistir à tentação da raiva

e encontrar como retorquir em voz civilizada

é ir mais alto.

 

Desculpas e ruídos projetam-se em diagramas,

indestrutíveis e persistentes,

provocando empecilhos aflitivos,

mas pouco ou nada sucede

quando se deixa maturar a reação

até que a resposta seja elevada.

 

No repositório classificado de absurdo,

a raiva pode ser um guarda-chuva partido,

a dor um leme enguiçado

e o desencanto, carrancudo e escusado,

ficará na escura e funda agonia do porão.

 

Tem perna curta, por isso,

o ditado que diz que

quem não se sente não é filho de boa gente,

já que as emoções

quase nunca são planos infalíveis.

 

Um vestígio de paciência que seja,

ainda que franzino, será uma firme passada

e o suporte para o sucesso

e, para além disso,

evitamos saltar de cabeça

para a inútil vala comum da discórdia.

 

 

© Jaime Portela, Janeiro de 2026