Triste e abatida,
entre as margens do meu rio,
descansa, por ingenuidade,
com o corcel exausto e sem ferraduras,
toda a inquietude verdadeira
de um ser humano,
todos os desassossegos incuráveis
de uma alma esquecida por Deus.
Caiu sobre mim
a maldição e a desdita do desencanto,
numa faustosa gala
de prenúncios do descrédito.
Da minha desdita, porém,
não escrevo poemas,
subtraio dela, ainda assim, um gracejo.
Porque a criança que há em mim
persiste em não me deixar abater
e observa, com um sorriso traquinas,
a política espetáculo
e ri-se dos palhaços eleitos
e pagos para não haver circo.
Se o circo fosse romano, soltava as feras.
© Jaime Portela, Maio de 2026