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quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Deixa-me rir [688]


 


Deixa-me rir,

tu não querias que eu chorasse.

Vi-te nas ruas e no metro de Paris,

(com licença, meus amigos,

mas para a guerra não vou),

num piano aos oito anos,

à guitarra

a olhar para a tua amora morena

no lado errado da noite.

No ninho das águias

disseste a missa dos pássaros

e vi-te frágil quando dizias

encosta-te a mim.

Deste mais de 70 voltas ao sol

na terra dos sonhos

e não foste um homem invisível.

A gente vai continuar

à espera do fim

depois da tua viagem

na palma da mão.

Até lá, dá-me lume,

para ver bem o caminho

até à minha senhora solidão.

Deixa-me rir,

tu não querias que eu chorasse.

 

© Jaime Portela, Setembro de 2026

 

Poema em homenagem a Jorge Palma (Lisboa, 4 de junho de 1950 – 21 de setembro de 2026) foi um músico, cantor, poeta e compositor português.




segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Desarrumação de morcegos [687]

 


Monitor ligado diante dos olhos

onde os horizontes se podem sonhar

por entre os lançamentos de faturas.

 

A graçola frequente e inútil de um colega

que descompõe todo o mundo

e leva repetidamente ao engano.

 

Na ponderação do intervalo mais insexual

de uma dissertação estética e mental,

toca o telemóvel do chefe.

 

Pelo tom da sua voz,

e porque se deslocou para o gabinete

em prudências de escaravelho,

há sexo no ar: é a sua amante.

 

A esposa chega na ocasião imprópria

e instala-se uma desarrumação de morcegos

que a caverna produz

para os licenciar à noite e não a meio da tarde.

 

Ela entra de rompante no gabinete

e ouve-se o chefe dizer

uma das frases encriptadas do costume:

Fica então combinado,

pagaremos tudo na próxima semana.

 

Os morcegos voltam para a caverna.

 

© Jaime Portela, Setembro de 2026


segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Fidalguias [686]

 


Regras e formalidades

são atributo dileto das fidalguias.

E fidalgo,

não esquecer, é quem jamais se esquece

que nunca está só.

Por isso, assimilemos o fidalgo,

apartemo-lo aos banquetes e às cerimónias

transportando-o para o nosso espírito

e para a nossa compreensão de existirmos.

Então,

ficaremos sempre na nossa presença

em etiquetas e regras,

em meneios e sotaques

calculados para nós e para os outros.

Passaremos a respirar aromas

que flutuam em bamboleios de traças

em fuga à naftalina.

Como elite, temos de ter criadas

a enxugar os alvoroços no avental

para quando recebermos visitas.

Tudo isto é essencial

para cobrarmos elogios de enfisema

que se divertem a rebolar

em cachoeiras de hipocrisia visível.

 

© Jaime Portela, Setembro de 2026


segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Flores resilientes [685]

 


Palavras copiosas,

impregnadas de seda

na cara de cravos rubros hesitantes,

e o poder vai na sua rota presunçosa,

numa coreografia

sempre reinventada de estandartes

nas avenidas da verdade alternativa

e à sombra de faustosos capelos

sobre cadeiras auditadas de veludo.

 

Os cães ladram e a caravana passa,

dizem,

pelo trajeto dos cortejos autistas

que evitam os bairros indigentes,

onde o choro dos chafarizes

é um dano colateral do abandono,

tombando a alegria

distante das memórias de luz,

não que as calçadas gritem

ou se ensombrem com as caras de pau

ao pálio do faz de conta.

 

As lanças,

de quinas verbais em quarteis arrogantes,

caem em terreiros

que se vão despovoando

pela esquivança da descrença,

e, assombrosamente,

nos jardins por onde vagueiam,

as saudades pintam de cores resilientes

as flores que ainda protestam.

 

© Jaime Portela, Setembro de 2026


segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Quando se falha [684]

 


Quando se falha,

não adianta gritar como a gaivota

quando deixa escapar o peixe

que já tinha no bico.

E nada resolve o assombro

de não ter previsto o fracasso

e pensar que houve alguma raposa ladina

a chegar primeiro.

Será melhor perguntarmo-nos

o que predizia o sucesso.

Haveria a energia certa dos triunfadores,

com o céu limpo sem ventos,

ou a lucidez pálida de um tempo agreste?

Mas, quando se falha,

há sempre um búzio sem mar

e sem um rasto de som nas espiras.

 

© Jaime Portela, Agosto de 2026


segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Há pequenezas [683]

 


Há pequenezas,

frequentes na vida,

inutilidades do comum dos mortais

e do político vulgar,

tal como fazer uma piscina sem licença

ou receber avenças a governar,

que são poalhas

que terminam em feições

apagadas e caricatas

na torpeza e na desonra da vida.

À poeira da procissão

somam-se jovens névoas no horizonte,

a escurecer de exames,

fragatas, incêndios,

habitação e saúde,

e as zagaias cintilam

cada vez mais perto,

à distância

de um quarteirão de coragem.

 

© Jaime Portela, Agosto de 2026


segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Viana é amor [682]

 


Filha do rio e do monte,

o mar de Fagundes* é o padrinho

de Viana da Romaria d’Agonia**.

Na calçada,

de blusas de linho lavradas

com o gordo ouro das avós,

saias rendadas, chinelas

e brincos em coração filigrana,

a chieira*** das mordomas

é maior que a serra d’Arga.

Passam bombos barulhentos,

risonhos cabeçudos,

gigantones baloiçantes,

ranchos, filarmónicas,

num desfile interminável

que se avista

do monte de Santa Luzia.

Nas ruas da Ribeira,

há tapetes de sal e flores,

feitos toda a santa noite

para serem vistos no dia

em que os barcos rezam no mar.

Mas tudo acaba

num rio de fogo-de-artifício,

na monumental serenata****

em que a velha ponte nos lembra

que Viana é amor.

 

© Jaime Portela, Agosto de 2026

 

*Fagundes - João Álvares Fagundes (1460-1522), foi um navegador português e armador de navios de Viana do Castelo no norte de Portugal a quem se deve o reconhecimento de parte das costas do nordeste americano, naquelas que são hoje as províncias marítimas canadianas da Nova Escócia, da Terra Nova e Labrador.

**Romaria d’Agonia – festas que se realizam à volta do dia 20 de Agosto, sendo este o dia principal e feriado municipal.

***Chieira – vaidade.

****Serenata – fogo-de-artifício no rio Lima que acaba com uma cachoeira de fogo na ponte Eiffel (inaugurada em 1878) e sempre com as palavras “Viana é Amor” no final.