Palavras copiosas,
impregnadas de seda
na cara de cravos rubros hesitantes,
e o poder vai na sua rota presunçosa,
numa coreografia
sempre reinventada de estandartes
nas avenidas da verdade alternativa
e à sombra de faustosos capelos
sobre cadeiras auditadas de veludo.
Os cães ladram e a caravana passa,
dizem,
pelo trajeto dos cortejos autistas
que evitam os bairros indigentes,
onde o choro dos chafarizes
é um dano colateral do abandono,
tombando a alegria
distante das memórias de luz,
não que as calçadas gritem
ou se ensombrem com as caras de pau
ao pálio do faz de conta.
As lanças,
de quinas verbais em quarteis arrogantes,
caem em terreiros
que se vão despovoando
pela esquivança da descrença,
e, assombrosamente,
nos jardins por onde vagueiam,
as saudades pintam de cores resilientes
as flores que ainda protestam.
© Jaime Portela, Setembro de 2026