Translater

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Nomes nus [259]




Nos teus lábios,
o canto do meu nome decorado em verbos,
bordados lusos no recato das nossas línguas
de passarinhos que se aconchegam,
construindo os ninhos
para as nossas fomes de trovas.

Em rimas de silêncios, só meus,
o teu nome venerado
em retratos de verdade iguais aos teus,
inteiros no grafismo em que me empenho,
assinatura perene de amanhãs absolutas.

Livre nas monções de afecto,
murmuro o teu nome,
clareando de mil cores
as tintas dos meus dias cinzentos.
Nomes nus, os nossos,
na limpidez de leitos de areias
vestidos de certezas que não se molham
nas vontades alheias.



quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Há um povo a morrer [258]



Nas insónias,
contam-se os carneiros
que saltam a sebe
sem jamais ter um rebanho do lado de cá.
No sono,
a vida é distorcida
por sonhos tão esquisitos
que, por vezes,
acordamos cobertos de suores.
Mas, bem pior,
é o que se passa de dia:
na sua noite de anos feita de angústias,
a sofrer de insónias e de sonhos esquisitos,
há um povo a morrer
nas listas de espera da vida,
pacificamente alinhado
por ordem inversa da sua riqueza.



quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Não sei o que vi nos teus olhos [257]




Não sei o que vi nos teus olhos,
se o vento da paixão alucinada
ou a brisa de um desejo desmedido.
Sei que os teus beijos me derrubam
e me desmancham os gestos
nos sorrisos de mil faces do teu corpo.
E que,
nos braços de todos os teus abraços,
os meus olhos se incendeiam em desejos
no fogo preso do encanto.
E entonteço na abundância
do éter de estrelas giratórias
que me embriagam ao beber,
dos teus olhos, os rios sem margens
de um fervor com torrentes de paixão.



quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

Outro Natal




Outro Natal e eu quase santo
porque o céu
é o limite para as asas do poeta.

Com tantos delitos, porém,
que se cada um pesasse um grama
eu dobraria pelos joelhos.

Mas sei que sou perdoado
porque sou humano
e, embora nada compreenda,
talvez por falta de fé, sou inocente.

E vivo na ingénua certeza da criança
que espera deslumbrada o Pai Natal
e do Menino Jesus deslembrada.



quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Do Diabo e de Godot




“Não há dinheiro!
Qual destas três palavras não percebem?”
Deixámos de clamar por um emprego
porque não eram empregadores,
por subsídios, porque não eram um banco.
Gentinha gastadora que não percebia
que era a hora certa de emigrar…
“Não há dinheiro!
Qual destas três palavras não percebem?”
Só um louco pensava
que os direitos seriam eternos
já que investiram muito dinheiro
para nos mandar parar
de pescar,
de agricultar,
de industriar…
E procurámos trabalho lá fora
como fizeram os nossos avós.
 “Não há dinheiro!
Qual destas três palavras não percebem?”
Desempregados, não os queriam cá,
cambada pobre do juízo e da carteira
com sonhos excêntricos de reforma.
Que fugíssemos enquanto era tempo,
porque a fábrica de pobres
ainda não chegara ao fim.
“Não há dinheiro!
Qual destas três palavras não percebem?”
Percebemos e mandámo-los embora.
Afinal nunca houve dinheiro
desde o ouro do Brasil.
Mas não ficámos à espera do Diabo
como os dois velhos de Godot…


quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Como agnóstico



Como agnóstico,
sou um desamparado.
Nunca fui capaz
de acreditar em deuses
e livro-me racionalmente dos espinhos
com a pinça da fé nas palavras,
apesar da fantasia do alívio.
A esperança de vida,
uma indulgência
de ave camuflada no bando
a escapar às de rapina,
é uma tábua de salvação
cada vez mais carcomida.
E chega a ser um sossego aceitável
não ter sossego algum.



quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

O peso dos sonhos



Terão sido as visões,
que assimilámos de tanto observar
as aves a voarem sem medo,
que nos mostraram
o peso dos sonhos.
Com a pedra lascada
e com o sílex na ponta de um pau,
sonhámos com a recompensa neolítica
do coelho que nos fugia
e com a leveza de um corpo com asas.
Agora,
continuamos a sonhar,
mas com o porvir da mudança
e com a dilatação das margens dos rios
que nos correm por dentro.
Mais tarde,
pesaremos o resultado dos sonhos e,
só então, veremos se fomos capazes
de apanhar muitos coelhos
e de voar sem medo como os pássaros.


quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Mares encapelados e mansos



Há muita coisa que nos ficaria entranhada
se deixássemos de nos beijar.
A pele de galinha seria uma saudade
encarquilhada pela pátina do tempo,
saudade eternamente verde, não de esperança,
mas porque jamais morreria.
Apesar da improbabilidade,
semelhante à de podermos
assistir da Lua pela TV ao fim da vida na Terra,
há assaltos de incerteza
que logo se quedam com mais ternura despida.
Porque, para além da praia da nossa boca,
nunca haverá outros mares
tão encapelados e mansos como os nossos.



quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Agora que partiste



Agora que partiste,
Zé Mário,
sinto ainda mais a amargura
nos telhados enrugados dos teus olhos,
não de medo perfilados
mas da inquietação solidária
de ver o teu povo a lutar.

Os tempos foram mudando,
mas a tua vontade resistiu e venceu,
porque a cantiga é uma arma
e porque carregaste contigo
a queixa das almas jovens censuradas.

Por isso,
não posso ficar à margem do teu canto
nem distante do usufruto
que o ensaboar-me na tua voz representa,
porque, contigo, a morte nunca existiu.



A minha homenagem a José Mário Branco (1942-19/11/2019)


quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Mete andorinhas dentro do peito



Se as fontes de onde a vida nasce
se turvam de prostração,
é natural que tombem as mãos
que tecem a esperança.

Para quê teimar num sono
que adormece o sonho
se não erguemos nada mais
que a bandeira da amargura já negra?

Mais vale viver de dúbios intuitos,
troçar da nossa desgraça
ou até vestir olhar de ladrão,
do que sobreviver morto de pureza.

Mete andorinhas dentro do peito
mesmo que migrem ou morram no inverno,
elas acordam-te e fazem-te voar
ao ínfimo sinal de primavera.