Translater

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Se o circo fosse romano… [667]

 


Triste e abatida,

entre as margens do meu rio,

descansa, por ingenuidade,

com o corcel exausto e sem ferraduras,

toda a inquietude verdadeira

de um ser humano,

todos os desassossegos incuráveis

de uma alma esquecida por Deus.

 

Caiu sobre mim

a maldição e a desdita do desencanto,

numa faustosa gala

de prenúncios do descrédito.

Da minha desdita, porém,

não escrevo poemas,

subtraio dela, ainda assim, um gracejo.

 

Porque a criança que há em mim

persiste em não me deixar abater

e observa, com um sorriso traquinas,

a política espetáculo

e ri-se dos palhaços eleitos

e pagos para não haver circo.

 

Se o circo fosse romano, soltava as feras.

 


© Jaime Portela, Maio de 2026


sexta-feira, 1 de maio de 2026

Maio é um direito [666]

 


A existência não é senão isto.

Não há quem saiba remar e não há ordem a bordo.

Eclipsaram-se os valentes e ficaram

os fanfarrões sem vergonha no comando.

Os discursos são pórticos inúteis,

alfaias partidas, presságios de péssimas colheitas.

Ainda assim,

não há saudade das terras longínquas libertadas,

das sombras que nos espreitavam as falas

nem das prisões arbitrárias

que domesticavam o povo.

Felizmente que os cravos estão vivos

e Maio é um direito e uma voz de quem trabalha.

 

 

© Jaime Portela, Maio de 2026


segunda-feira, 27 de abril de 2026

Vassalos de Deus ou do Diabo [665]

 


Vassalos de Deus ou do Diabo,

cai sobre nós um óleo de rícino

fritando as oportunidades

que se queimam num lago inquinado

como se fossem pétalas fenecidas.

 

Se está calor ou frio,

os caminhos não são os mesmos.

Se juntarmos a chuva e o vento,

aleatórias mudanças são renovadas,

porventura apenas observadas

no âmago do sentir metafísico.

Tudo acontece porque está frio ou calor

ou porque nos cruzámos com alguém.

 

Procuramos o rumo no jogo da vida

como se fôssemos

uma das 22 bolas na mesa de um bilhar,

mais o capricho do giz

nem sempre bem colocado no taco

e pronto para rasgar o pano da lucidez.

 

Não sabemos para onde vamos,

mas chegaremos ao fim

como a bola que entra no buraco,

que jamais daí sairá

porque não haverá nova partida.

 

© Jaime Portela, Abril de 2026


segunda-feira, 20 de abril de 2026

O povo é fixe [664]

 


Diz a tradição

que o povo é fixe, é sábio,

nunca se engana, é solidário

e o seu contrário.

 

Frequente, é o cuidado

com as suas conveniências

e a desvelada exclusão,

aplicada com esmero

às conveniências dos outros.

 

Também usual,

mas pouco, é o esquecimento

dos seus interesses

e a prática de gestos solidários

perante as necessidades alheias.

 

O povo não é fixe nem sábio

quando menospreza a arte,

mas é com arte e engenho

que é manipulado pelo poder.

 

 

© Jaime Portela, Abril de 2026


segunda-feira, 13 de abril de 2026

Ensaio irrepetível [663]

 


Esvoaçam, sobre nós,

certezas de atrocidades estáticas.

Cheios do que nunca abraçámos,

estamos sôfregos da paz que não existe.

 

Poderíamos carregar as coroas

de todas as guerras que impedíssemos,

mas trazemos apenas

as mazelas das que permitimos.

 

Há quem morra sem ter vivido,

há quem pense sem ter pensado,

mas somente se vive o que se sente.

 

E a vida,

involuntária e de início aleatório,

é a certeza entre o espanto e a incerteza,

é um ensaio irrepetível.

 

© Jaime Portela, Abril de 2026


segunda-feira, 6 de abril de 2026

O vinho brando da languidez suave [662]

 


O vinho brando da languidez suave,

como um aconchego frágil,

entranhado e congelado

pelas dificuldades estrada fora

e desmaiado nas fontes

divorciadas dos olhos parados,

é venerado pelo povo

como um servo a um tirano subjugado.

 

Invade-o um ocioso saber agitado

em que, feito médium,

pressente aparições,

retorce cotovelos de conceitos

e que, no meio de emoções alternadas,

julgando-se certo,

se desarruma embaralhado.

 

 

Pensar e ajuizar,

misturam-se até se tornarem

numa desventurosa e convicta amálgama

de credos e sentimentos,

em que os factos e as perceções,

de tão confusos, ficam iguais

como água misturada no vinho,

uma zurrapa que, só de cheirar,

já dá voltas ao estômago.

 

© Jaime Portela, Abril de 2026


segunda-feira, 30 de março de 2026

Desperta [661]

 


Desperta,

ouve como a floresta canta:

os ventos são sussurros de uma orquestra

onde os riachos são violinos

num concerto de perfumes,

do pinho à madressilva.

 

Desperta,

podes ser um pássaro ou uma estrela

a sobrevoar o arvoredo

e esquecer a corrupção obscena da bolsa

ou a morte que espalham divertidos

os três mosqueteiros assassinos,

Putin, Trump e Netanyahu,

semeada sem dó na Ucrânia, no Irão,

na Faixa de Gaza e no Líbano.

 

Desperta,

sei que não ouves a floresta

não és um pássaro

e nem as tréguas da Páscoa te salvam,

mas compra uma máscara

porque os fumos tóxicos da guerra

vão chegar à tua garganta

antes que dês um tiro nos bandidos.

 

© Jaime Portela, Março de 2026


segunda-feira, 23 de março de 2026

A lei do mais forte [660]

 


Mergulhados no arbítrio

e num alento indefeso,

as fraturas

de um globo insanável

são loucamente geridas

por interesses obscuros

nem sempre declarados.

 

Não há linhas vermelhas

nem mistérios,

não há benevolências

nem desculpas,

há a lei do mais forte

para confiscar

os bens dos mais fracos.

 

© Jaime Portela, Março de 2026