Partiu quem eu jamais vi
Deus omitiu-me o que faço aqui
Sou o interregno desabitado
© Jaime Portela, Julho de 2026
Partiu quem eu jamais vi
Deus omitiu-me o que faço aqui
Sou o interregno desabitado
© Jaime Portela, Julho de 2026
Colecionar pedras para cinzelar
e não ter cinzel
nem arte para as esculpir.
Comprar lãs de todas as cores
e não ter agulhas
nem saber tricotar.
Cozinhar para dez pessoas para,
quando a comida está pronta,
deitar tudo para o lixo.
Uma brincadeira séria
com a inteligência de viver.
© Jaime Portela, Julho de 2026
Para muitos, a vida passa veloz,
serpenteia sem algoritmos
entre a felicidade e a tristeza.
É um vale de lágrimas
onde raramente o choro nos invade.
Crentes em Deus, ou não,
tudo seria diferente
se soubéssemos a nossa razão de ser,
havendo ou não
vida para além da morte.
Ignorante,
dispenso-me de serpentear
na minha ideia da vida e da morte.
© Jaime Portela, Julho de 2026
Há quem se gabe
de fugir aos impostos, roubando a todos.
São ladrões,
impedem que os rendimentos de cada um
sejam maiores.
Alguns até são ilustríssimos mecenas
e raramente são apanhados.
Há quem diga
que os pobres são malandros,
que deviam trabalhar
e não receber subsídios.
Que ciganos, pretos e imigrantes
passam à frente dos brancos nacionais
em toda e qualquer fila.
Uns e outros, ladrões e populistas,
pertencem ao mesmo grupo fétido
e deviam ter vergonha
quando batem no seu peito
hipocritamente católico.
© Jaime Portela, Junho de 2026
Sentado no sofá,
com um copo de uísque na mão, sou rico.
Mas se o copo tiver água,
volto à infância onde quase tudo era pobre.
As prédicas eram feitas à base de proibições,
como faltar à missa, comentar a política
ou dizer mal do senhor professor,
do senhor padre ou do senhor regedor.
Aos senhores, todo o respeito era pouco.
Uma mera guloseima
pode desconjuntar-me os vigores
com a intemperança de memórias que os sacode.
Se na minha língua escorrega
o leite-creme dourado,
revivo os tachos de cobre da minha avó,
as corridas com os carrinhos de lata
ou as proezas com os barcos à vela
feitos com a casca grossa dos pinheiros.
O chocolate, talvez por ser negro,
transporta-me à lenda e às tréguas
da guerra entre cristãos e turcos
onde o casamento, ao som da contradança,
do rei mouro com a Floripes,
irmã de Ferrabrás,
finalmente enganou e sossegou Oliveiros
e o imperador Carlos Magno.
Mas é o maldito cigarro
que me restaura estados idos,
que me lava de azos mortos
e me branqueia de paz certos momentos
enquanto, paulatinamente,
me enegrece por dentro.
© Jaime Portela, Junho de 2026
No claro prazer da vida,
paralisa-nos, porém, a brisa repleta de sol.
Não é a tensão moderna
da estival gritaria adivinhada
ou o desassossego dos corpos mecânicos,
vazio fosco do éter anil real.
É a inércia percetível
da sugestão da indolência,
penacho tocando brando
o corpo entorpecido, transpirado.
Mas há um desprazer no verão:
apetece a água da praia mesmo a quem,
de tantos veraneantes, a detesta,
por não descobrir areia para a toalha
enquanto o mar se espreguiça à vontade
ao som do paraíso dos búzios.
© Jaime Portela, Junho de 2026
Orgulho
é a convicção da nossa importância.
Vaidade
é a convicção de que os outros
nos outorgam tal importância.
Orgulho sem vaidade é inibição,
por não termos a certeza de que os outros
nos reconhecem a importância.
Vaidade sem orgulho é ousadia,
é ter a certeza que tudo se pode fazer.
© Jaime Portela, Junho de 2026
Que vida temos
quando os outros nos rasgam as vestes?
As fortalezas ficam perigosamente expostas
com os portais escancarados
à mercê de legiões patronais
armadas com as lanças do poder.
As hostes são indisciplinadas, bem sei,
mas ainda há cavaleiros
que sabem fazer tilintar espadas.
A guerra, pacífica, é evidente,
porque não há razão
para aceitar tratados inclinados
para os bolsos dos patrões
e esmolas para dourar
as nuvens negras não compensam.
Na greve,
tudo se resume a resistir ao ataque
para que a exploração mal paga não aumente.
© Jaime Portela, Junho de 2026
Ter esperança
é esperar que saia o nosso número na roleta
sem que possamos ter influência no desfecho.
Acreditar
é ver a roleta com apenas um número, o nosso.
Não ter esperança
é desistir e esperar o pior desfecho
porque a roleta não tem qualquer número.
Não acreditar
é pensar que não há roleta nenhuma.
© Jaime Portela, Maio de 2026
A busca da verdade,
da verdade subjetiva,
a da presunção,
tal como a verdade exata dos factos,
da social da riqueza
ou da política e do poder,
transporta, quase sempre,
o saber final da sua ausência.
Encontrar a verdade autêntica
é tão rara
como a sorte do euro milhões
que sai apenas
aos que compraram por mero acaso.
A verdade
é uma enguia escorregadia
que não morde facilmente o anzol.
© Jaime Portela, Maio de 2026