Translater

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Memórias gustativas [674]

 


Sentado no sofá,

com um copo de uísque na mão, sou rico.

Mas se o copo tiver água,

volto à infância onde quase tudo era pobre.

As prédicas eram feitas à base de proibições,

como faltar à missa, comentar a política

ou dizer mal do senhor professor,

do senhor padre ou do senhor regedor.

Aos senhores, todo o respeito era pouco.

 

Uma mera guloseima

pode desconjuntar-me os vigores

com a intemperança de memórias que os sacode.

Se na minha língua escorrega

o leite-creme dourado,

revivo os tachos de cobre da minha avó,

as corridas com os carrinhos de lata

ou as proezas com os barcos à vela

feitos com a casca grossa dos pinheiros.

 

O chocolate, talvez por ser negro,

transporta-me à lenda e às tréguas

da guerra entre cristãos e turcos

onde o casamento, ao som da contradança,

do rei mouro com a Floripes,

irmã de Ferrabrás,

finalmente enganou e sossegou Oliveiros

e o imperador Carlos Magno.

 

Mas é o maldito cigarro

que me restaura estados idos,

que me lava de azos mortos

e me branqueia de paz certos momentos

enquanto, paulatinamente,

me enegrece por dentro.

 

© Jaime Portela, Junho de 2026


segunda-feira, 15 de junho de 2026

Um desprazer no verão [673]

 


No claro prazer da vida,

paralisa-nos, porém, a brisa repleta de sol.

Não é a tensão moderna

da estival gritaria adivinhada

ou o desassossego dos corpos mecânicos,

vazio fosco do éter anil real.

É a inércia percetível

da sugestão da indolência,

penacho tocando brando

o corpo entorpecido, transpirado.

Mas há um desprazer no verão:

apetece a água da praia mesmo a quem,

de tantos veraneantes, a detesta,

por não descobrir areia para a toalha

enquanto o mar se espreguiça à vontade

ao som do paraíso dos búzios.

 

© Jaime Portela, Junho de 2026


segunda-feira, 8 de junho de 2026

Do orgulho e da vaidade [672]

 


Orgulho

é a convicção da nossa importância.

 

Vaidade

é a convicção de que os outros

nos outorgam tal importância.

 

Orgulho sem vaidade é inibição,

por não termos a certeza de que os outros

nos reconhecem a importância.

 

Vaidade sem orgulho é ousadia,

é ter a certeza que tudo se pode fazer.

 

 

© Jaime Portela, Junho de 2026


segunda-feira, 1 de junho de 2026

Greve [671]

 


Que vida temos

quando os outros nos rasgam as vestes?

As fortalezas ficam perigosamente expostas

com os portais escancarados

à mercê de legiões patronais

armadas com as lanças do poder.

As hostes são indisciplinadas, bem sei,

mas ainda há cavaleiros

que sabem fazer tilintar espadas.

A guerra, pacífica, é evidente,

porque não há razão

para aceitar tratados inclinados

para os bolsos dos patrões

e esmolas para dourar

as nuvens negras não compensam.

Na greve,

tudo se resume a resistir ao ataque

para que a exploração mal paga não aumente.

 

 

© Jaime Portela, Junho de 2026


segunda-feira, 25 de maio de 2026

A roleta [670]

 


Ter esperança

é esperar que saia o nosso número na roleta

sem que possamos ter influência no desfecho.

 

Acreditar

é ver a roleta com apenas um número, o nosso.

 

Não ter esperança

é desistir e esperar o pior desfecho

porque a roleta não tem qualquer número.

 

Não acreditar

é pensar que não há roleta nenhuma.

 

 

© Jaime Portela, Maio de 2026


segunda-feira, 18 de maio de 2026

Enguia escorregadia [669]

 


A busca da verdade,

da verdade subjetiva,

a da presunção,

tal como a verdade exata dos factos,

da social da riqueza

ou da política e do poder,

transporta, quase sempre,

o saber final da sua ausência.

Encontrar a verdade autêntica

é tão rara

como a sorte do euro milhões

que sai apenas

aos que compraram por mero acaso.

A verdade

é uma enguia escorregadia

que não morde facilmente o anzol.

 

 

© Jaime Portela, Maio de 2026


segunda-feira, 11 de maio de 2026

Cala-te [668]

 


Cala-te,

a tua presença é excessiva

e lamento ser obrigada a ver-te.

Anseio que sejas lembrança apenas

e não enxame de aparências

que me rodeia de mentiras

como se eu fosse uma colmeia.

Deixa-me,

só de imaginar que te posso sentir

há um deserto sem oásis

onde nem camelos há

para que me turvem a água

onde tenho vontade de te afogar.

Vai-te,

encontras sempre razões

onde não há mais que insultos

a iluminar as tuas mãos

habituadas à violência

e ruído vomitado pela tua boca

a insistir na humilhação.

Se tu não vais, vou eu,

fartei-me da vergonha

de verem um lar desfeito.

Adeus,

estou sem coragem de te matar

antes que me tires a vida.

 

© Jaime Portela, Maio de 2026


segunda-feira, 4 de maio de 2026

Se o circo fosse romano… [667]

 


Triste e abatida,

entre as margens do meu rio,

descansa, por ingenuidade,

com o corcel exausto e sem ferraduras,

toda a inquietude verdadeira

de um ser humano,

todos os desassossegos incuráveis

de uma alma esquecida por Deus.

 

Caiu sobre mim

a maldição e a desdita do desencanto,

numa faustosa gala

de prenúncios do descrédito.

Da minha desdita, porém,

não escrevo poemas,

subtraio dela, ainda assim, um gracejo.

 

Porque a criança que há em mim

persiste em não me deixar abater

e observa, com um sorriso traquinas,

a política espetáculo

e ri-se dos palhaços eleitos

e pagos para não haver circo.

 

Se o circo fosse romano, soltava as feras.

 


© Jaime Portela, Maio de 2026