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quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Nos seus olhos castanhos



Nos seus olhos castanhos
há rubis, que podem ser vermelhos,
verdes ou azuis,
num desabrochar de chão em frutos
quando tocam os meus.

É de flores
o perfume líquido a crescer
nos seus passos de pés descalços
ao compasso de uma dança de carícias
com as asas dos beijos desfolhados.

São fartas as bandeiras
que em mim se podem desfraldar
ao vento dos seus lábios,
para com elas agrupar os cubos dos puzzles
dos verdadeiros desenhos da vida.

Mas é na rosa vermelha
e nos pedaços exatos da alma
que sinto a vertigem do abismo de rubis,
felizmente de algodão.


segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Pondera




Pondera no querer
que há impresso no teu corpo
e te liberta,
rosa orvalhada e impaciente
pela abelha em si pousada
e crente no seu pólen.

Pondera no desejo
que a carne pulsante imprime em fogo
que toca e cora pétalas
e quão inútil é negar
a mentira como um coice
que te acorda ou te adormece.



quinta-feira, 12 de setembro de 2019

A tua voz





A tua voz
tem a periferia do teu corpo,
tem a imagem
que sussurra inflamação
nos meus sentidos.

A tua voz
tem melodia,
uma donzela que me devora
até fazer de mim
o que te deixa sem ela.



segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Não precisas de esquecer



Não precisas de esquecer
as tuas normas
para que te possas saciar
com as desordens
que surgem por dentro perfiladas
e crescem em arroubos
ao beijares de perto o desejo.

Não precisas de esquecer
o teu carácter
para que possas vestir o prazer
com um manto cristalino
de sussurros invencíveis
que do querer vais libertando
e te alucinam na apoteose do gozo.

Não precisas de esquecer
a tua honra
para que alguém entre mansamente
e saia com a mente serenada
na porta entreaberta
com o orvalho do desejo
a gritar ao mesmo tempo que tu.



segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Pássaros com asas de luz

(poema dedicado aos meus netos)



É vossa
a primavera que não para de crescer,
enquanto as andorinhas
me deixam e apenas ressurgem
quando tento colher os frutos do vosso pomar.

São vossos
os olhos do tempo depois do meu tempo,
tal como o silêncio noturno
do estrondo dos dias será o som da madrugada
quando o sono se transformar
numa invernosa batalha perdida.

São vossos
o leito e as margens do rio de primaveras
enquanto a alma vos crescer dos olhos
e seguirdes pássaros com asas de luz
com o mundo dentro das mãos.





quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Vai de férias




Vai de férias,
esquece Berardos e Salgados,
os naufrágios de imigrantes,
a Faixa de Gaza e as greves.

Faz a tua mente voar
mesmo sem sair de casa,
leva contigo o desejo
de abraçar um fogo adolescente.

Põe o cansaço a léguas
e pendura o casaco das alegrias na alma,
despe a saudade
e faz tréguas com as mágoas.

Vai de férias,
fecha os olhos e sente,
até a fazeres entrar no teu corpo,
a doçura das águas,
dos ventos e dos pássaros.

Vai de férias e volta,
mas não verás a paz
porque raramente [ou nunca] prendem
os que inventam a guerra.



quinta-feira, 1 de agosto de 2019

A convicção é a adrenalina da vida



Vivemos na procura
de um destino movediço,
essa montanha parideira de ratos
que só distraída
acede aos nossos desejos.

Se necessário,
não dormimos toda a noite,
vivemos enfiados numa gruta
onde os espelhos são côncavos
e tudo fica ao alcance da mão.

Mas, como a convicção
é a adrenalina da vida,
temos de acreditar que há virtude
nos embuçados sonhos da fantasia.

Na ausência de sonhos,
somos torrentes de pedras
que se afundam
na erosão do tempo
subtraídas à força da crença.

Tal como as palavras,
que renascem nas próprias palavras,
continuemos a sonhar, porque
o Homem é o produto
da soma de sonhos realizados.



quinta-feira, 25 de julho de 2019

O fogo-de-santelmo




Nas dobras dos dedos,
os montes,
os vales,
os joelhos,
despertos e dobrados.

O rio do teu mar
a provocar um desnorte
de naus
rendidas às carícias
das ondas do teu cheiro,
que me vara.

O fogo-de-santelmo
a aproximar-se
e nós a desejá-lo,
a puxá-lo,
a adiá-lo,
a gozá-lo na fronteira.



quinta-feira, 18 de julho de 2019

Vivamos




A seda indiscreta não recata,
acicata a ânsia da procura do que vejo
e já beijo
sob esse manto descartável
a desamparar o teu corpo.
Ao roupão,
morto por voar,
as minhas mãos dão-lhe as asas
para que libertem a alvorada do sentir
e toda a sede rubra do teu ventre.
Nos suspiros,
desencarnados ais na garganta.
Nos braços e nas pernas,
o desejo que os quebranta.
Vivamos,
no universo que criámos só para nós
até desaguarmos
em oásis de veludo incontornáveis
a reluzir chamativos,
somos água e pouco mais,
às voltas.



quinta-feira, 11 de julho de 2019

O sorriso dos teus olhos na lapela




As flores do verde maio,
ao tocar nesse teu maduro violino,
não mais terão sombra
na sinfonia de cores da nossa porta.
Na boca,
terás uma rosa à janela da alegria
e eu o sorriso dos teus olhos na lapela.
No rosto, a fertilidade
da vertigem das alturas será tua
e o trinado limiano do teu corpo
a corrente do meu rio de lembranças.
Até que tudo seja pó,
serão as plantas vicejadas pelo teu canto
a suster a minha entrega
de raízes em ti firmes,
nutridas pela chuva de flores e pólen
a cair do telhado
em permanente construção.