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quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Não sei...




Sabes que eu posso
fazer os poemas de que gostas,
em que o burburinho das águas
te molhem os interstícios da alma
enquanto te sirvo colheradas de algodão doce
embebido nas palavras,
em que as castas metáforas de amor
te façam esquecer
a areia movediça dos mistérios
das coisas só explicadas em dogmas.

Sabes que eu posso
fazer os poemas que te fazem sonhar,
para que a fêmea depravada e enclausurada
nas palavras libertárias do teu corpo,
sempre submisso à minha espada amotinada
e que esperas desabotoada
sob a forma de flor de ninfa predadora,
se liberte do afogo da realidade
das coisas que não precisam de explicação.

Sabes que eu posso… mas eu não sei...
Tal como tu,
talvez eu não queira encontrar-te agora
para não nos perdermos depois.


Jaime Portela




quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Se amas a Deus, não o compreendes




Em maior ou menor grau,
o que vemos a cada instante é sempre novo.
Temos o olhar que um recém-nascido teria
se tivesse a percepção
de que tinha vindo à luz de facto.

Acreditamos nas coisas porque as vemos
ou porque alguém nos disse que existem.
Elas revelam-se, mas não as compreendemos,
porque as coisas não se pensam
(que eu saiba,
ninguém compreende uma flor ou a lua…).

Ainda que nem todos os que não pensam
possam amar,
se amas é porque não pensas.
Porque se pensasses
não ficavas a saber o que amas nem o motivo.

Se amas a Deus, não o compreendes.
E nem pensas nele, tal como se não o amasses,
porque se o fizesses estarias a desrespeitá-Lo,
já que Ele preferiu que o não víssemos.
Ou,
porque o olhamos como recém-nascidos,
não o vemos.

Jaime Portela



quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Se me querem doutrinar




Se me querem doutrinar
e acham que devo abraçar uma religião,
fiquem descansados, já a abracei.
Mas apenas com a carne e com os ossos
que a terra ou o fogo hão de comer
é que sou religioso,
e portanto pecador…

Sem vontade de a entender,
vivo no desejo persistente
de sentir essa religiosidade
e não de acerca dela meditar.
Versejo almas sem saber o que elas são
porque a minha não a sei.
Se o soubesse, talvez fosse um santo
e nem sequer escrevesse um poema.

Essa é a minha religião,
peco a vida num deserto engarrafado
a encher o copo com as miragens
das almas de outros corpos,
num corpo a corpo sentido
onde as tento despir,
para as ver, sem jamais o conseguir.


Jaime Portela



quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Se tudo sentisses e ouvisses



Se sentisses
todas as cores do chão que pisas,
talvez fosses menos feliz
e amaldiçoasses
a maioria das metáforas
que os sorrisos fingidos te vendem.

Se ouvisses
todos os rumores do ar que respiras,
talvez percebesses
a vantagem da surdez
e agradecesses não seres capaz de ler
os pensamentos dos outros.

Se tudo sentisses e ouvisses,
talvez estranhasses
quão nua vai a tua insignificância
e percebesses
quanta da bem-aventurança
dos pobres de espírito também é tua.




Jaime Portela