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quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Poesia ilusionista


O olhar cego na visão
impenetrável para além dos muros
que a cercam,
mas a acreditar na baforada de luz,
apesar da noite que espreita.
O pentear de rios nas margens,
agitando remansos na floresta
da fantasia construída
pela sedução do seu corpo, num duelo
de memórias com dedos de paixão.

A torrente de lava,
bola de neve silenciosa,
molhada pela chama
que lhe desvenda os olhos de prazer,
no desejo incontido de fêmea
no auge de um cio embrulhado
num estímulo que a penetra,
que a desatina
até ao orgasmo arrebatado
de palavras com rima.

Ah poesia ilusionista,
nada inventas,
és apenas a ficção da realidade.


quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Recuso-me a morrer


Do tempo,
que morre e me despeja neste mar
de um só sentido, sou náufrago
quase sem me descobrir.

Mas vislumbro janelas
a florir para além do horizonte
da gaiola das memórias,
inundadas por esguias certezas
que flutuam na aridez
a abarrotar de chuva evaporada.

Recuso-me a morrer,
preciso de tempo para me descobrir
nas janelas de vida
que me acenam e sorriem do futuro.

Por isso, exijo
que alguém me retire tempo antigo,
varrendo memórias não sentidas,
sem interesse, obsoletas,
e que agora mo devolva por usar.


quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Do nosso muro de Berlim


Quando partimos,
a solidão fica maior do que pensávamos
e sofremos com a saudade
sem a sabermos pintar com palavras.
Apenas sentimos que ela mora trasvestida
no silêncio do corpo, golpeado de passados
que se avivam, que revolvemos nas insónias
pejadas de perguntas idiotas.

Mas sabemos que, no regresso, ouviremos
estrondos de grilhetas rebentadas
na libertação do escravo
que prendemos dentro de nós.
E que, na reconstrução, voltamos a ser
pedra sobre pedra, matando a sede,
destruindo fraquezas
infiltradas nos ossos das convicções.

E que, ao colocarmos flores
na barricada que nos protege,
somos de novo czares ou czarinas
sem proletariado ou histeria nazi.
Renascemos com a queda
do nosso muro de Berlim e, da ausência,
não haverá mais arame farpado na mente.



quinta-feira, 18 de outubro de 2018

A uma prostituta


Não quero o teu corpo comprado
numa cama limpa, sem vida, sem beijos.
Do teu sangue, não sentiria a desordem,
apenas o ruído equivalente.
Nem da tua carne beberia a sede
ou o galope de corcel desenfreado.

Serias virgem em chamas simuladas
não ateadas pelo meu fogo real.
Serias atriz cronometrada
enquanto eu,
artista principal,
te possuía com um papel secundário.

Tal como tu,
não te quero. Nem te conheço...
E, mesmo assim, eu gosto de ti.
Eu sei, não podes ser diferente.
Nem serias prostituta
com tanto homem na mente…



quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Nos lençóis em desalinho



Surgiste a noite passada,
ave noturna,
de mansinho,
ignorámos a madrugada
nos lençóis em desalinho.

Encontrando-te,
perdi-me num vulcão,
fervente, em cadinho,
templo ao desejo erguido
nos lençóis em desalinho.

De rios bravos a lagos,
fomos pão,
fomos vinho,
fomos água,
colhemos um mar de rosas
nos lençóis em desalinho.



quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Fantasia de sal



O mar,
um cão (nós ouvimo-lo a morder),
encheu-te os ouvidos de búzios
no teu corpo de sargaço em desordem,
para que ouças
as carpideiras nos salpicos de mar
e sintas
o naufrágio da tua fantasia de sal
ao largo de um cabedelo tinto de luar.

Entregas-te mulher no calor das dunas,
onde te sonho no sonho que amanheço,
perdes-te nas vagas em pranto
que o mar derrama
pelo regresso impossível ao começo.

Mas eu cinjo-te num abraço,
alago-te de um mar chão de ruídos,
torno-te lua
de coração espelhado a incendiar a noite,
onde te vejo nua,
tremelicando no espelho de sal e areia.

Abres os olhos
e sonhas-te a caminhar na areia da praia
a esboçar trilhos
ainda virgens de sal nas escolhas.



quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Cinzelo uma folha com tinta



Cinzelo uma folha com tinta,
transpiro no fumo, alagado,
e um aroma de selva molhada
chega-me já descorado,
com estranhos sons de um deserto.

E não avisto o desviar da tua blusa.

Mas, se a minha miragem te despe,
subtraio destro a pele das palavras,
sem calcular o logaritmo das somas
e nem sequer a prova dos nove ou real
para traçar os teus códigos secretos.

Porque o poema pode ser celebrado
com tudo que é imortal,
que perece,
branco,
preto,
aos quadradinhos redondos,
enfim, com aquilo que aparece...



quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Flor de sal


Num mar de gaivotas e albatrozes,
enlaçados em maresias de sargaços
num batel à bolina de ventos de feição,
mergulhámos,
despidos,
na emoção da transparência de corais.

E quiseste apertar-me no teu peito
ao som de cílios em desejo,
acesos no querer aportar
ao cais dos meus braços, que acreditaram,
sem ondas, na brisa
que daria vida às velas do nosso abraço.

E quando a noite subia
ao monte de Santa Luzia,
houve sempre um farol,
do Bugio ou da Senhora da Agonia,
a alumiar-nos na espuma e nos recifes
das voltas do vira.

Quero-te,
minha flor de sal,
a navegar ao sabor de ventos e marés
com o teu castelo à vista,
zarpando do quebra-mar da Ribeira
comigo a beber o teu canto de sereia.


quinta-feira, 13 de setembro de 2018

São de pedras os caminhos



São de pedras os caminhos
se o vazio da alma nos persegue.

E é nesse pétreo caminhar
que depressa concluímos
que será sempre melhor
ter alguma coisa por companhia,
mesmo que não acreditemos nela.

E, então,
mesmo não sendo a Pedra Filosofal,
poderemos dizer que mais vale
mal acompanhado que só.

Já que uma razão qualquer,
porventura de pedra lascada feita,
fará dos nossos passos um andar
com pedras temperadas de algodão.



quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Vem



Vem,
que ao chegar sinto vontade de partir,
daqui de longe, para o calor da tua pele,
salgada tez que o nosso mar quer florir.

Voa,
como um pássaro migrante disfarçado,
para o cais onde eu me quero atracar,
sem leme, no teu peito amordaçado.

Procura-me,
que as minhas noites morrem baças, sem glória,
embriagadas na agitação de te amar
à bolina de velame sem memória.

Abraça-me,
repousa em mim a canção do teu olhar,
apaga a fome de beber o meu feitiço,
vê a saudade, já morta, a expirar.

Beija-me,
enquanto enfeito com palavras de flores
todas as vozes caladas no teu corpo
e escuto aromas brotar das tuas dores.

Despe-me,
destapa os meus segredos insondáveis
para eu contar as estrelas dos teus olhos
em madrugadas de suspiros infindáveis.

Despe-te,
sente a tua carne rubra, devagar,
saboreia essa vontade de partir
e de chegar sem intenção de regressar.



quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Ainda posso



Ainda criança,
queria sentir
o mesmo que as outras crianças,
que tinham um manancial de sonhos
melhores que os meus.

Ainda inocente,
queria acreditar
nas costureiras
que bordavam as asas dos anjos
na verdade do cosmos.

Ainda puro,
queria beber
os dias sem mágoas,
num faz de conta igual
ao dos filhos sempre felizes.

E ainda hoje queria...
Mas ainda posso,
mesmo velho,
comprometido e encardido.



quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Podemos



Podemos pensar
que caminhamos livres,
distantes de uma chama passageira.
Podemos ver-nos
Ítalo e Odalisca de um bordel,
deitados num saque de conquistas
e abraçados a capitulações ponderadas
de um império florescente.
Podemos até julgar
que tudo é inflamado, aparente,
onde o triunfo é geral
sem nada de surpreendente.
Podemos...
Mas também podemos navegar
nos escolhos da ternura,
de olhares perdidos,
encontrados num fogo reverente.
E podemos ainda
ancorar o vaso e o fluido decifrados,
num mar chão só com corais
de água limpa e transparente.