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quinta-feira, 24 de maio de 2018

Persistiremos




Aliados,
cicatrizamos as desventuras
despidos ao Sol,
mas a mágoa não se abate redonda,
de olhos fechados,
em pecados já mortos
pelo fogo dos nossos milagres.

De mãos dadas,
encolhemos as fronteiras das sombras,
detendo a noite,
e apostamos em cruzadas
de palavras brancas
para enterrar vivos
os nossos fantasmas que rosnam.

Mas continuaremos a voar
transpirados de gritos nas veias
e a respirar suspiros na síntese da voz,
que a garganta adelgaça,
enquanto não tocarmos
em pássaros a rir de tristeza.

E persistiremos
em esvaziar as circunstâncias da carne
que fervilha de seiva
e em encher a alma com uivos de Sol
enquanto não ouvirmos sereias
a chorar de prazer ao luar.




quinta-feira, 17 de maio de 2018

Destino




Do tempo,
em nós encavalitado
e incapazes de o impedir
rumo ao infinito irrevogável,
somos pauzinhos inúteis
na engrenagem do pêndulo sideral.

Nesse trajeto,
que acompanhamos
com a mesma influência das pedras,
reeditamo-nos em mortos futuros
para alongar a viagem
que sabemos finita.

Mas, incongruentes,
derretemos demasiado gelo no uísque
do nosso consumismo
e abreviamos enfatuados a excursão,
cada vez mais quente e contaminada.

Depois disso, o tempo caminhará
sem a nossa companhia,
a menos que tenhamos arte e engenho
de nos mudarmos para outro relógio
a tempo inteiro habitável.





quinta-feira, 10 de maio de 2018

Quando a claridade surge




Quando a claridade surge
do ventre da noite,
és a derradeira musa
a esconder-se no palco.
E ainda a noite estrebucha,
já gasta e quase morta,
és a primeira graça
a entrar em cena com luz.

Nessa metamorfose,
demoro-me na indecisa crisálida
que troca de vestes
e acaricio desbragadamente
o teu corpo,
num camarim aceso
pela sorte que me apraz
em ter o ensejo
de te ver assim intacta.

Mas…
Não me pertences… És perfeita,
em mim, integralmente.
És íntegra, para além de mim,
perfeitamente.



quinta-feira, 3 de maio de 2018

Se me lembro de ti



Se me lembro de ti
e do teu corpo em suspiros,
o inverno afasta-se, tocado pelo calor
da  brisa libertada pelo teu nome.
Então, sei que estarás comigo a despir
as pétalas do teu sorriso
e sei que beijarei cada bem-me-quer
que nos teus olhos cintile.

Num festim mais que perfeito
de uma verdade só nossa,
não alheia, muito menos desatenta
às emoções do estio
que tinge a nossa pele de amor,
vejo então o teu desejo florir
sublimado no lampejar dos teus olhos
e o nosso sangue é feliz.




quinta-feira, 26 de abril de 2018

À sombra do teu sol




Gosto do sol e da sombra abarcados
no mar salgado do teu porto de mim.
Gosto dos faróis engaiolados
na gávea dos mastros,
a iluminar-nos o silêncio nu que se liberta
no peito das velas que nos fazem navegar.

Gosto do teu ar afoito no incêndio
do meu passo.
Gosto do néctar que corre, na inquietação
de mostrar que ainda há tempo de florir
a rosa que há em ti
sem o medo dos sustos de criança.

Gosto do teu borbulhar quando vês
que há quem diga que encontrei um tesouro.
Gosto quando te vestes de amor
ao saberes que esta noite acordei para ti,
de novo virgem,
com a sede de um deserto.

Gosto de ti meu amor,
procura-me nas tuas palavras.
Estou a beijar-te à sombra do teu sol,
dentro de ti.





quinta-feira, 19 de abril de 2018

Sai depressa




No rumo a escolher,
para se chegar
ao destino pretendido,
tudo deve ser bem claro.

Como os mares fechados o são
para o navegante.

Não para ver o ponto da chegada,
só o caminho
que guie como ponte.

Quando errante
no mar cavado da solidão
que a tristeza escurece,
alumia-te e sai depressa,
proclama-te ponte na partida
e sê o porto de ti mesmo.




quinta-feira, 12 de abril de 2018

Senhores juízes



Nos dias que correm, há quem,
magro cordeiro, espere a faca na garganta
enquanto esgana,
recolhido no torpor da resignação,
o desespero acavalado
com pastilhas de esperança.

E também há quem, mirrado obreiro,
esfole o corpo de verdade
enquanto paga,
assente na surda-muda indignação,
os tributos calculados
com juros de ansiedade.

Porque há quem, rico banqueiro,
espete vidas na sarjeta
enquanto arrota,
convencido que a mentira é redenção,
a tantos milhões roubados
com poses de arrogante honestidade.

Senhores juízes, por favor,
não usem facas, não os esfolem,
mas espetem com os corruptos, sem demora,
no paraíso das cadeias onshore




quinta-feira, 5 de abril de 2018

Do morro do Corcovado




Do morro do Corcovado
avistam-se, praias, enseadas e favelas,
mas só alguns enxergam
o mar de glórias e desmandos lusitanos
na memória das caravelas
outrora nas baías fundeadas.

Eu, quando olho para o morro,
vejo apenas o monte de Santa Luzia
da minha Viana do Lima,
porque são as mimosas que descubro
na Primavera ancorada no teu rosto
que o aclaram, douradas.

Qualquer pessoa sente o mesmo
quando está no Corcovado,
mas quase minguem vê as memórias
que eu avisto no teu bailado de musa
sempre que danças o vira comigo
na Romaria da Senhora da Agonia.

Quando, já corcovado, olhar para ti,
ninguém terá mais vida
nem será mais bela que tu,
ainda que os outros, porque são cegos,
não vejam o mesmo que eu.



quinta-feira, 29 de março de 2018

A poesia só existe no olhar




Há poemas
que são figuras de estilo
com o diabo no corpo,
onde o poeta se perde a beijar os versos
sem pudor dos seus leitores.

Mas há poemas
que dispensam as palavras
para que tenham a música
e os acordes de um concerto
ou as cores e os esmaltes de uma tela.

Na verdade,
os poemas não são poemas,
porque as palavras,
a musica e as cores
estão na alma e nos olhos de quem lê.

A poesia só existe no olhar,
porque as palavras apenas te dizem
para onde deves olhar.




quinta-feira, 22 de março de 2018

Mesmo na sombra




Procuramos a verdade em ambientes incertos,
onde vemos que as flores nem sempre
têm as mesmas cores.
Se é a bruma ou o silêncio que as altera,
não o sabemos,
mas devemos admitir que a nossa pele,
por vezes,
não compreende a luz do sol que a ilumina.

Quando as nuvens, indiferentes, passam por nós,
fortalecemos a alma
se formos sábios a sofrer,
se não deixarmos de ver as flores como elas são
na sombra que sobre elas se abate.
Porque o contrário distorce o ar das coisas
e o que os nossos olhos veem
enfraquece-nos o espírito.

Por isso, mesmo na sombra,
continuas a ter as cores do arco-íris
e a ser a minha flor: existes em mim e sou feliz.


Jaime Portela



quinta-feira, 15 de março de 2018

Meio afogado e nu



Vou fazendo os meus poemas
com a vontade que as palavras
ganham ao escrevê-las,
como se elas tivessem vida própria
e eu não.
Ainda assim, procuro vergá-las
para as fazer pulsar do que sinto,
numa luta contra a corrente
de um rio onde arrisco a despir-me
para melhor o atravessar.

Vou caminhando para ti
de igual modo, com o desejo
nos passos que invade o meu andar
ao percorrer o trajecto,
como se eles tivessem vontade própria
e eu não.
Confesso que tento resistir
para esconder o que sinto,
mas o entusiasmo vivo do rio
vai-me arrastando para a foz.

A menos que fujas,
mais cedo ou mais tarde chegarei a ti
vestido de fogo e sem palavras,
ainda que meio afogado e nu.


Jaime Portela


quinta-feira, 8 de março de 2018

O erro da incerteza



Saber olhar sem mais nada fazer
é uma arte indispensável,
porque não pensar enquanto te olho
é saber encher a minha alma de ti.

Não olhar para mais nada
enquanto medito, também o é,
porque não te ver enquanto penso em ti
é saber como te vejo quando te olho.

O que eu vejo de ti, és tu, nada mais,
tal e qual como te veem os demais.
És uma exatidão determinável
sem fugas à realidade verdadeira.

O que eu penso de ti, não és tu, és outra,
diferente do que os outros pensam.
És um erro variável, com um desvio
à verdade indemonstrável.

Mas, de te ver e de tanto em ti pensar,
desprezei o erro da incerteza
demonstrável na verdade de te amar.


Jaime Portela





quinta-feira, 1 de março de 2018

A caipirinha branca e pura do prazer




Pensando sem pensar,
gostava que te despisses,
que te libertasses dos fardos
que te entregaram pintados de preconceitos
e esquecesses o que aprendeste.

Pensando melhor,
gostava que abandonasses
a forma de recordar
o que te contaram e volatizasses os vinhos
que te assombraram a memória.

Pensando pensadamente,
gostava que libertasses
o teu genuíno sentir,
que te desafogasses do norte dos parasitas
e que fosses tu, apenas tu.

Parando de pensar,
gostava que aprendêssemos a beber descalços
a caipirinha branca e pura do prazer.


Jaime Portela