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quinta-feira, 18 de outubro de 2018

A uma prostituta


Não quero o teu corpo comprado
numa cama limpa, sem vida, sem beijos.
Do teu sangue, não sentiria a desordem,
apenas o ruído equivalente.
Nem da tua carne beberia a sede
ou o galope de corcel desenfreado.

Serias virgem em chamas simuladas
não ateadas pelo meu fogo real.
Serias atriz cronometrada
enquanto eu,
artista principal,
te possuía com um papel secundário.

Tal como tu,
não te quero. Nem te conheço...
E, mesmo assim, eu gosto de ti.
Eu sei, não podes ser diferente.
Nem serias prostituta
com tanto homem na mente…



quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Nos lençóis em desalinho



Surgiste a noite passada,
ave noturna,
de mansinho,
ignorámos a madrugada
nos lençóis em desalinho.

Encontrando-te,
perdi-me num vulcão,
fervente, em cadinho,
templo ao desejo erguido
nos lençóis em desalinho.

De rios bravos a lagos,
fomos pão,
fomos vinho,
fomos água,
colhemos um mar de rosas
nos lençóis em desalinho.



quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Fantasia de sal



O mar,
um cão (nós ouvimo-lo a morder),
encheu-te os ouvidos de búzios
no teu corpo de sargaço em desordem,
para que ouças
as carpideiras nos salpicos de mar
e sintas
o naufrágio da tua fantasia de sal
ao largo de um cabedelo tinto de luar.

Entregas-te mulher no calor das dunas,
onde te sonho no sonho que amanheço,
perdes-te nas vagas em pranto
que o mar derrama
pelo regresso impossível ao começo.

Mas eu cinjo-te num abraço,
alago-te de um mar chão de ruídos,
torno-te lua
de coração espelhado a incendiar a noite,
onde te vejo nua,
tremelicando no espelho de sal e areia.

Abres os olhos
e sonhas-te a caminhar na areia da praia
a esboçar trilhos
ainda virgens de sal nas escolhas.



quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Cinzelo uma folha com tinta



Cinzelo uma folha com tinta,
transpiro no fumo, alagado,
e um aroma de selva molhada
chega-me já descorado,
com estranhos sons de um deserto.

E não avisto o desviar da tua blusa.

Mas, se a minha miragem te despe,
subtraio destro a pele das palavras,
sem calcular o logaritmo das somas
e nem sequer a prova dos nove ou real
para traçar os teus códigos secretos.

Porque o poema pode ser celebrado
com tudo que é imortal,
que perece,
branco,
preto,
aos quadradinhos redondos,
enfim, com aquilo que aparece...



quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Flor de sal


Num mar de gaivotas e albatrozes,
enlaçados em maresias de sargaços
num batel à bolina de ventos de feição,
mergulhámos,
despidos,
na emoção da transparência de corais.

E quiseste apertar-me no teu peito
ao som de cílios em desejo,
acesos no querer aportar
ao cais dos meus braços, que acreditaram,
sem ondas, na brisa
que daria vida às velas do nosso abraço.

E quando a noite subia
ao monte de Santa Luzia,
houve sempre um farol,
do Bugio ou da Senhora da Agonia,
a alumiar-nos na espuma e nos recifes
das voltas do vira.

Quero-te,
minha flor de sal,
a navegar ao sabor de ventos e marés
com o teu castelo à vista,
zarpando do quebra-mar da Ribeira
comigo a beber o teu canto de sereia.


quinta-feira, 13 de setembro de 2018

São de pedras os caminhos



São de pedras os caminhos
se o vazio da alma nos persegue.

E é nesse pétreo caminhar
que depressa concluímos
que será sempre melhor
ter alguma coisa por companhia,
mesmo que não acreditemos nela.

E, então,
mesmo não sendo a Pedra Filosofal,
poderemos dizer que mais vale
mal acompanhado que só.

Já que uma razão qualquer,
porventura de pedra lascada feita,
fará dos nossos passos um andar
com pedras temperadas de algodão.



quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Vem



Vem,
que ao chegar sinto vontade de partir,
daqui de longe, para o calor da tua pele,
salgada tez que o nosso mar quer florir.

Voa,
como um pássaro migrante disfarçado,
para o cais onde eu me quero atracar,
sem leme, no teu peito amordaçado.

Procura-me,
que as minhas noites morrem baças, sem glória,
embriagadas na agitação de te amar
à bolina de velame sem memória.

Abraça-me,
repousa em mim a canção do teu olhar,
apaga a fome de beber o meu feitiço,
vê a saudade, já morta, a expirar.

Beija-me,
enquanto enfeito com palavras de flores
todas as vozes caladas no teu corpo
e escuto aromas brotar das tuas dores.

Despe-me,
destapa os meus segredos insondáveis
para eu contar as estrelas dos teus olhos
em madrugadas de suspiros infindáveis.

Despe-te,
sente a tua carne rubra, devagar,
saboreia essa vontade de partir
e de chegar sem intenção de regressar.



quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Ainda posso



Ainda criança,
queria sentir
o mesmo que as outras crianças,
que tinham um manancial de sonhos
melhores que os meus.

Ainda inocente,
queria acreditar
nas costureiras
que bordavam as asas dos anjos
na verdade do cosmos.

Ainda puro,
queria beber
os dias sem mágoas,
num faz de conta igual
ao dos filhos sempre felizes.

E ainda hoje queria...
Mas ainda posso,
mesmo velho,
comprometido e encardido.



quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Podemos



Podemos pensar
que caminhamos livres,
distantes de uma chama passageira.
Podemos ver-nos
Ítalo e Odalisca de um bordel,
deitados num saque de conquistas
e abraçados a capitulações ponderadas
de um império florescente.
Podemos até julgar
que tudo é inflamado, aparente,
onde o triunfo é geral
sem nada de surpreendente.
Podemos...
Mas também podemos navegar
nos escolhos da ternura,
de olhares perdidos,
encontrados num fogo reverente.
E podemos ainda
ancorar o vaso e o fluido decifrados,
num mar chão só com corais
de água limpa e transparente.



quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Para não ficar calado



Escrevo
como um pássaro que voa
sem motivo aparente,
livre como o vento
e à custa do vento.

Escrevo
sem precisar de falar a verdade,
sem me servir da mentira,
recorrendo à ficção ou à realidade,
a todas elas
ou ao seu contrário.

Escrevo
palavras que correm
de mãos dadas ou às avessas,
embaladas quase sempre
em doses ponderadas
ou desmedidas,
sem escola nem guião.

Escrevo sempre
sem razão convencido da razão,
muito ou só um bocado.
E quase sempre,
ou mesmo sempre,
para não ficar calado.



quinta-feira, 9 de agosto de 2018

O meu cão


Despiste as vestes do passado
para trajar o futuro da vontade fugaz.
Ficaste assexuada
no vazio de emoções quando a paixão
já não te rasgava as entranhas.

Sangraste, exauriste até à gota derradeira
a tua seiva aturdida
na transfusão ininterrupta de caminhos
cada vez mais destroçados.

Emudeceste, ensurdeceste,
para que os nossos tímpanos
continuassem virgens ao engenho das palavras.

Trocaste a tua pele de tatuagens genuínas
pela aparência maquilhada
de uma boneca de pilhas.

Abandonaste braços, mãos, pernas e olhos
para que eu não algemasse a tua fuga para a cegueira.

Amputaste neurónios, pensamentos e verdades
no desassossego de madrugadas vazias de sentido.

Atiraste para a lixeira
o que restava do teu corpo enlouquecido,
sem perceberes que a sua reciclagem era impossível.

Suicidaste-te para que nada mais te pedisse.
Enterrei-te, bem fundo,
a cadeado no meu paiol da indiferença,
para que o meu cão não te desenterrasse
e morresse envenenado
ao trazer-te de novo para mim.

Enterrei-me
à mesma profundidade que tu, a teu lado,
morri envenenado ao enganar o meu cão
quando voltaste para mim.