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quinta-feira, 9 de agosto de 2018

O meu cão


Despiste as vestes do passado
para trajar o futuro da vontade fugaz.
Ficaste assexuada
no vazio de emoções quando a paixão
já não te rasgava as entranhas.

Sangraste, exauriste até à gota derradeira
a tua seiva aturdida
na transfusão ininterrupta de caminhos
cada vez mais destroçados.

Emudeceste, ensurdeceste,
para que os nossos tímpanos
continuassem virgens ao engenho das palavras.

Trocaste a tua pele de tatuagens genuínas
pela aparência maquilhada
de uma boneca de pilhas.

Abandonaste braços, mãos, pernas e olhos
para que eu não algemasse a tua fuga para a cegueira.

Amputaste neurónios, pensamentos e verdades
no desassossego de madrugadas vazias de sentido.

Atiraste para a lixeira
o que restava do teu corpo enlouquecido,
sem perceberes que a sua reciclagem era impossível.

Suicidaste-te para que nada mais te pedisse.
Enterrei-te, bem fundo,
a cadeado no meu paiol da indiferença,
para que o meu cão não te desenterrasse
e morresse envenenado
ao trazer-te de novo para mim.

Enterrei-me
à mesma profundidade que tu, a teu lado,
morri envenenado ao enganar o meu cão
quando voltaste para mim.




quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Surgiste



Surgiste
de sorriso livre de promessas
com as têmporas fascinadas
na claridade de uma fogueira
virgem no corpo.
Através de um periscópio distraído,
mas emerso,
vi-te a naufragar sem amparo,
exausta, a embalar sonhos sem olhos
num mar perpetuamente bravio.
Lancei-te boia e retenida
e mostraste-me o vento seco e frio
a trincar os teus pés descalços,
verdes pela ausência de beijos
mas delicados pela brancura da espera.
Deste-me o trigo do ser
penteado em madrugadas ao vento,
sonhos de liberdade
na seara por ti engalanada
com espigas de certezas.
Resta sabermos depurar o desejo,
o sumo e o resumo da vida,
ainda que a ampulheta
continue a vazar o tempo na areia.


quinta-feira, 26 de julho de 2018

Foge de mim




Nunca mais quero ver
a tua cegueira
bem maior que a de um cego.
Foge para o além da tua carne marcada
de recortes sedentos,
veste armaduras
para que as minhas mãos tropecem
e não avassalem espaços
destroçando os teus segredos.
Arranja fortalezas só tuas
de azimutes verdadeiros,
onde a fogueira não morda as ameias
da derradeira gota de paradoxos.
Rebenta em flores de pétalas e asas
e voa em archotes de verdade,
porque a tentação
é a árvore mais alta da serra.
Foge de mim
para que não me perca loucamente
na demência da tua carne
e me embriague
no sonho da terra fértil e pronta
do teu poema feito mulher.




quinta-feira, 19 de julho de 2018

Versos na areia




A noite
é uma lua diurna sem chama.
O meu rio
é um mar de estrelas sem praia.
O silêncio
é um remanso sem rua de palavras.
A nova que se renova,
mas não mostra a outra face.
No chão,
vejo-a nua na distância
do seu véu de luz usual.
A noite ofega
e a lua nega-se cheia, sem ânsia.
O mar, com tanto isco,
mareia sem moliços no papel.
As estrelas, já orvalhadas,
dançam na rua feia sem nada.
Corro o risco, mas arrisco,
risco estes versos na areia.



quinta-feira, 12 de julho de 2018

Não quero miradouros




Não quero miradouros
para vertentes de passados
nem quimeras opacas
de horizontes sitiados.
Prefiro mãos-cheias de acenos,
de rumos
com impulsos urgentes.
Não me entregarei em feitiços
adornados com verbos perecidos
ou mascarados de risos contentes.
Quero alento
inundado de futuro,
incerto mas verdadeiro,
ávido de ímpetos de vento,
com fantasias de mar
e asas de liberdade.
Quero respirar o meu sopro
em gritos com fôlego,
pleno da ousadia inaugural
e do recomeço permanente
mas nunca igual.



quinta-feira, 5 de julho de 2018

Somente



Somente o peso do dever
arrisca estrangular
a vaga libertária que há em ti,
indecisa.
É a nudez da leveza que te seduz
na procura de traições
numa rotina de caprichos redutores
vestidos de fogo
em ombros despidos,
na razão esmagada pelo prazer
como alguém sufocado pelo vício.
Esgravatas equilíbrios
que desvendas na deusa
e na prostituta que há dentro de ti,
na existência amealhada
em inventários impossíveis,
na procura de essências que viveste,
sem as viveres,
para saberes viver como sabes.
Ou então, minha amiga,
sabes, sentes e vives,
e eu é que estou estrangulado,
corrompido ou viciado na existência
de prostitutas e deusas.



quinta-feira, 28 de junho de 2018

Em construção




Caminho
afastado de terrenos interditos,
percorro trilhos
arredados de recatos burilados
do meu mutismo.

Mas a cada verbo que empurra
a distância para longe
deixo de ver
o que de mim persiste
aceso ou destruído.

E palmilho o desvendar
e o devorar do engano
que teria amanhecido
em todos os começos,
pensando-me já construído.




quinta-feira, 21 de junho de 2018

Dentro de nós




Dentro de mim,
as tuas mãos açucaradas
trazem rotas nas vielas
onde nos queremos beijar,
enquanto adivinhamos
o chamejar dos festins
aos nossos pés ajoelhados.

Dentro de mim,
as tuas formas plantadas
atam asas nas janelas
onde nos queremos olhar,
enquanto ousamos
o rebentar dos motins
aos nossos ais atiçados.

Dentro de ti,
as minhas dores desmaiadas
trazem gozos nas flanelas
onde nos quisemos amar,
enquanto harmonizamos
o ressoar dos clarins
aos nossos vens acabados.

Dentro de nós, belisco-te
para que de novo me acordes.



quinta-feira, 14 de junho de 2018

Uma planta, frágil que seja




Uma planta, frágil que seja,
move-se,
agita-se,
retorce-se e pode até perder folhas e ramos,
mas aproveita a acção do vento
para afundar as raízes no solo
e ganhar mais equilíbrio,
enfrentando-o sempre mais forte.

Cambaleias e dobras-te
no vendaval dos lençóis escuros da insónia,
com o sabor adormecido na boca em desejo,
e maldizes os cardos que o teu corpo
teima em abrir na solidão do teu peito.
Magoas-te desgrenhada no sonho
à procura do equilíbrio,
mas cresces.

Enquanto isso acontece,
nada mais devo fazer que fabricar prateleiras
para que organizes
a tua lucidez e os teus gestos.




quinta-feira, 7 de junho de 2018

Overdose



Gosto de escrever para me desprender,
fazendo coisa diferente e mais leve
do que faço pelo dever.

Mas hoje as palavras acenam-me
com o peso vital da razão
e estendem-me
[mandantes e revoltadas]
a avenida do triste enfado da pátria,
a passadeira do negrume da crise
e a diária deturpação da notícia.

As palavras incriminam a algazarra
que dissimula o culpado,
mas naufragam [ignoradas]
na vozearia avidamente trincada
até se esmigalharem em escândalos
e em linchamentos na praça pública.

Para gáudio de um povo necrófago,
na curiosidade mórbida
de ver o acidente na estrada,
alimentamos shares e audiências
de tudo o que é tabloide.

Seremos nós [maldito fado]
para sempre viciados
no consumo de uma oferta
em doses cada vez mais virulentas?



quinta-feira, 31 de maio de 2018

És a minha casa





Quando olho a minha casa,
o que eu vejo é diferente
da imagem que outros veem.

Vejo abertamente por dentro
a parte aos outros fechada,
que a de fora
aos meus olhos nada encobre.

Os outros desconhecem a cor
dos tapetes e das flores,
a luz que as paredes espalham
e até por quantas janelas e portas
a casa se refresca.

És a minha casa, meu amor,
não te vejo só por fora.
Quando olho para ti,
vejo-te toda,
és transparente e a tua beleza é real.





quinta-feira, 24 de maio de 2018

Persistiremos




Aliados,
cicatrizamos as desventuras
despidos ao Sol,
mas a mágoa não se abate redonda,
de olhos fechados,
em pecados já mortos
pelo fogo dos nossos milagres.

De mãos dadas,
encolhemos as fronteiras das sombras,
detendo a noite,
e apostamos em cruzadas
de palavras brancas
para enterrar vivos
os nossos fantasmas que rosnam.

Mas continuaremos a voar
transpirados de gritos nas veias
e a respirar suspiros na síntese da voz,
que a garganta adelgaça,
enquanto não tocarmos
em pássaros a rir de tristeza.

E persistiremos
em esvaziar as circunstâncias da carne
que fervilha de seiva
e em encher a alma com uivos de Sol
enquanto não ouvirmos sereias
a chorar de prazer ao luar.