Translater

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Useiro e vezeiro [652]

 


Fiquei inquieto

e o sossego deixou de respirar.

Então, como uma bomba,

o dia, a prometer desapoquentação,

escaqueirou-se.

Vociferei, possesso,

e as minhas mãos, a rezingar,

pediam a cura

oferecida pelo comando

como quem implora água

para apagar um incêndio.

Uma luz estroboscópica,

sem pudor,

penetrava nas crédulas mentes

ao som de granadas de fumo inventadas.

Com o risco de um AVC,

secou-se-me a garganta.

Para me salvar,

abandonei o café,

era o embusteiro do costume

a cuspir, useiro e vezeiro,

o seu desprezível veneno

em cima dos imigrantes e ciganos

pela milésima vez na TV.

 

 

© Jaime Portela, Janeiro de 2026


segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Assessoria política [651]



A confissão

é das carências mais humilhantes,

a alma tem que se virar do avesso

e mostrar-se tão nua

como quando veio ao mundo.

Por isso,

quando te confessares no discurso,

revela o que não sentes,

liberta a tua alma

do fardo dos seus mistérios

que nunca existiram.

Finge a ti mesmo,

não penses em falar da realidade,

porque na revelação há sempre erros.

Então, sê conhecedor e criterioso,

que revelar seja não dizer,

pelo menos, toda a verdade.

 

 

© Jaime Portela, Janeiro de 2026


segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

A inútil vala comum da discórdia [650]

 


Nas curvas e contracurvas dos caminhos

há obstáculos desorientadores,

ultrajantes ou corrosivos,

mas resistir à tentação da raiva

e encontrar como retorquir em voz civilizada

é ir mais alto.

 

Desculpas e ruídos projetam-se em diagramas,

indestrutíveis e persistentes,

provocando empecilhos aflitivos,

mas pouco ou nada sucede

quando se deixa maturar a reação

até que a resposta seja elevada.

 

No repositório classificado de absurdo,

a raiva pode ser um guarda-chuva partido,

a dor um leme enguiçado

e o desencanto, carrancudo e escusado,

ficará na escura e funda agonia do porão.

 

Tem perna curta, por isso,

o ditado que diz que

quem não se sente não é filho de boa gente,

já que as emoções

quase nunca são planos infalíveis.

 

Um vestígio de paciência que seja,

ainda que franzino, será uma firme passada

e o suporte para o sucesso

e, para além disso,

evitamos saltar de cabeça

para a inútil vala comum da discórdia.

 

 

© Jaime Portela, Janeiro de 2026


segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Deles, pouco sabemos [649]

 


Deles, pouco sabemos,

o que vemos são atores

que não dizem o que pensam

e quase nunca pensam o que dizem.

 

Dos que bem conhecemos,

é frequente vermos

cristalinas trapalhadas

e verdadeiras desonestidades.

 

Durante muito tempo,

não sei em que espaço da memória,

vê-los-emos num manhoso esboço

como se fosse colorido

por um mau pintor

que dorme de dia num jazigo gótico

encimado por um anjinho branco em oração.

 

As suas palavras vão sendo esquecidas

até congelarem

e serem substituídas por outras,

de outros atores.

 

E as plateias,

manipuladas,

porque não frequentam o teatro,

engolem as imagens

que o subconsciente desenha

e só muito mais tarde, ou nunca,

percebem o engodo.



© Jaime Portela, Janeiro de 2026