Deles, pouco sabemos,
o que vemos são atores
que não dizem o que pensam
e quase nunca pensam o que dizem.
Dos que bem conhecemos,
é frequente vermos
cristalinas trapalhadas
e verdadeiras desonestidades.
Durante muito tempo,
não sei em que espaço da memória,
vê-los-emos num manhoso esboço
como se fosse colorido
por um mau pintor
que dorme de dia num jazigo gótico
encimado por um anjinho branco em oração.
As suas palavras vão sendo esquecidas
até congelarem
e serem substituídas por outras,
de outros atores.
E as plateias,
manipuladas,
porque não frequentam o teatro,
engolem as imagens
que o subconsciente desenha
e só muito mais tarde, ou nunca,
percebem o engodo.
© Jaime Portela, Janeiro de 2026