Tenho pensado nas sensações
que constroem a matéria intrínseca
do meu conhecimento de mim.
Por vezes traço-as em palavras madraças
que me desamparam depois de escritas
e deambulam ausentes de mim
por serranias e rios de reflexões,
por avenidas de imagens, por quelhas de babéis.
Reconheço a inutilidade desta liturgia,
mas aquieto-me ao escrever,
como quem toma um comprimido para as dores,
que logo voltam.
Esses trechos,
que abusivamente chamam de poesia,
são apenas gatafunhos da perceção
que tenho do mundo e das coisas.
Esboço-os numa quase letargia de me ver
como um reformado num banco do jardim
a consumir réstias do sol de inverno e,
se os revejo,
é como se relembrasse o deslembrado
com um ténue espanto serôdio.
Quando escrevo,
inspeciono-me cerimonioso
em recantos da representação
de consultórios decorados por terceiros,
onde me abandono radiografando o que não vejo
e analisando em contraluz os negativos
que vão engordando o cesto dos papéis.
Nesta refrega,
esbanjo palácios mal decorados,
carpetes floridas em exagero, fortalezas
decadentes
mas, por vezes,
se a luz me esclarece certos contornos,
salvo do naufrágio do lixo alguns alicerces
e flores mais flamejantes.
Não sou um mistério, porque não tenho segredos,
nem a exceção, nem a regra,
sou irrepetível,
as palavras rolam saídas de um novelo
e eu limito-me a apanhá-las
e a bordar as frases com as agulhas do
pensamento.
© Jaime Portela, Fevereiro de 2026
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