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segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Nada de novo para festejar o Ano Novo [648]

 


Uns morrem outros nascem,

sabemos que sonhamos e sonhamos que sabemos,

nada de novo se pode dizer em rimas

para festejar o Ano Novo.

 

Acordamos com a luz

e adormecemos abraçados à noite e ao mundo

que chora com a dor que não desarma.

 

Existimos e velamos os mortos,

queremos e cremos, namoramos e casamos,

cantamos os filhos que continuam a vida,

as grinaldas são das noivas

e os véus negros das viúvas.

 

Esqueçamos os erros de ontem

e digamos palavras amáveis

para sarar as feridas de agora

e que o passado

não seja mais que uma página em branco.

 

Perdoemos como gostamos de ser perdoados,

o tempo é traiçoeiro, rápido e ardiloso,

é um ladrão de calendários.

 

Brincamos, choramos, aguardamos, receamos,

há um fardo incontornável

que sempre desejamos seja leve

em cada novo ano que reiteradamente começa.

 

 

© Jaime Portela, Dezembro de 2025


segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

A Urgência do Natal [647]

 


Os sinos não dobram

porque um velho ano morreu,

mas sim para lembrar

que o Menino Jesus nasceu

há mais de dois mil anos.

 

Que os sinos também toquem

para anunciar a paz e a verdade

e expulsar a mentira,

para celebrar a justiça e o amor

para acabar com as guerras,

a fome e a pobreza.

 

Não sei se Jesus fez o que falam

e nem sei se é filho de Deus,

mas sei que nunca mentiu

nas palavras que muitos calam.

 

O Menino Jesus está fora de moda,

foi pelo Pai Natal destronado,

que nunca disse nada de bom ou de mau

porque nunca existiu.

 

Que os sinos toquem mais alto,

com amor e clamor,

para que todos,

todos, mas mesmo todos percebam

a urgência do Natal.

 

 

© Jaime Portela, Dezembro de 2025


segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

A Mentira Populista [646]

 


A verdade é uma nebulosa acidentada

de contornos raramente definidos.

 

Se fixarmos o olhar, repetidamente,

por vontade própria ou de terceiros,

a perceção passa a certeza,

como a exatidão ficcionada

de um romance policial.

 

Os males da imigração,

tantas vezes repetidos,

tornam verdade

a mentira da criminalidade,

dos subsídios

e do absurdo de múltiplas regalias.

E são intencionalmente omitidos

os benefícios reais para a economia

causados pela “maldita” imigração.

 

Com a mentira populista

o mundo transforma-se em vidro,

não à prova de bala, mas quebradiço.

 

Não cegamos quando nos tapam os olhos,

mas estorvam-nos a visão do que é claro.

 

 

© Jaime Portela, Dezembro de 2025


segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Os Malefícios da Razão [645]

 


Para ver o agitar das águas

é preciso diminuir a marcha ou mesmo parar.

Pelo contrário,

a luz apenas se extingue se não a procurarmos.

Se fecharmos os olhos com a lentidão do sono,

apenas fica dentro de nós um vazio

cheio da noite que desincorpora o pensamento.

 

Um dos malefícios da razão

é contemplar quando se pensa.

Os que raciocinam com o pensamento ficam absortos,

com o coração ficam dormentes

e com o arbítrio ficam confusos.

 

Há quem raciocine

com os instintos criativos da imaginação,

mas tudo o que deveria ser amor, tristeza ou ternura,

é limitado ao desprezo afastado da realidade,

como se o criador habitasse um deserto lunar

com um ocaso em câmara lenta.

 

Vou lavar o cérebro, a alma

e o que de lixo mais houver nos vales da razão.

As andorinhas, quando partem,

também deixam o chão racionalmente conspurcado.

 

 

© Jaime Portela, Dezembro de 2025


segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

O Moscardo [644]

 


Liguei o computador

e o que vi não foram imagens nem palavras,

foi um moscardo a esfregar as mãos de contente.

Mirei-o de alto abaixo com profunda repugnância,

de pêlos ao alto

de tão desperta repulsa eriçados.

O enorme moscardo era luzidio, anafado,

de um preto esverdeado com reflexos azulados.

Pensei em matá-lo.

Mas, quem sabe para que poderes supremos,

não serei eu um pequeno inseto

que incomoda e repugna…

E foi combalido,

com um pavor mais negro que a cor do moscardo,

que pensei nesta analogia ridícula.

Mas a verdade é que me senti moscardo

quando a ele me assemelhei.

Nessa noite

sonhei que era um luzidio moscardo

a esfregar as mãos de contente

enquanto me banqueteava com migalhas

que às centenas havia na mesa.

Subitamente,

caiu sobre mim um mata-moscas supremo

que me pisava e repisava.

Acordei com suores frios

e passei a ser amigo do irmão moscardo,

das formigas que me entram na cozinha,

dos macacos nossos primos,

dos pardais que cagam nos parapeitos das janelas,

das trepadeiras que não me largam o muro

por mais que as esquarteje,

enfim, sou amigo de tudo o que é vida na Terra,

que não é só nossa,

porque tivemos uma origem comum

e porque  todos precisam de todos para viver.

 

 

© Jaime Portela, Dezembro de 2025


segunda-feira, 24 de novembro de 2025

O mundo dói-me [643]

 


O mundo dói-me, moral e até fisicamente,

por um reflexo instintivo da alma na mente.

Ou da mente na alma.

Induz-me num desassossego de todas as coisas que,

nada omitindo,

não suprime as nuvens mais distantes.

Porém, ainda que não me arrisque

no precipício de pensar

que uma realidade possa ser outra

apenas porque se acham de mãos dadas,

como a pobreza e a fome,

ou que a processão que o espírito tem do cérebro

seja mais que uma subordinação,

acredito que existe entre a alma e a mente

um vínculo sujeito a refregas.

Assim, será por causa das diferenças de vínculos

que há altercações,

sendo que o mais usual

é a pessoa mais reles aborrecer a que o é menos.

E é por isso que o mundo nos dói,

somos todos iguais, mas as diferenças são abissais.

 

 

© Jaime Portela, Novembro de 2025


segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Governar é preciso [642]

 


É frequente ver-me surpreendido

no epicentro do assombro

perante a justiça

quando tem dois pesos e duas medidas,

perante a ordem

quando é dito que há desordem e vice-versa,

perante a varonia mental

quando é manifesto o declínio,

perante a astenia da mente

em períodos em que a força é necessária.

Mais assombroso ainda

é ver tantos honrosos sonhos

desperdiçados no lixo,

tantos anseios

afogados no mar da mediocridade

a salgar a memória das sereias.

Oh Pátria minha, abandonaram-te

e usam o barco para navegar à vista

sem saberem qual o porto de chegada.

Governar é preciso,

mas sem leme e ambição é um desgoverno.

 

 

© Jaime Portela, Novembro de 2025