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segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Assessoria política [651]



A confissão

é das carências mais humilhantes,

a alma tem que se virar do avesso

e mostrar-se tão nua

como quando veio ao mundo.

Por isso,

quando te confessares no discurso,

revela o que não sentes,

liberta a tua alma

do fardo dos seus mistérios

que nunca existiram.

Finge a ti mesmo,

não penses em falar da realidade,

porque na revelação há sempre erros.

Então, sê conhecedor e criterioso,

que revelar seja não dizer,

pelo menos, toda a verdade.

 

 

© Jaime Portela, Janeiro de 2026


segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

A inútil vala comum da discórdia [650]

 


Nas curvas e contracurvas dos caminhos

há obstáculos desorientadores,

ultrajantes ou corrosivos,

mas resistir à tentação da raiva

e encontrar como retorquir em voz civilizada

é ir mais alto.

 

Desculpas e ruídos projetam-se em diagramas,

indestrutíveis e persistentes,

provocando empecilhos aflitivos,

mas pouco ou nada sucede

quando se deixa maturar a reação

até que a resposta seja elevada.

 

No repositório classificado de absurdo,

a raiva pode ser um guarda-chuva partido,

a dor um leme enguiçado

e o desencanto, carrancudo e escusado,

ficará na escura e funda agonia do porão.

 

Tem perna curta, por isso,

o ditado que diz que

quem não se sente não é filho de boa gente,

já que as emoções

quase nunca são planos infalíveis.

 

Um vestígio de paciência que seja,

ainda que franzino, será uma firme passada

e o suporte para o sucesso

e, para além disso,

evitamos saltar de cabeça

para a inútil vala comum da discórdia.

 

 

© Jaime Portela, Janeiro de 2026


segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Deles, pouco sabemos [649]

 


Deles, pouco sabemos,

o que vemos são atores

que não dizem o que pensam

e quase nunca pensam o que dizem.

 

Dos que bem conhecemos,

é frequente vermos

cristalinas trapalhadas

e verdadeiras desonestidades.

 

Durante muito tempo,

não sei em que espaço da memória,

vê-los-emos num manhoso esboço

como se fosse colorido

por um mau pintor

que dorme de dia num jazigo gótico

encimado por um anjinho branco em oração.

 

As suas palavras vão sendo esquecidas

até congelarem

e serem substituídas por outras,

de outros atores.

 

E as plateias,

manipuladas,

porque não frequentam o teatro,

engolem as imagens

que o subconsciente desenha

e só muito mais tarde, ou nunca,

percebem o engodo.



© Jaime Portela, Janeiro de 2026


segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Nada de novo para festejar o Ano Novo [648]

 


Uns morrem outros nascem,

sabemos que sonhamos e sonhamos que sabemos,

nada de novo se pode dizer em rimas

para festejar o Ano Novo.

 

Acordamos com a luz

e adormecemos abraçados à noite e ao mundo

que chora com a dor que não desarma.

 

Existimos e velamos os mortos,

queremos e cremos, namoramos e casamos,

cantamos os filhos que continuam a vida,

as grinaldas são das noivas

e os véus negros das viúvas.

 

Esqueçamos os erros de ontem

e digamos palavras amáveis

para sarar as feridas de agora

e que o passado

não seja mais que uma página em branco.

 

Perdoemos como gostamos de ser perdoados,

o tempo é traiçoeiro, rápido e ardiloso,

é um ladrão de calendários.

 

Brincamos, choramos, aguardamos, receamos,

há um fardo incontornável

que sempre desejamos seja leve

em cada novo ano que reiteradamente começa.

 

 

© Jaime Portela, Dezembro de 2025


segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

A Urgência do Natal [647]

 


Os sinos não dobram

porque um velho ano morreu,

mas sim para lembrar

que o Menino Jesus nasceu

há mais de dois mil anos.

 

Que os sinos também toquem

para anunciar a paz e a verdade

e expulsar a mentira,

para celebrar a justiça e o amor

para acabar com as guerras,

a fome e a pobreza.

 

Não sei se Jesus fez o que falam

e nem sei se é filho de Deus,

mas sei que nunca mentiu

nas palavras que muitos calam.

 

O Menino Jesus está fora de moda,

foi pelo Pai Natal destronado,

que nunca disse nada de bom ou de mau

porque nunca existiu.

 

Que os sinos toquem mais alto,

com amor e clamor,

para que todos,

todos, mas mesmo todos percebam

a urgência do Natal.

 

 

© Jaime Portela, Dezembro de 2025


segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

A Mentira Populista [646]

 


A verdade é uma nebulosa acidentada

de contornos raramente definidos.

 

Se fixarmos o olhar, repetidamente,

por vontade própria ou de terceiros,

a perceção passa a certeza,

como a exatidão ficcionada

de um romance policial.

 

Os males da imigração,

tantas vezes repetidos,

tornam verdade

a mentira da criminalidade,

dos subsídios

e do absurdo de múltiplas regalias.

E são intencionalmente omitidos

os benefícios reais para a economia

causados pela “maldita” imigração.

 

Com a mentira populista

o mundo transforma-se em vidro,

não à prova de bala, mas quebradiço.

 

Não cegamos quando nos tapam os olhos,

mas estorvam-nos a visão do que é claro.

 

 

© Jaime Portela, Dezembro de 2025


segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Os Malefícios da Razão [645]

 


Para ver o agitar das águas

é preciso diminuir a marcha ou mesmo parar.

Pelo contrário,

a luz apenas se extingue se não a procurarmos.

Se fecharmos os olhos com a lentidão do sono,

apenas fica dentro de nós um vazio

cheio da noite que desincorpora o pensamento.

 

Um dos malefícios da razão

é contemplar quando se pensa.

Os que raciocinam com o pensamento ficam absortos,

com o coração ficam dormentes

e com o arbítrio ficam confusos.

 

Há quem raciocine

com os instintos criativos da imaginação,

mas tudo o que deveria ser amor, tristeza ou ternura,

é limitado ao desprezo afastado da realidade,

como se o criador habitasse um deserto lunar

com um ocaso em câmara lenta.

 

Vou lavar o cérebro, a alma

e o que de lixo mais houver nos vales da razão.

As andorinhas, quando partem,

também deixam o chão racionalmente conspurcado.

 

 

© Jaime Portela, Dezembro de 2025