Translater

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Bordar com as agulhas do pensamento [653]

 


Tenho pensado nas sensações

que constroem a matéria intrínseca

do meu conhecimento de mim.

Por vezes traço-as em palavras madraças

que me desamparam depois de escritas

e deambulam ausentes de mim

por serranias e rios de reflexões,

por avenidas de imagens, por quelhas de babéis.

 

Reconheço a inutilidade desta liturgia,

mas aquieto-me ao escrever,

como quem toma um comprimido para as dores,

que logo voltam.

Esses trechos,

que abusivamente chamam de poesia,

são apenas gatafunhos da perceção

que tenho do mundo e das coisas.

Esboço-os numa quase letargia de me ver

como um reformado num banco do jardim

a consumir réstias do sol de inverno e,

se os revejo,

é como se relembrasse o deslembrado

com um ténue espanto serôdio.

 

Quando escrevo,

inspeciono-me cerimonioso

em recantos da representação

de consultórios decorados por terceiros,

onde me abandono radiografando o que não vejo

e analisando em contraluz os negativos

que vão engordando o cesto dos papéis.

Nesta refrega,

esbanjo palácios mal decorados,

carpetes floridas em exagero, fortalezas decadentes

mas, por vezes,

se a luz me esclarece certos contornos,

salvo do naufrágio do lixo alguns alicerces

e flores mais flamejantes.

 

Não sou um mistério, porque não tenho segredos,

nem a exceção, nem a regra,

sou irrepetível,

as palavras rolam saídas de um novelo

e eu limito-me a apanhá-las

e a bordar as frases com as agulhas do pensamento.

 

 

© Jaime Portela, Fevereiro de 2026


segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Useiro e vezeiro [652]

 


Fiquei inquieto

e o sossego deixou de respirar.

Então, como uma bomba,

o dia, a prometer desapoquentação,

escaqueirou-se.

Vociferei, possesso,

e as minhas mãos, a rezingar,

pediam a cura

oferecida pelo comando

como quem implora água

para apagar um incêndio.

Uma luz estroboscópica,

sem pudor,

penetrava nas crédulas mentes

ao som de granadas de fumo inventadas.

Com o risco de um AVC,

secou-se-me a garganta.

Para me salvar,

abandonei o café,

era o embusteiro do costume

a cuspir, useiro e vezeiro,

o seu desprezível veneno

em cima dos imigrantes e ciganos

pela milésima vez na TV.

 

 

© Jaime Portela, Janeiro de 2026


segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Assessoria política [651]



A confissão

é das carências mais humilhantes,

a alma tem que se virar do avesso

e mostrar-se tão nua

como quando veio ao mundo.

Por isso,

quando te confessares no discurso,

revela o que não sentes,

liberta a tua alma

do fardo dos seus mistérios

que nunca existiram.

Finge a ti mesmo,

não penses em falar da realidade,

porque na revelação há sempre erros.

Então, sê conhecedor e criterioso,

que revelar seja não dizer,

pelo menos, toda a verdade.

 

 

© Jaime Portela, Janeiro de 2026


segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

A inútil vala comum da discórdia [650]

 


Nas curvas e contracurvas dos caminhos

há obstáculos desorientadores,

ultrajantes ou corrosivos,

mas resistir à tentação da raiva

e encontrar como retorquir em voz civilizada

é ir mais alto.

 

Desculpas e ruídos projetam-se em diagramas,

indestrutíveis e persistentes,

provocando empecilhos aflitivos,

mas pouco ou nada sucede

quando se deixa maturar a reação

até que a resposta seja elevada.

 

No repositório classificado de absurdo,

a raiva pode ser um guarda-chuva partido,

a dor um leme enguiçado

e o desencanto, carrancudo e escusado,

ficará na escura e funda agonia do porão.

 

Tem perna curta, por isso,

o ditado que diz que

quem não se sente não é filho de boa gente,

já que as emoções

quase nunca são planos infalíveis.

 

Um vestígio de paciência que seja,

ainda que franzino, será uma firme passada

e o suporte para o sucesso

e, para além disso,

evitamos saltar de cabeça

para a inútil vala comum da discórdia.

 

 

© Jaime Portela, Janeiro de 2026


segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Deles, pouco sabemos [649]

 


Deles, pouco sabemos,

o que vemos são atores

que não dizem o que pensam

e quase nunca pensam o que dizem.

 

Dos que bem conhecemos,

é frequente vermos

cristalinas trapalhadas

e verdadeiras desonestidades.

 

Durante muito tempo,

não sei em que espaço da memória,

vê-los-emos num manhoso esboço

como se fosse colorido

por um mau pintor

que dorme de dia num jazigo gótico

encimado por um anjinho branco em oração.

 

As suas palavras vão sendo esquecidas

até congelarem

e serem substituídas por outras,

de outros atores.

 

E as plateias,

manipuladas,

porque não frequentam o teatro,

engolem as imagens

que o subconsciente desenha

e só muito mais tarde, ou nunca,

percebem o engodo.



© Jaime Portela, Janeiro de 2026


segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Nada de novo para festejar o Ano Novo [648]

 


Uns morrem outros nascem,

sabemos que sonhamos e sonhamos que sabemos,

nada de novo se pode dizer em rimas

para festejar o Ano Novo.

 

Acordamos com a luz

e adormecemos abraçados à noite e ao mundo

que chora com a dor que não desarma.

 

Existimos e velamos os mortos,

queremos e cremos, namoramos e casamos,

cantamos os filhos que continuam a vida,

as grinaldas são das noivas

e os véus negros das viúvas.

 

Esqueçamos os erros de ontem

e digamos palavras amáveis

para sarar as feridas de agora

e que o passado

não seja mais que uma página em branco.

 

Perdoemos como gostamos de ser perdoados,

o tempo é traiçoeiro, rápido e ardiloso,

é um ladrão de calendários.

 

Brincamos, choramos, aguardamos, receamos,

há um fardo incontornável

que sempre desejamos seja leve

em cada novo ano que reiteradamente começa.

 

 

© Jaime Portela, Dezembro de 2025