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segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

O Moscardo [644]

 


Liguei o computador

e o que vi não foram imagens nem palavras,

foi um moscardo a esfregar as mãos de contente.

Mirei-o de alto abaixo com profunda repugnância,

de pêlos ao alto

de tão desperta repulsa eriçados.

O enorme moscardo era luzidio, anafado,

de um preto esverdeado com reflexos azulados.

Pensei em matá-lo.

Mas, quem sabe para que poderes supremos,

não serei eu um pequeno inseto

que incomoda e repugna…

E foi combalido,

com um pavor mais negro que a cor do moscardo,

que pensei nesta analogia ridícula.

Mas a verdade é que me senti moscardo

quando a ele me assemelhei.

Nessa noite

sonhei que era um luzidio moscardo

a esfregar as mãos de contente

enquanto me banqueteava com migalhas

que às centenas havia na mesa.

Subitamente,

caiu sobre mim um mata-moscas supremo

que me pisava e repisava.

Acordei com suores frios

e passei a ser amigo do irmão moscardo,

das formigas que me entram na cozinha,

dos macacos nossos primos,

dos pardais que cagam nos parapeitos das janelas,

das trepadeiras que não me largam o muro

por mais que as esquarteje,

enfim, sou amigo de tudo o que é vida na Terra,

que não é só nossa,

porque tivemos uma origem comum

e porque  todos precisam de todos para viver.

 

 

© Jaime Portela, Dezembro de 2025


48 comentários:

Luiz Gomes disse...

Boa segunda-feira e um excelente mês de dezembro meu querido amigo Jaime. Parabéns pelo seu texto incrível.

Sintra blogue disse...

Muito bonito. Obrigado!

São disse...

Adorei o poema, mas, infelizmente, ainda não me sinto irmã de todos os seres vivos. Ede algumas criaturas com aspecto humano, menos ainda!

Te abraço com voto de alegre feriado e estupendo Dezembro, meu amigo.

silvia de angelis disse...

Un viaggio visionario tra disgusto e riconoscimento di sé, dove la mosca diventa specchio inquietante e simbolico dell’origine comune che unisce ogni creatura.
Buon mese di dicembre

chica disse...

Adorei e depois do susto de uma sonho mau, melhor ser amigo de tudo dessa Terra mesmo!
abraços, feliz dezembro,chica

Graça Pires disse...

Quase uma equivalência a Kafka na sua Metamorfose. Pelo menos, ao lê-lo foi o que me lembrei. E gostei do poema cheio de originalidade e muito inspirado, meu Amigo Jaime.
Uma boa semana.
Um beijo.

" R y k @ r d o " disse...

O que existe mais na terra são "moscardos", embora alguns finjam que são libelinhas.
Poema intenso, profundo, supremo, na arte de bem escrever.
.
Uma semana feliz
.
Poema: “ Abri e fechei a janela “ .
.

Bandys disse...

Olá querido amigo Jaime,
Um poema bem criativo e inspirador. Devemos tentar ser irmãos de todos os seres vivos da terra, mas confesso é bem difícil.
Grata sempre pelas suas palavras tão sinceras no meu blog.
beijos

Mário Margaride disse...

Gostei deste belo poema que aqui nos traz. É verdade que todos os "moscardos" têm direito a viver e serem felizes. No entanto, há alguns que precisam é que os esmaguem sem piedade.
Excelente poema. Gostei bastante.

Abraço e boa semana!

Mário Margaride

http://poesiaaquiesta.blogspot.com

Eros de Passagem disse...

Sutil, meu caro Jaime. A terra precisa de cuidados, sabemo-lo.
É aí que entra o exercício criador do poeta, de teor original.
Um boa semana, caro poeta!
Um abraço,

AMALIA disse...

Me ha gustado mucho este poema. Sin duda, es excelente.
Feliz mes de Diciembre.
Un abrazo.

olga.t disse...

Bella settimana!Olga

brancas nuvens negras disse...

A questão está bem posta... e impressiona.
Boa semana.
Um abraço.

Emília Simões disse...

Boa tarde Jaime,
Um poema magnífico, que muito apreciei.
Por vezes temos de nos colocar no lugar do outro, para tentar entender das suas razões!
O moscardo, como ser vivo, que nos mete repugnância, é um ser vivo e não gostaríamos de levar com o mata mocas em cima;))!!
No entanto há por aí outros moscardos que dizimam tudo e todos, mas temos de esperar que pensem por si!
Beijinhos e boa semana e feliz Dezembro.
Emília

Lucia disse...

Olá caro Jaime.
Gostei!
Seu poema usa a figura do moscardo como espelho inesperado da condição humana, conduzindo-nos de um simples gesto de repulsa a uma reflexão profunda sobre humildade e pertencimento. O sonho funciona como ponto de viragem, despertando empatia por todas as criaturas, mesmo as que nos incomodam. No fim, sobra a ideia de que só quando reconhecemos nossa origem comum com o restante da vida é que percebemos o quanto dependemos uns dos outros para existir.
Excelente semana pra você poeta.
Beijo!

Marta Vinhais disse...

O Mundo e os seus contrastes....Há alturas em que temos que "esmagar" esses seres...
Beijos e abraços
Marta

Roselia Bezerra disse...

Olá, amigo Jaime!
Oxalá todos nos sentíssemos numa Teia Ambiental!
Pena que muitos só lamentamos estar acontecendo tudo de drástico atualmente.
Tenha um dezembro abençoado!
Abraços fraternos

Lucimar da Silva Moreira disse...

Jaime é melhor ser amigo de todos, pois vivemos no mesmo mundo, um agradável poema Jaime, feliz mês de Dezembro abraços.

Cidália Ferreira disse...

Muito bem! Adorei o poema :))
.
Uma óptima semana
Beijos

Adriana Helena disse...

Mais um espetacular poema que retrata a vida e a repugnância que muitos " moscardos" reais nos causam...Uma grande reflexão, sem sombra de dúvida, com ares sombrios, pois a vida nos leva de encontro a situações que preferíamos que fossem sonhos e não a dura realidade...
Grata poeta, aproveito para desejar uma excelente semana!!

Anna Lucia P Gadelha disse...

Este é um texto poético e profundo que transforma um momento de repulsa cotidiana (a visão do moscardo no computador) numa meditação sobre a nossa posição no universo e a interconexão de toda a vida.Este texto é um belo exemplo de como o pequeno e o insignificante (um moscardo) podem levar à grandeza da contemplação filosófica sobre a nossa humildade, interdependência e o vasto ciclo da vida.

É uma leitura muito tocante! Abraços

J.P. Alexander disse...

Profundo poema. Uno debe respetar toda vida. Te mando un beso.

ematejoca disse...

Que belíssimo poema👍
Ele celebra a interconexão de toda a vida na Terra, desde o irmão moscardo e as formigas até aos macacos, pardais e trepadeiras. Transmite a ideia de amizade e de pertencimento a uma teia comum de existência, reconhecendo uma origem partilhada e a interdependência entre todas as espécies. É uma reflexão poética sobre a humildade humana diante da diversidade e da vida que nos cerca.
É exactamente a minha maneira de pensar.

Pedro Coimbra disse...

Exactamente, São - há para aí criaturas que devem ter uma ascendência insondável.
Aquilo não é normal.
Abraços, boa semana

TORO SALVAJE disse...

Yo con los insectos no me llevo nada bien.

Saludos.

Isa Sá disse...

Parabéns pela sua escrita! Um ótimo dia.
Isabel Sá
Brilhos da Moda

Juvenal Nunes disse...

A cada um o seu espaço: bom princípio.
Abraço de amizade.
Juvenal Nunes

Maria Rodrigues disse...

Um poema brilhante.
Há moscardo de duas pernas que não deveriam existir.
Relativamente à natureza tem toda a razão, todos precisamos de todos para viver.
Beijos e um excelente mês de Dezembro

Olinda Melo disse...

Ola, Caro Jaime
Pertencemos todos ao reino animal, uns considerados
com alma que os eleva e outros que continuam a
rastejar por via da sua condição. O seu conho, como
metáfora mostra-nos que temos direito à vida e que
por mais que tentemos ser superiores o nosso destino
não passará do mesmo.
Boa semana, amigo.
Abraço
Olinda

Meulen disse...

De todos los insectos, las mosacas son las peores...aunque se sabe también cumplen una misión en el círculo de la vida
nada se le escapó al Hacedor...
y la Tierra sigue rodando.

Buena semana por allí.

Cláudia disse...

Há bichos que na na na... :P

Gostei.

Eduardo Medeiros disse...

O poema é brilhante, mas eu tenho problemas com alguns insetos. Umas baratinhas pequenas que gostam de morar nos armários de cozinha me são, especialmente, irritantes e as elimino sem nenhuma dor na consciência - apesar de entender que na organização maior da natureza, elas terem alguma função.

Teresa Isabel SIlva disse...

Muito bonito! Gostei de ler!
Aproveito para desejar uma boa semana!

Bjxxx,
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Silent Movie - ©Theda Bara disse...

We live in the rhythm of life between scares and joys. We need to force ourselves to believe that the best days are due to the best people.
(ꈍᴗꈍ) Poetic and cinematographic greetings.
💋Kisses💋

Pedro Luso de Carvalho disse...

Olá, meu caro poeta Jaime, sem duvida esse magnífico
poema é para ser lido mais vezes, tal a grandeza de sua obra.
Desejo uma excelente semana no seu belo Portugal, com muita
paz e alegria.
Grande abraço!

Olinda Melo disse...

..o seu sonho...
abraço

lis disse...

Não gostei nada desse 'moscardo ',Jaime
Tenho um certo tremor de insetos e desse nomes estranhos ... rs
fiquei a imaginá-lo _ fechei logo o computador ,não sem antes
te mandar abraços ,longe dos moscardos.
Beijinhos também.

© Piedade Araújo Sol (Pity) disse...

Boa tarde JP
Um poema que toma uma situação quotidiana e a transforma numa reflexão bem-humorada sobre a fragilidade humana e o lugar que ocupamos entre todas as formas de vida.
A analogia com o moscardo, inesperada e quase caricata, conduz-nos a um despertar ético: a consciência de que partilhamos uma mesma origem e um destino interdependente. Uma leitura leve na superfície, mas com um eco profundo sobre respeito e coexistência.
Uma mensagem poderosa.
Boa semana com saúde e Poesia.
:)

Isa Sá disse...

A passar por cá para desejar bom fim-de-semana!
Isabel Sá
Brilhos da Moda

Mário Margaride disse...

Olá, amigo Jaime.
Passando por aqui, para desejar um feliz fim de semana com tudo de bom.

Abraço de amizade.

Mário Margaride

http://poesiaaquiesta.blogspot.com
https://soltaastuaspalavras.blogspot.com

🌺JoAnna🌺 disse...

Um poema maravilhoso e emocionante! A verdade é que todos estamos aqui por uma razão, somos necessários... Embora não compreenda a existência de carraças e traças. :) ;)
Bom fim de semana, meu amigo Jaime, cumprimentos.

SOL da Esteva disse...

Bom humor, precisa-se! Os sonhos maus que nos parecem atormentar, não serão tão maus assim. Despertar para a realidade é meta que nos propomos para amenizar os grandes disparates que nos são presentes dia a dia.
Excelente Poema de GRANDE intervenção.
Parabéns, Amigo Jaime Portela.


Abraço,
SOL da Esteva

stella disse...

Cierto que todos semos necesarios, pero a mi algunos insectos me ponen enferma, aunque he de confesar que en muchas ocasiones he pensado...si viniese un gigante y me aplastara? aún así siguen sin gustarme algunos de ellos, aunque entiendo la grandeza del poema
Un abrazo Jaime

rosa-branca disse...

Todos precisam de todos para viver. Isto dito por ti só pode ser uma sátira. Por outro lado percebi a mensagem.
Prefiro os teus poemas de amor, esses pelo menos só têm mel. Jaime bom fim de semana e beijos com carinho

Olavo Marques disse...

Olá talentoso Jaime! Adorei o poema! Tem humor, ironia e uma mensagem final muito bonita sobre coexistência e respeito. Os seus poemas são sempre de espantar! Abraços 🤗

Ana Tapadas disse...

Cheio de humanidade e à tua altura de alma sensível! Gostei deste poema fora do comum.
Um beijo, meu amigo

Momentos disse...

Jaime, hermoso poema, hay que respetar toda vida sobre la tierra, pero las moscas, las cucarachas, los mosquitos y otros insectos los respeto bien lejos de mi.
Un poema que habla de armonía en la convivencia entre todos los seres.
Maravilloso Poeta
Que pases un hermoso y feliz inicio de semana.
Besos Jaime

Marli Franco disse...

"Boa tarde, Poeta.
Um poema muito interessante, que nos leva a compreender que somos todos parte do planeta e que ampliamos nossas experiências para viver em harmonia, respeitando a individualidade de cada ser.
Apreciei muito seu poema!
Boas Festas, com saúde e muitas poesias.
Beijo de violetas."