Translater

segunda-feira, 30 de março de 2026

Desperta [661]

 


Desperta,

ouve como a floresta canta:

os ventos são sussurros de uma orquestra

onde os riachos são violinos

num concerto de perfumes,

do pinho à madressilva.

 

Desperta,

podes ser um pássaro ou uma estrela

a sobrevoar o arvoredo

e esquecer a corrupção obscena da bolsa

ou a morte que espalham divertidos

os três mosqueteiros assassinos,

Putin, Trump e Netanyahu,

semeada sem dó na Ucrânia, no Irão,

na Faixa de Gaza e no Líbano.

 

Desperta,

sei que não ouves a floresta

não és um pássaro

e nem as tréguas da Páscoa te salvam,

mas compra uma máscara

porque os fumos tóxicos da guerra

vão chegar à tua garganta

antes que dês um tiro nos bandidos.

 

© Jaime Portela, Março de 2026


segunda-feira, 23 de março de 2026

A lei do mais forte [660]

 


Mergulhados no arbítrio

e num alento indefeso,

as fraturas

de um globo insanável

são loucamente geridas

por interesses obscuros

nem sempre declarados.

 

Não há linhas vermelhas

nem mistérios,

não há benevolências

nem desculpas,

há a lei do mais forte

para confiscar

os bens dos mais fracos.

 

© Jaime Portela, Março de 2026


segunda-feira, 16 de março de 2026

O horóscopo [659]



De fogosa e surreal,

tal como a carta astrológica antecipava

(censurado para menores de 18)

a ocasião foi sagrada.

O corpo claro do sonho,

imerso em primaveras inimagináveis,

fazia acabar a ideia agreste

do desperdício da vida.

 

Tudo renascia, apesar do engano,

como se antes houvesse

algo mais pesado que algodão.

Adivinhar o porvir é uma perda de tempo,

há sempre um nevoeiro

que se infiltra no cérebro

e o futuro sabe a passado, até a bolor.

 

Logo, no desencanto de afinidades,

os rios passaram a chorar por osmose,

num orvalho sem cloreto de sódio

ao som de uma melodia indistinta

de flores à procura do sol.

 

As nossas sortes,

polichinelos que a cáfila cuspiu,

são tiros remotos no escuro,

penumbras fugazes,

sonhos inacabados

sem que haja um deus que os salve.

 

Mas houve um lado saudável:

os silêncios consagraram de real

o navio que zarpou do cais

e não mais foi avistado um regresso.

E o vapor do ser, ilacrimável,

desenroupou os limites do nada,

sobrevivendo apenas a tristeza

das águas dormentes da ausência.

 

Milagre, só se voltares,

mas os ventos dizem

que nunca mais chegará qualquer nau

e os pombos do teu correio

ficaram sem GPS nas asas.

Pensa em mim e Deus talvez acorde

por ser em mim que tu pensas.

Talvez eu descanse, talvez eu esqueça.

Entretanto, vou queimar o horóscopo.

 

© Jaime Portela, Março de 2026

segunda-feira, 9 de março de 2026

Da inteligência artificial [658]

 


Nesta era da inteligência

sem massa encefálica,

porque artificial,

só o culto sistemático

das nossas aptidões

para imaginar,

para estudar

e para executar

pode ajudar à preservação

do nosso caráter

para que que não se destrua,

não se anule

ou fique semelhante aos demais.

 

 

© Jaime Portela, Março de 2026


segunda-feira, 2 de março de 2026

Entre a mosca e a brisa [657]

 


O nosso fado é o declínio,

o sopro dos prantos

que nunca tiveram vício

passa a fustigar os sonhos

e o nosso império vai definhando.

O incolor desramado,

outrora floresta verde,

força-se a ilustrar

o vácuo da deslembrança

com o esquecimento mergulhado

em nascentes desperdiçadas.

As estrelas eram fluentes,

eram águas cristalinas

que irrigavam as retinas,

mas o amor vai adormecendo

em pontos fixos das serranias da vida.

E, finalmente,

pouco ou nada se passa

entre a mosca que pousa no prato

e a brisa que a empregada provoca

quando serve a sobremesa.

 

 

© Jaime Portela, Março de 2026