Translater

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Com a razão [064]

 

Com a razão,
abraçamos cores do universo
aos nossos olhos fronteiro,
contagiados pelos ecos das vivências
no âmago do pensar recicladas.
Com a vontade,
descobrimos os sinais da pele
às mãos arredios,
que vamos vestindo
nos quereres dos arbítrios
em coretos de gosto rimados.
Com a emoção,
enlevamos os desejos à mente colados,
vividos no palato dos sentidos
em puros-sangues montados.
É na razão [ou fora dela]
que abrigamos o banquete das ideias,
a vibrar à cadência da vontade
na ribalta dos sonhos
que a emoção lustra e nos ilustra.
 
Jaime Portela

quinta-feira, 31 de março de 2016

Fala contigo [063]

 

Fala contigo,
não fiques com os bolsos mal-humorados
de mágoas.
Desembrulha-as,
uma a uma, como se fossem rebuçados.
Prova-as e guarda apenas
os bons sabores de cada dor.
Os maus, atira-os
para o caixote do lixo do esquecimento.
Desta separação, verás que o grupo
das partes saborosas das tuas feridas
é muito inferior ao da lixeira,
mas será maior o seu valor.
Fala contigo, essas mais-valias
servirão para criares dias límpidos,
largos como o vento e renovados como o sol. 
 
Jaime Portela

quinta-feira, 24 de março de 2016

Gaivotas perversas [062]



 
 
Acendemos a noite
e libertámos cavalos
que trotam selvagens por cima de nós,
corcéis desvairados
a vergastar-nos a pele indefesa,
seja em Paris, Nova Iorque ou Bruxelas.
 
Libertámos bestas sedentas
com cada vez mais sede
nos trilhos de feridas
que ampliamos em soluços,
úlceras globais em busca da cura.
 
As imagens, suspensas no tecto da vigília,
são lagos gelados de águas salgadas
apinhadas de gaivotas trocistas,
são espadas mecânicas
vibradas em espirais de terror
a perfurar alvoradas de cascos e penas,
numa autópsia de esporas
cravadas na sacarose do sonho
até que o terror se infiltre nos ossos.
 
E esperamos, sem fé,
que um rio de mel inunde as nossas chagas
e que a nossa insónia
seja afogada num oceano tranquilo
de cavalos em pastagens viçosas,
onde as madrugadas
sejam livres de gaivotas perversas.
 
Jaime Portela
 

quinta-feira, 17 de março de 2016

Livre e claro [061]


 

Livre e claro é o despontar
dos gestos que remem até à praia
num advento premente,
coloridos de vertigem
e de sangue adornados.
 
Na luz,
podemos ser chama de nós mesmos
a estilhaçar grilhetas,
podemos ser
corpos emersos num abraço.
 
Não pode haver desculpa que assombre
a vontade ainda não habitada
pela incerteza poluta
de fantasmas a crescer.
 
Por isso,
espantemos o dissabor da apatia,
porque somos seres vivos
num corpo apenas
e enxame pensante a um tempo.

 

 Jaime Portela

 

quinta-feira, 10 de março de 2016

Ouvimos o céu a dissolver-se [060]


Nos teus olhos, a menina.
No teu corpo, a Primavera salpicada de inocência.
Na tua pele, alvoradas,
que no teu rosto se despem, adolescentes.
 
Provo a seda no paraíso dos meus dedos
ao percorrer-te no desamparo de nascente virtuosa.
 
Sinto o pulsar das galáxias inflamadas
no teu coração sem freios,
a correr amotinado por trigais de volúpias espigadas.
 
Acendo-me, corcel indomável,
nos lampejos dos teus olhos.
 
Embriago-me na barca da tua rosa orvalhada.
Enlouqueço, encalhado, ao desaguar pródigo
na areia da tua praia a escaldar.
 
Afogo-me, batel desgovernado,
no teu mar turbulento,
no sobressalto da preia-mar
com ondas que as bocas já não abarcam.
 
Naufragamos, sãos e salvos,
abraçados na jangada do sossego,
certos do regresso aos baixios da razão
adormecida à beira-mar da ventura.
 
Por fim, ouvimos o céu a dissolver-se
nas brumas do tempo. E amansamos
o suor dos corpos a flutuar leves, sem um lamento.
 
Jaime Portela

quinta-feira, 3 de março de 2016

Hoje não sou bombeiro incendiário [059]


Hoje não sou as margens que te enlaçam
como ninfa mareante
a vogar arrebatada na corrente de um rio cristalino,
nem a água que corre sagaz
na pele do teu corpo ainda moço.
 
Hoje não sou o olhar atrevido
à janela da tua procura,
nem gesto de pássaro errante
na tua rota [aparente] de gazela perdida
a viajar na distância que te aparta de mim.
 
Hoje não sou fome nem sede,
muito menos o bombeiro incendiário do teu acirrado fulgor,
ou mente de boca insana a percorrer, consistente,
a carne dos teus segredos.
 
Hoje sou o silêncio
que escuta na concha o mar do teu grito,
sou o sussurro do vento que te enroupa de concórdia,
sou o murmúrio da chuva miudinha
que te chama para um rio de janelas luminosas.
 
Hoje sou o recato encontrado no teu segredo escondido.
 
Jaime Portela

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Desembarquemos [058]


 
Há ventos que nos desviam
para rotas inúteis,
em águas geladas de rumos
sem roda do leme,
sem azimutes.
 
No retorno à amarração dos afectos
[do nosso mapa
vivo e tinto do começo original],
há vontades afogadas.
 
Já não sentimos na pele
o que construímos de fio a pavio
em tempos de mar chão,
num sopro desfeito
em vendavais de imperícia,
em acostagens a ancoradouro algum.
 
Desembarquemos,
 
Porque o nosso bote
[eternamente inacabado
sem leme, sem norte, sem costado],
resvalaria sem pedidos de socorro
para as águas madrastas sem fundo.
 
Desembarquemos,
 
Porque beberíamos a onda
do naufrágio final
à vela de palavras submersas
e agarrados a bóias de chumbo.
 
Jaime Portela
 
 

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Fugimos [057]

 

Fugimos do ruído trinado
dos passarinhos desmedidos, frutos sublimes
a vibrar margens que distraem o rio que há em nós.
Sigo os teus passos,
que se despojam em silêncio na sombra dos meus,
já ardentes.
Nos abandonos que percorremos,
na esteira de naus com ventos de desejos a remar,
flutuamos na cadência de asas
que planam sem esforço até se aninharem       
no hipocentro da nossa irrupção.
Escuto a desordem dos teus suspiros nus, ofegantes,
acolho os teus desejos silvestres despidos
nas entranhas dos meus.
No zénite da evasão,
no centro perpétuo do nosso pêndulo de Foucault,
explodimos no espaço
da vontade sideral da razão,
com o olhar, até então baço no lume da cobiça,
na voz do sexo que gritava mais fundo,
a fixar-se prisioneiro, recíproco.
E agora descemos, devagarinho, na placidez
da rama de algodão, até escutarmos,
não o ruído, mas a melodia
dos trinados cintilantes dos passarinhos.
Jaime Portela

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Saudades do futuro [056]


A certeza brincava densa na palavra,
dormente e abandonada no prazer indeciso,
liquefeita e engolida pela enfeitiçada inquietude
que tocava, de tão afoita,
o nosso desejo macio.
Devagar, deixaste-me percorrer, uma a uma,
com mãos vivazes de anseio,
as frágeis defesas do corpo,
já despidas no teu rosto, na tua voz já perdidas.
Sem pressa, depressa nos vestimos de estrelas,
que lançámos quase vivas na fogueira
dos nossos voos luzentes
por entre nuvens espertas,
que em nós vazaram, cúpidas, toda a lava do vulcão,
gota a gota, que pensámos algemar.
Ah meu amor, se sentisses as saudades que eu tenho
das tuas mãos, do teu rosto,
do futuro de vozes e sorrisos já passados…
Jaime Portela

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Também nós [055]



Também nós, sozinhos, caminhamos
numa estrada de um deserto
que não vai para lado nenhum.
Sem rumo, só sabemos como chegámos.
Essa estrada, mesmo estreita,
é o melhor lugar onde estivemos,
ainda que em cada curva não haja sequer um café.
Há flores de Abril desde o primeiro amanhecer.
Através de nós, sopra o vento, quente e seco,
mas enquanto lá fora chover no nosso olhar
a Primavera persiste no Verão que nos conquista.
Não dormimos e não há bebés a chorar,
há a mudança, a chegar serenamente,
trazendo com ela a intimidade buliçosa
da partilha inadiável dos suores da travessia.
Quando as minhas mãos te avistam no deserto,
de ti acodem inundados os meus gestos.
Quando dormes na minha exaltação,
é o sorrir, indeciso, que me acorda molhado de certezas.
Quando as minhas mãos ficam cegas,
chamam-te. E tu ouves,
num oásis que se acende verde, sem areia.
Porque és tu a mover-te na fome do meu corpo
e a beber na boca a minha sede.
Porque és tu a árvore que adormece
e desperta no meu sangue, que enlouquece.
Jaime Portela