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segunda-feira, 27 de abril de 2026

Vassalos de Deus ou do Diabo [665]

 


Vassalos de Deus ou do Diabo,

cai sobre nós um óleo de rícino

fritando as oportunidades

que se queimam num lago inquinado

como se fossem pétalas fenecidas.

 

Se está calor ou frio,

os caminhos não são os mesmos.

Se juntarmos a chuva e o vento,

aleatórias mudanças são renovadas,

porventura apenas observadas

no âmago do sentir metafísico.

Tudo acontece porque está frio ou calor

ou porque nos cruzámos com alguém.

 

Procuramos o rumo no jogo da vida

como se fôssemos

uma das 22 bolas na mesa de um bilhar,

mais o capricho do giz

nem sempre bem colocado no taco

e pronto para rasgar o pano da lucidez.

 

Não sabemos para onde vamos,

mas chegaremos ao fim

como a bola que entra no buraco,

que jamais daí sairá

porque não haverá nova partida.

 

© Jaime Portela, Abril de 2026


segunda-feira, 20 de abril de 2026

O povo é fixe [664]

 


Diz a tradição

que o povo é fixe, é sábio,

nunca se engana, é solidário

e o seu contrário.

 

Frequente, é o cuidado

com as suas conveniências

e a desvelada exclusão,

aplicada com esmero

às conveniências dos outros.

 

Também usual,

mas pouco, é o esquecimento

dos seus interesses

e a prática de gestos solidários

perante as necessidades alheias.

 

O povo não é fixe nem sábio

quando menospreza a arte,

mas é com arte e engenho

que é manipulado pelo poder.

 

 

© Jaime Portela, Abril de 2026


segunda-feira, 13 de abril de 2026

Ensaio irrepetível [663]

 


Esvoaçam, sobre nós,

certezas de atrocidades estáticas.

Cheios do que nunca abraçámos,

estamos sôfregos da paz que não existe.

 

Poderíamos carregar as coroas

de todas as guerras que impedíssemos,

mas trazemos apenas

as mazelas das que permitimos.

 

Há quem morra sem ter vivido,

há quem pense sem ter pensado,

mas somente se vive o que se sente.

 

E a vida,

involuntária e de início aleatório,

é a certeza entre o espanto e a incerteza,

é um ensaio irrepetível.

 

© Jaime Portela, Abril de 2026


segunda-feira, 6 de abril de 2026

O vinho brando da languidez suave [662]

 


O vinho brando da languidez suave,

como um aconchego frágil,

entranhado e congelado

pelas dificuldades estrada fora

e desmaiado nas fontes

divorciadas dos olhos parados,

é venerado pelo povo

como um servo a um tirano subjugado.

 

Invade-o um ocioso saber agitado

em que, feito médium,

pressente aparições,

retorce cotovelos de conceitos

e que, no meio de emoções alternadas,

julgando-se certo,

se desarruma embaralhado.

 

 

Pensar e ajuizar,

misturam-se até se tornarem

numa desventurosa e convicta amálgama

de credos e sentimentos,

em que os factos e as perceções,

de tão confusos, ficam iguais

como água misturada no vinho,

uma zurrapa que, só de cheirar,

já dá voltas ao estômago.

 

© Jaime Portela, Abril de 2026