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segunda-feira, 25 de maio de 2026

A roleta [670]

 


Ter esperança

é esperar que saia o nosso número na roleta

sem que possamos ter influência no desfecho.

 

Acreditar

é ver a roleta com apenas um número, o nosso.

 

Não ter esperança

é desistir e esperar o pior desfecho

porque a roleta não tem qualquer número.

 

Não acreditar

é pensar que não há roleta nenhuma.

 

 

© Jaime Portela, Maio de 2026


segunda-feira, 18 de maio de 2026

Enguia escorregadia [669]

 


A busca da verdade,

da verdade subjetiva,

a da presunção,

tal como a verdade exata dos factos,

da social da riqueza

ou da política e do poder,

transporta, quase sempre,

o saber final da sua ausência.

Encontrar a verdade autêntica

é tão rara

como a sorte do euro milhões

que sai apenas

aos que compraram por mero acaso.

A verdade

é uma enguia escorregadia

que não morde facilmente o anzol.

 

 

© Jaime Portela, Maio de 2026


segunda-feira, 11 de maio de 2026

Cala-te [668]

 


Cala-te,

a tua presença é excessiva

e lamento ser obrigada a ver-te.

Anseio que sejas lembrança apenas

e não enxame de aparências

que me rodeia de mentiras

como se eu fosse uma colmeia.

Deixa-me,

só de imaginar que te posso sentir

há um deserto sem oásis

onde nem camelos há

para que me turvem a água

onde tenho vontade de te afogar.

Vai-te,

encontras sempre razões

onde não há mais que insultos

a iluminar as tuas mãos

habituadas à violência

e ruído vomitado pela tua boca

a insistir na humilhação.

Se tu não vais, vou eu,

fartei-me da vergonha

de verem um lar desfeito.

Adeus,

estou sem coragem de te matar

antes que me tires a vida.

 

© Jaime Portela, Maio de 2026


segunda-feira, 4 de maio de 2026

Se o circo fosse romano… [667]

 


Triste e abatida,

entre as margens do meu rio,

descansa, por ingenuidade,

com o corcel exausto e sem ferraduras,

toda a inquietude verdadeira

de um ser humano,

todos os desassossegos incuráveis

de uma alma esquecida por Deus.

 

Caiu sobre mim

a maldição e a desdita do desencanto,

numa faustosa gala

de prenúncios do descrédito.

Da minha desdita, porém,

não escrevo poemas,

subtraio dela, ainda assim, um gracejo.

 

Porque a criança que há em mim

persiste em não me deixar abater

e observa, com um sorriso traquinas,

a política espetáculo

e ri-se dos palhaços eleitos

e pagos para não haver circo.

 

Se o circo fosse romano, soltava as feras.

 


© Jaime Portela, Maio de 2026


sexta-feira, 1 de maio de 2026

Maio é um direito [666]

 


A existência não é senão isto.

Não há quem saiba remar e não há ordem a bordo.

Eclipsaram-se os valentes e ficaram

os fanfarrões sem vergonha no comando.

Os discursos são pórticos inúteis,

alfaias partidas, presságios de péssimas colheitas.

Ainda assim,

não há saudade das terras longínquas libertadas,

das sombras que nos espreitavam as falas

nem das prisões arbitrárias

que domesticavam o povo.

Felizmente que os cravos estão vivos

e Maio é um direito e uma voz de quem trabalha.

 

 

© Jaime Portela, Maio de 2026