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quinta-feira, 9 de junho de 2016

O que sentimos [073]


 

O que sentimos
não deixa que a chuva nos molhe,
não tem dentes
porque é por dentro que nos abriga.
O malmequer da saudade
não nos devasta,
não nos desgasta,
porque atrai borboletas sem unhas.
As palavras que dizemos
não são navalhas,
são pétalas
que escanhoam a tristeza pela raiz,
são enxadas que nos mostram
as ervas daninhas
do nosso caminho roçadas.
Os beijos que trocamos
não se estranham,
são lampreias
que desovam no rio onde nascemos.
O pasto do teu corpo
é uma fogueira
onde o meu corcel se alimenta,
a galope,
de crina em riste, altaneira.
O mar do meu corpo corsário
é pelo teu barco domado,
és navegante sem precisar de remar,
rasgas marés vivas, pirata,
até à gávea do mastro.
 
Jaime Portela

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Os nossos dias foram expulsos do tempo [072]


 

Os nossos dias foram expulsos do tempo
e não se corrompem
na noite da distância envidraçada.
         O escuro não existe no teu corpo
         e a luz perdura no meu peito.
 
Os nossos dias não serão colados por vazios
nem cosidos por contínuos tracejados,
porque encheste os olhos de mim,
já ocupado por ti
sem vidro nos telhados.
 
Os nossos dias, memoriais da paz coabitada
sem começo aparente,
são exteriores aos compassos do tempo
e estão presos à liberdade sem hiatos.
         São datados os teus finitos sinais
         como num coito vestido de infinito.
 
Jaime Portela

quinta-feira, 26 de maio de 2016

A minha imagem real [071]


 

A minha imagem real
anda do corpo arredia, fugidia.
Não a vejo, não a toco,
escorrega-me dos dedos
qual enguia libertina.
Não a domino, a vadia.
Cata-vento e dançarina,
mostra-se sempre diferente,
muda de cor, de feitio,
de tamanho e de feição
a cada olhar que pressente.
Estou a pensar que a travesti
é obra alheia e não minha.
Por isso,
não presumam como certos
os retratos que vos dou.
Inacabados e toscos, nenhum
deles me revela por inteiro
e nem eu sei o que sou.
 
Jaime Portela

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Não adormeças verde [070]

 

 
Não adormeças verde
à sombra de palavras rosa,
nem de branco procures
frutos coloridos
com o círio da tua fantasia.
Não bebas o som multicor
que se liberta da forma,
como se ele pudesse lapidar
a desordem azul da tua vida.
O verso, mal dissecado,
é avesso à perceção,
ao sentir,
já que a lira te dá apenas
um serenar movediço.
Uma cor deformada
é pior que uma tormenta,
pode dourar horizontes do porvir
como um anjo imaginário.
Não te escondas,
esquece o escrito e descobre-te
na respiração do inscrito,
pois quase nada
do que é dito é transparente.
 
Jaime Portela
 

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Deixei de ver nos teus lábios [069]


 

Deixei de ver nos teus lábios
a madrugada
e de respirar um segredo.
Já não leio nos teus olhos
nenhuma certeza
e abraço a espessa fronteira
que sangra de ausência.
Ainda que desassossegados
da mesma poesia sem muros,
mas com tijolos ternamente diferentes,
fomos iguais nas paredes de pele
que arquitectamos tocar.
Mas deixámos de querer
cascas ruidosas no ar,
capazes de provar
a duração efémera do universo.
Ensurdecido pelo trovão
de um contentamento que se desfez,
agora inalo a futura nicotina,
o meu anestésico
na mutação das margens destruídas.
 
Jaime Portela

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Há mãos vazias que partem do cais [068]


 

Há mãos vazias que partem do cais,
apressadas,
fugindo em naus que sulcam águas
de brandura na querença da chegada,
cavadas na crença de rasgarem, destemidas,
quaisquer vagas alterosas
que à proa do desígnio se acostem.
Há barcos velhos ancorados
numa enseada de mar traiçoeiro
a encarecer os sonhos,
mal estivados e a zarpar sobrelotados,
na maresia da flor de sal espraiados
de tão arpoados no sangue.
Há vontades acossadas de partir e de ficar,
de ser pássaro migrante e sedentário,
de passar a vau para a outra margem
sem percorrer todo o rio de gente que sufoca.
Haverá limbos verdejantes e fanfarras
que desfraldem cantilenas de braços abertos
no porto de abrigo à chegada?
Ou apenas umas tábuas
para os afogados que derem à costa?
Porto de uma razão e timoneiros da desgraça,
vão na esteira de outras partidas
numa rota vezes de mais naufragada.
 
Jaime Portela

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Atiro no primeiro que falar [067]


 

Entro armado no palco e grito:
- Atiro no primeiro que falar.
Faz-se silêncio. As luzes acordam,
encarniçam-se e procuram o homicida
na minha fronte de amante suicida.
Declaro-me, exponho-me, mostro-me.
Não me defendo, estou inocente
mas lanço granadas de fumo.
O drama e a trama, sem ponto,
são metáforas polimorfas esboçadas
à luz de espelhos curvos da memória.
Ela entra em cena,
duplicada de mel e fel suplicantes:
- Faz-me tua… ou MATA-ME…!
Acaricio as suas formosuras, trapos vivos
atados ao anzol para engodar peixes famintos,
levanto a pele de um fruto proibido
e devoro a polpa até ao tutano.
Ouvem-se rumores…
- Atiro no primeiro que falar.
Faz-se silêncio de novo. Ela fica com aquele
olhar cortejado, diria maroto, de um qualquer
filme mudo de animatógrafo obsoleto,
que é apenas o olhar simples e intrincado
de mulher desarmada, que tanto irrita
outras mulheres por saberem que esse olhar
perturba espectadores-homens, de olhos,
mãos e nariz insolentes,
habituados a avaliar os melões apenas pela casca.
A serpente, já entorpecida, agora num
êxtase melancólico de leoa empanturrada:
- Faz-me tua… ou mata-me…!
E eu, todo nu, sem deixa que me valha:
- Atiro no primeiro que falar.
O pano cai de repente. Na plateia
morrem olhos a procurar uma serpente.
 
Jaime Portela

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Uma rosa moribunda [066]


 

Uma rosa moribunda
na alegre palidez de ventos tristes,
com gestos de mariposa a procurar o sol
no reverso de um tempo já serôdio
em labirintos nocturnos de memórias.
Um girassol impreciso
nos pregões de engodos para o abismo,
a dissecar, no pino do estio das palavras,
mil pegadas de contornos fátuos
que no areal a cada vaga definham.
Mareante profana,
felina, de abordagem temerária
às naus que abalroa arrebatada, é enganada
por contrastes de tesouros sem quilates,
corsária saudosa
do seu próprio espólio já morto.
Numa procura com penas de pavão,
certa de mais um achado,
mas atraída pela brisa diversa,
numa clara cegueira de luz redundante
e impelida pelo calor falacioso
que emana do instinto predador,
tomba seduzida
por jóias que pensava verdadeiras.
Dessas pilhagens,
onde luzem todas as memórias sem passado,
deveriam nascer anjos verdes
com almas brancas de açucenas,
que viveriam cegos e certos
na febre faminta de abraços,
fundindo sinais, partilhando tesouros,
morrendo de amor e paixão.
Mas nada disso acontece,
porque, afinal, é uma rosa sem luz,
rosa falaciosa que eu não beijo,
mesmo sem espinhos,
sedutora e de boca orvalhada pelo desejo.
 
Jaime Portela
 

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Bebo a seiva e o mel da tua dança [065]




Bebo a seiva e o mel da tua dança,
pantera sedutora a rasgar a selva
do nada que nos separa,
enquanto orquestro o silêncio
[ou a ânsia]
ao ritmo da tua valsa.
 
Embriago-me
no ventre da tua voz acesa,
melodia sensual a invadir-me em clarins
os tímpanos do desejo,
enquanto vestimos o tempo
com relógios sem ponteiros.
 
Sobrevoamo-nos cativos
e caímos no vácuo entrelaçados,
latejantes.
Detonamo-nos num fogo-de-artifício
de estrelas cadentes, ofegantes.
 
 
Jaime Portela

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Com a razão [064]

 

Com a razão,
abraçamos cores do universo
aos nossos olhos fronteiro,
contagiados pelos ecos das vivências
no âmago do pensar recicladas.
Com a vontade,
descobrimos os sinais da pele
às mãos arredios,
que vamos vestindo
nos quereres dos arbítrios
em coretos de gosto rimados.
Com a emoção,
enlevamos os desejos à mente colados,
vividos no palato dos sentidos
em puros-sangues montados.
É na razão [ou fora dela]
que abrigamos o banquete das ideias,
a vibrar à cadência da vontade
na ribalta dos sonhos
que a emoção lustra e nos ilustra.
 
Jaime Portela