Translater

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

O eco do silêncio [083]


 

Fora da porta,
as sombras carregam a lua
que engole a noite de mansinho.
As janelas,
temporariamente fechadas sobre nós,
desviam a claridade alheia
que não entra e não polui
a luz inscrita no teu corpo inesgotável,
porque em nós se abrem chaves
na inevitabilidade do fogo.
 
O teu colo nu é fascinação
que repousa na correria
das minhas asas por ti,
na minha prisão em ti desabotoada,
na procura da tua inebriada inocência,
das tuas mãos,
da tua boca,
do teu corpo,
na descoberta de murmúrios em cascata,
no sufoco de gritos em estremeções.
 
E repetiremos tudo até ser dia,
porque havemos de compreender
o eco do silêncio de olhos nos olhos.
 
 
Jaime Portela

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Navegar é preciso * [082]


 

Vimos de longe, de muito longe,
com as mentes perfumadas pelos dilúvios
que sorvemos com o hálito na pele,
abençoados por fragrâncias
de maresias que nos alimentaram
em rotas de ventos risonhos.
 
Vimos de longe, de muito longe,
a bordo de uma nau
com a linha de água submersa pela carga
dos contentores da fortuna
estivada nos porões, tesouro que carregámos
com as retinas cheias de nós.
 
Vimos de longe, de muito longe,
com limo e ostras na rabada
de cruzar um mar convulso de vozes
e algas sem norte na quilha da nossa firmeza,
à vela de um farol
lastrado na paz dos sentidos do olhar.
 
Vamos p’ra longe, p’ra muito longe,
a navegar no fado em que nós cremos,
dobraremos os cabos
das tormentas de nós mesmos.
* Título de um poema de Fernando Pessoa
 
Jaime Portela

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

A seiva que nos percorre [081]


 

Imprimes, na tua pele,
o pranto que leve se afoga na claridade
embriagada às nossas mãos concubinas,
porque não sabemos escrever
cantos de pétalas caídas na areia.
 
Sobre os teus muros,
derramas uma chuva de lágrimas
que se apagam no sol em que ardemos,
porque transborda no teu olhar
o verde transparente
de grinaldas em claros desejos costuradas.
 
Com sombras, moldas o rodapé do teu sonho
[porventura animada por chapéus de dois bicos],
mas logo sublimadas na luz dos beijos
que ainda não demos,
porque despimos qualquer mágoa verdadeira
que, derrotada, se torna moribunda.
 
Porque a seiva que nos percorre
é vinho destilado,
já que o nosso delito arde
num cadinho de cinza, justa e fecunda.
 
Jaime Portela

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Vira picado [080]




Quando acarinho o teu corpo
[planície ondulante
numa dança de ventre de trigo maduro]
crescem-me as mãos nos dedos da ternura
como lírios viçosos
nas águas do bem-estar orvalhado.
 
Quando olho os teus olhos,
que em chamas candentes me procuram ávidos,
o meu coração bate menino mimado
pelo brilho
[imparcialmente seduzido e sedutor]
do teu olhar.
 
Quando nos abraçamos,
enterramos a distância que separa o sol e a lua
para nos absorvermos inteiros
na espessura de vácuos protectores.
Vestem-nos de paz aguerrida
ao morrermos despertos
em ecos nus de ruivas cores acordadas.
 
Num mar de afectos encrespado de bonanças,
ao som de calmarias que adormecem navegantes,
sou marinheiro a ti ancorado
no vira de cruz
da vida que de malhões se vai agitando.
 
Meu amor, canta, dança, dissolve as contradanças,
não há vira picado que vire a alegria.
És a moira que canta
a dança dos dias no fogo da noite ateada.
 
Jaime Portela

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Tretas [079]


 

Brinca como quem finta
farsas de comparsas
com a réplica desperta na deixa certa.
Troca o destino ao desatino,
contesta a festa
quando, imbuído, há descabidos.
Faz do enigma um não estigma,
celebra o mistério menos a sério
e não faças troça da velha carroça.
Esgota a fraqueza
no princípio da incerteza
com a mesma energia da luz do dia.
De qualquer modo, não fujas logo,
não me obedeças nem desfaleças…
Confuso? Será isto obtuso?
Sim e não, meu irmão,
mas nada incluso na vida é escuso.
Só que tretas não puxam carretas…
Ou puxam?
 
Jaime Portela

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Hoje e sempre enamorados [078]


 

A tua voz…
A tua boca…
Um mar de sussurros frementes,
a flutuar nas ondas risonhas de luz
que brotam
da espuma renovada nos teus olhos.
 
O teu corpo…
A tua pele…
Fonte adornada pelo teu bem-me-quer,
estrela-do-mar do teu secreto coral
a semear revigorados humores,
rio inundado
de aromas vivos de algas.
 
O teu mar…
O teu beijo…
Nele me envolvo primevo,
num mergulho túmido
que me transforma,
que me aplaca em bálsamos de sargaços
no embalo de um colo divinal.
 
Porque afogamos num rio sem margens
os gritos a uma só voz,
num só corpo,
na corrente redentora de dois mares
hoje e sempre enamorados.
 
Jaime Portela

quinta-feira, 7 de julho de 2016

O oposto do sol-posto [077]


 

Respiro o mar das vontades
que ondulam nos teus olhos,
engalanados com o brilho
refletido pela avenida apinhada
dos nossos andores acesos de fogo,
cortejo de um Maio florido
a celebrar o fim do teu Inverno,
a avolumar-se das andorinhas
que há tanto tempo aguardavas.
 
Na crista dessas ondas,
onde o amor com hélices impulsiona
barcarolas atulhadas de certezas,
preservo as tuas palavras
até aos sons derradeiros
no sacrário das minhas memórias,
para beijar a tua boca
sempre que o vácuo da distância
impeça que os teus lábios
se propaguem vivos até mim.
 
Mas é no teu corpo
que percebo o oposto do sol-posto,
que encontro o cálice
donde bebo as estrelas do teu gosto.
 
Jaime Portela

quinta-feira, 30 de junho de 2016

És uma Deusa, afinal [076]


 

Saíste da espuma do mar,
um rebanho branco nervoso do vento.
Imaginei-te sereia, princesa,
fada, moira ou feiticeira.
 
Num oceano de raivas fáceis,
navegámos sem nau
e não usámos
a bússola dos argonautas infames.
 
Vogámos ao sabor das correntes
de frases sem rédeas e, distraídos,
fundeámo-nos virgens
em portos estranhamente conhecidos.
 
À vela de sorrisos desfraldados,
brindámos, de mãos dadas,
com as nossas próprias taças
a transbordar de ternura.
 
Espartano, hesitei…
Então, o mar Egeu do teu corpo
a beijar o Monte Olimpo,
ofertou-me um oráculo.
 
Decifrei-o.
Procurei e encontrei-te:
No meio das tuas gregas colunas,
sucumbi no teu altar de Afrodite.
És uma Deusa, afinal.
 
Jaime Portela

quinta-feira, 23 de junho de 2016

No teu rosto [075]

 
No teu rosto,
revivo a alvorada.
Nas meninas
dos teus olhos tristes, a alegria,
hoje menos preguiçosa.
Relemos, nos lábios da noite,
os segredos que nos falam
das fronteiras do que somos,
margens que calamos
porque as sabemos largas de sóis.
Afundo-me no centro dos teus vértices,
no teu anel de mosaicos
que me ofereces
liquefeito num abraço de carícias.
Beijamo-nos,
engolidos por silêncios de ventos
perfumados em espirais
a crescer de ternura.
Respiramos o pólen a dilatar-se
em cogumelos de sentidos
no âmago de vórtices de veludo,
onde acasalamos odores e desejos
transpirados.
Adormecemos brandos
nas meninas dos teus olhos a sorrir,
crianças intactas na brancura
transparente de anjos inocentes.
 
Jaime Portela
 

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Na geometria do sonho [074]


 

Ergueu-se o horizonte, entorpecido,
numa espera de mil anos.
Revelaste um firmamento
semeado de estrelas com voz
que emitiam sinais claros de luz
a balizar-me para ti.
Detonaste o assombro
no trilhar de verbos estrangeiros
em tapetes de vertigem.
Viste-me em gestas de fogo teu
por entre as frestas
do gelo que te cercava num cais
em chamas de vazios.
O nosso grito não será diluído
na geometria do sonho, recíproca,
voará com o nosso sangue inscrito.
 
Jaime Portela