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segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Os bombos da festa [691]

 


Na fuga à ligeireza alegre

com que vou fruindo da minha inteligência,

vou-me perdendo

numa letargia de gato com que espio,

por entre pestanas preguiçosas,

os trejeitos da coerência

da minha desatada fantasia.

 

Vou-me perdendo

enquanto me desaparecem

os encargos dos deveres,

as abundâncias auríferas

sob a sombra das janelas

que fabricavam miragens

e o murmúrio das cachoeiras esganadas

pelo sopro dos incómodos nos ouvidos

que vou confundindo com a festa dos bombos.

 

Cativo do carácter e dos contextos,

vou-me perdendo

ultrajado pela impassibilidade cobarde

em acabar com as guerras

e na fantasia de que terminem

as afrontas fatalistas do destino

a que estamos irremediavelmente condenados.

 

Vou-me perdendo, ainda,

no labirinto que nos constroem

enquanto os coelhos vão mastigando a noite

indiferentes a nós todos,

os verdadeiros bombos da festa perdidos.

 

© Jaime Portela, Outubro de 2026


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