Na fuga à ligeireza alegre
com que vou fruindo da minha inteligência,
vou-me perdendo
numa letargia de gato com que espio,
por entre pestanas preguiçosas,
os trejeitos da coerência
da minha desatada fantasia.
Vou-me perdendo
enquanto me desaparecem
os encargos dos deveres,
as abundâncias auríferas
sob a sombra das janelas
que fabricavam miragens
e o murmúrio das cachoeiras esganadas
pelo sopro dos incómodos nos ouvidos
que vou confundindo com a festa dos bombos.
Cativo do carácter e dos contextos,
vou-me perdendo
ultrajado pela impassibilidade cobarde
em acabar com as guerras
e na fantasia de que terminem
as afrontas fatalistas do destino
a que estamos irremediavelmente condenados.
Vou-me perdendo, ainda,
no labirinto que nos constroem
enquanto os coelhos vão mastigando a noite
indiferentes a nós todos,
os verdadeiros bombos da festa perdidos.
© Jaime Portela, Outubro de 2026
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