Translater

segunda-feira, 19 de setembro de 2022

São as tuas pernas claras [437]

 


São as tuas pernas claras

que banham a floresta de luz

quando elas fazem emergir carmim

a súplica acesa

da alma que se agiganta viva.

 

São os teus seios macios e firmes

que me enfraquecem

na solidez da buzina que destitui,

ruidosa,

o ouvido da razão.

 

São os teus olhos de núpcias

que me fazem estrebuchar

sem ar na tua boca

e regressar com magia

à Primavera.

 

São as nossas almas que,

de pardais,

se transformam em pombas,

emplumadas por toques inefáveis

de ossos e carnes, hastes

onde crescem as nossas flores.

 

© Jaime Portela, Setembro de 2022


quinta-feira, 15 de setembro de 2022

Não sei qual a razão [436]

 


Não sei qual a razão

de desejar

as coisas que consciente não quis.

Como também não sei

o motivo da procura,

num anseio impreterível

daquilo que está mais longe.

 

Este meu desassossego,

não talhado em pedra fria,

não é contente nem triste,

tal como não é um desatino,

porque o limite

tende a ser o caminho que distingo.

 

Assim sendo,

descobri que não sou o dono da alma,

porque é ela que se agita

na esperança do anseio inatingível.

 

© Jaime Portela, Setembro de 2022


segunda-feira, 12 de setembro de 2022

Para que a luz do Sol [435]

 


Para que a luz do Sol

nos dê bom dia,

dá-me as alvoradas do teu peito

numa carícia doce

e espreguiçada com manteiga

em pão torrado no sumo das ideias.

 

Dorme comigo,

tenho no toque um sopro de piano

e, na carne,

muita vontade

de voar nas tuas asas de gaivota.

 

Voa comigo,

vamos confundir o nosso cheiro

até que nas alturas profundas

nada mais corra

que o vago som de violinos seduzidos.

 

Antes que partas,

pedir-te-ei que pouses a cabeça

na minha travesseira,

verás o Sol a entrar pela janela

a suceder-me no teu corpo.

 

© Jaime Portela, Setembro de 2022


quinta-feira, 8 de setembro de 2022

Sem ti [434]

 


Sem ti,
os dias são um livro de artesão
com a folha mais importante arrancada.
E eu só me preocupo
com o que não existe,
porque se o que existe é bom
não me dá inquietude.
Por isso,
o teu silêncio, que me desassossega,
só deveria ser encarado
como incompetência minha,
até porque não tens voz de incapaz.
Para resolver este dédalo,
proponho-me
reescrever a folha que falta contigo,
para que possa voltar a dar-te
o artesanato que entretanto já fiz,
filigrana dos meus dias para os teus olhos.

 

© Jaime Portela, Setembro de 2022


segunda-feira, 5 de setembro de 2022

Agora é tarde [433]

 


Por que não fomos

indiferentes desde o começo?

Por que não te ignorei

nem tu me estranhaste?

Agora é tarde, a tua voz

é o livro aberto onde eu peco

sem jamais o querer fechar.

 

Se vestíssemos

o rosto de uma lembrança distante

no vazio abandonada…

Se zombássemos

da temperatura das línguas

e rasgássemos a bandeira do usufruto…

 

Mas não,

é o prazer que nos tortura

a alma de alegria e nos liberta

de enfados e remansos medonhos.

Mas não,

somos a sensatez derrotada

pela nossa própria ternura

a festejar a traição irrecusável.

 

© Jaime Portela, Setembro de 2022


quinta-feira, 1 de setembro de 2022

Morremos [432]

 


Morremos à visão branca

da luz que há na vontade acrítica

da espinha dorsal do querer

irrefragável,

no arder dos abraços

e no pegar do fogo espontâneo do corpo

sempre que a pele se abarca.

 

A barca do teu sorriso,

nas velas preciso, tão sedutor,

é uma nau muito amada, absolvida

por do cais não saber desatracar

[abriga-nos],

porque é sabido e ressabido

que os olhos são da verdade uma jura.

 

Perjúrio,

seria se o vento secasse da ideia

a embriaguez dos sentidos,

estrebuchando como viúva,

a carpir,

no inferno intestino em lágrimas perdida

ou com o anzol espetado na boca.

 

Desbocados,

no sentir,

onde afluem todas as auroras retidas,

morremos para nos acrescentarmos

em reiteradas frases de chuva dourada na pele.

 

© Jaime Portela, Setembro de 2022


segunda-feira, 29 de agosto de 2022

Sei que és [431]

 


Sei que és

tão delicada como a porcelana

e que, quando cais,

te partes em mil pedaços,

que recolhes e escondes de alma dorida

num canto de ti.

 

Fico a pensar que és um destroço

no mar agitado da vida,

mas que

lutarás por te levares viva

para a costa palpável da tua autópsia.

 

E vejo-te a colar os pedaços,

não sendo prazer nem mágoa

as feridas sobre as quais te reavivas,

pois a luz

que em ti se finda

tem sempre algum calor remanescente.

 

Ah, como estamos longe…

tão longe…

mas tão perto que a nossa fantasia

ainda ilesa

nos retira aquele aperto de sonharmos

o sonho de um segredo que não pesa.

 

© Jaime Portela, Agosto de 2022


quinta-feira, 25 de agosto de 2022

Os meus dedos nos teus lábios [430]

 


Se passo os meus dedos nos teus lábios,

num arroubo de tempo sem espaço

        [palpável, de batom],

é roubada a perceção de te pensares serena

e eu vejo em ti uma gazela aguerrida.

 

Se vejo o teu silêncio,

fico envolto de cegueira e definha

        [no teu olhar]

o pensamento que vejo

de te cuidares minha,

ceifando o desígnio da ponte suspensa

em pilares de nós feitos.

 

Se vestes de afastamento

os horizontes de todas as variáveis do teu corpo,

sinto as margens da alma tão longe, e há

        [no dever do andar em frente]

um grito surdo

como queda vertiginosa num poço sem fundo.

 

Por isso,

mesmo que subas e desças o rio

num barco onde eu não caiba,

andarei perto

        [pela estrada que o segue]

e o ver-te feliz

será uma brisa tua

inserta de ventura no meu peito,

como quando passo

os meus dedos nos teus lábios.

 

© Jaime Portela, Agosto de 2022


segunda-feira, 22 de agosto de 2022

Quando te esqueço [429]

 


Quando te esqueço,

sou tão robusto

como um castelo impenetrável.

Mas, quando me lembro de ti,

sou gelatina,

as minhas muralhas tremem

como varas ainda verdes

ao sopro da tua alma.

Quando te vejo, é bem pior,

a tremedeira cessa,

mas eu inteiro fico nu e indefeso

pela robustez que se entristece

ao teu primeiro olhar

e que morre, feliz,

em cada curva do teu corpo.

Mas eu prefiro

não me esquecer de ti,

para que tudo o que é teu

aponte para mim

com a afinidade

de uma bomba de neutrões

e me transmutes inteiro

até à fusão em ti.

 

© Jaime Portela, Agosto de 2022