O lar era de pedra, de pedra tão incerta
que estava semeado de janelas.
Sempre abertas, não havia outras.
O vento entrava e saía como um turista.
A terra batida era o chão do casebre,
sem divisões, um “open space” onde a
pobreza
se partilhava alegre entre a lareira
e as enxergas coletivas multiusos.
Já os filhos eram tantos
que lhes trocavam os nomes, quando a gravidez
bateu de novo à porta sem tranca da mãe.
Mas diziam que num lar feliz
teria de haver pão e vinho, que raramente
tinham,
e bafo de menino, que havia em abundância.
Depois das dores, a surpresa de dois gémeos.
Inventaram uns paninhos, umas camisas,
irreconhecíveis, rasgaram tudo aos pares.
e sobreveio um seio para cada um dos nascidos.
A pobreza não é admissível para sempre,
mas nascem mais pobres no mundo
do que a nossa parca intolerância abarca.
© Jaime Portela, Setembro de 2024