Translater

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Desembarquemos [058]


 
Há ventos que nos desviam
para rotas inúteis,
em águas geladas de rumos
sem roda do leme,
sem azimutes.
 
No retorno à amarração dos afectos
[do nosso mapa
vivo e tinto do começo original],
há vontades afogadas.
 
Já não sentimos na pele
o que construímos de fio a pavio
em tempos de mar chão,
num sopro desfeito
em vendavais de imperícia,
em acostagens a ancoradouro algum.
 
Desembarquemos,
 
Porque o nosso bote
[eternamente inacabado
sem leme, sem norte, sem costado],
resvalaria sem pedidos de socorro
para as águas madrastas sem fundo.
 
Desembarquemos,
 
Porque beberíamos a onda
do naufrágio final
à vela de palavras submersas
e agarrados a bóias de chumbo.
 
Jaime Portela
 
 

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Fugimos [057]

 

Fugimos do ruído trinado
dos passarinhos desmedidos, frutos sublimes
a vibrar margens que distraem o rio que há em nós.
Sigo os teus passos,
que se despojam em silêncio na sombra dos meus,
já ardentes.
Nos abandonos que percorremos,
na esteira de naus com ventos de desejos a remar,
flutuamos na cadência de asas
que planam sem esforço até se aninharem       
no hipocentro da nossa irrupção.
Escuto a desordem dos teus suspiros nus, ofegantes,
acolho os teus desejos silvestres despidos
nas entranhas dos meus.
No zénite da evasão,
no centro perpétuo do nosso pêndulo de Foucault,
explodimos no espaço
da vontade sideral da razão,
com o olhar, até então baço no lume da cobiça,
na voz do sexo que gritava mais fundo,
a fixar-se prisioneiro, recíproco.
E agora descemos, devagarinho, na placidez
da rama de algodão, até escutarmos,
não o ruído, mas a melodia
dos trinados cintilantes dos passarinhos.
Jaime Portela

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Saudades do futuro [056]


A certeza brincava densa na palavra,
dormente e abandonada no prazer indeciso,
liquefeita e engolida pela enfeitiçada inquietude
que tocava, de tão afoita,
o nosso desejo macio.
Devagar, deixaste-me percorrer, uma a uma,
com mãos vivazes de anseio,
as frágeis defesas do corpo,
já despidas no teu rosto, na tua voz já perdidas.
Sem pressa, depressa nos vestimos de estrelas,
que lançámos quase vivas na fogueira
dos nossos voos luzentes
por entre nuvens espertas,
que em nós vazaram, cúpidas, toda a lava do vulcão,
gota a gota, que pensámos algemar.
Ah meu amor, se sentisses as saudades que eu tenho
das tuas mãos, do teu rosto,
do futuro de vozes e sorrisos já passados…
Jaime Portela

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Também nós [055]



Também nós, sozinhos, caminhamos
numa estrada de um deserto
que não vai para lado nenhum.
Sem rumo, só sabemos como chegámos.
Essa estrada, mesmo estreita,
é o melhor lugar onde estivemos,
ainda que em cada curva não haja sequer um café.
Há flores de Abril desde o primeiro amanhecer.
Através de nós, sopra o vento, quente e seco,
mas enquanto lá fora chover no nosso olhar
a Primavera persiste no Verão que nos conquista.
Não dormimos e não há bebés a chorar,
há a mudança, a chegar serenamente,
trazendo com ela a intimidade buliçosa
da partilha inadiável dos suores da travessia.
Quando as minhas mãos te avistam no deserto,
de ti acodem inundados os meus gestos.
Quando dormes na minha exaltação,
é o sorrir, indeciso, que me acorda molhado de certezas.
Quando as minhas mãos ficam cegas,
chamam-te. E tu ouves,
num oásis que se acende verde, sem areia.
Porque és tu a mover-te na fome do meu corpo
e a beber na boca a minha sede.
Porque és tu a árvore que adormece
e desperta no meu sangue, que enlouquece.
Jaime Portela

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

O parto [054]



Vou procriando embriões de palavras,
que verto a tentar não perder o fio ao enredo,
mas tenho um parto atribulado.
 
Levanto o prematuro, limpo a placenta
e dou-lhe duas palmadas no rabo.
Provo-lhe a semente do grito primevo
enquanto devoro baforadas de vácuo prenhes de fumo.
 
Alfaiate e parteiro, dou uma tesourada de pai indeciso
no cordão umbilical
e lavo o filho de sangue em mil ideias com asas.
 
Coso a boca às feridas, refino pensos,
mas atrapalho-me com nuvens de pó de talco
e quase deixo escapar os versos convalescentes
pelo cano da incubadora.
 
Recomeço, uma e outra vez,
até que as dores da aparição se desenruguem
e Morfeu o não ache nado-morto
para estágio em colchão de sono breve.
 
De candeia em punho,
percorro esquinas e vielas do poema
até projetar o mapa do seu corpo na retina
para radiografar as ideias ulceradas a intimar cirurgia.
 
Do esboço inicial, a martelo e a cinzel,
passo à transpiração burilada
na paciente finura das formas.
 
Certas palavras, ao sentir o bisturi da coerência
a bordar a pele, espetam agulhas
nas pernas de outras palavras para que fujam à dor
e plasmam novas palavras com pinças e ligaduras
num corpo exausto de próteses.
 
Aceitável, o filho, agora com malformações
quase só percetíveis aos olhos do mestre,
penduro-o na parede e abandono-o.
É vosso.
Jaime Portela

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Concerto num auditório quase só cheio de surdos [053]


As palavras escorrem
como solos inocentes de um pianista aprendiz.
As mãos ardem nas teclas
como contraponto ao público embriagado
de frases líquidas
no substrato do verso abstrato.
O destilado entra,
implacável,
nas veias dependentes de ilusões.
O enlevo das palavras,
vertidas na vertigem da miragem,
vai perfurando entranhas
e há cada vez mais sedentos
à porta de vidros à prova de bala.
A provação da verdade das emoções
e o deserto da crua mentira,
espreitam nutridas
no espelho da caricatura dos olhares.
A indecisão
de continuar a comprar ópio maldito
ou de partir o piano a meio do recital,
perfura os tímpanos e não se ouvem respostas.
Mas a esperança
da harmonia dos andamentos
faz continuar o concerto num auditório
quase só cheio de surdos.
Jaime Portela

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Voo nupcial [052]



Não fiques assim, na pele dócil de infanta
a sustentar muralhas no teu olhar,
sem teceres,
nas tuas mãos,
as cores de gestos que projetem livres
novos horizontes.
Não fiques assim, abarcada por rígidos cais
a educar águas na desova cega da espera,
com as mãos a amolecer
acenos de fascínios por metáforas,
agitando sonhos
entoados na dolência prosaica
de cumplicidades já mortas.
Não fiques assim, em quieta contemplação
na corda bamba cativa de fantasmas virtuais,
enquanto gaivotas enamoradas
te sobrevoam livres para escrever contigo
uma história a quatro mãos,
serenando-te,
maior,
no maduro juízo do saber.
Não fiques assim, prende-te a alguém
que não te faça prisioneira,
para que as sombras não estremeçam as asas
do chamamento natural e se convertam
na luz do teu voo nupcial.
Jaime Portela

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

O meu anjo não existe [051]



Com o sorriso vazio
e já com pedras na alma ferradas,
vieste sem a chama do teu anjo.
Esgotada de mares e de Natais
navegados à deriva,
com o olhar ensombrado de ideias
que te envenenavam o sangue
a enriquecer-te a tragédia,
com passos duros,
teimosos,
chegaste a pisar vidro partido
no chão de memórias resistentes.
Tímida, voaste com asas de borboleta
atraída pela luz,
amedrontada pelas palavras espalhadas
na mesa do festim à tua espera.
Mas sorriste,
finalmente,
por não teres queimado as tuas asas,
e só então te apercebeste
da presença do teu anjo.
Sorriste…
E continuas a sorrir, mas a dizer:
- O meu anjo não existe…!
Jaime Portela

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

O verde e moço desatino dos lunáticos [050]



Vivemos por entre furacões
a desgrenharmos o cabelo nas tormentas.
Ficamos bêbados de licores proibidos
e inchados de venenos boquiabertos nos dentes.
Usemos a varinha de condão e,
com artes de magia afortunada,
suspendamos os prantos da boca
e o rezar miserável por chuva no deserto.
Deixemos que a força abatida
seja a mola dos sonhos,
pois há fios coloridos nas nossas mãos a brilhar.
Sonhar é bom, porque nos incendeia
com o verde e moço desatino dos lunáticos.



quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

És a minha perdição [049]


Nos teus passos ondulantes,
tens o andar,
o rumo, a graça
e o aprumo da cotovia cantora
nas manhãs de Primavera.
Nos teus gestos largos de juíza
[não é disso a tendinite
do braço cego da lei],
tens a robustez do chão
e a brandura das searas,
que me agarram
e afagam
à distância de um perfume.
Na tua voz de menina,
tens passarinhos cantores
no verbo que enfeitiça,
que sopra
e desembruma a espessura
das minhas noites de Inverno.
No sorriso e no olhar,
tens orvalheiras de luz
e de auroras prenhes de lua,
que te envolvem,
pura e vera,
na tua pele nívea
salpicada de inocência.
És ópera romântica de Wagner,
libreto e valquíria
da minha guerra por ti.
És horizonte,
cascata,
tela intensa e anjo bom.
És liberdade,
cadeia, és a minha perdição.