Translater

quinta-feira, 30 de junho de 2016

És uma Deusa, afinal [076]


 

Saíste da espuma do mar,
um rebanho branco nervoso do vento.
Imaginei-te sereia, princesa,
fada, moira ou feiticeira.
 
Num oceano de raivas fáceis,
navegámos sem nau
e não usámos
a bússola dos argonautas infames.
 
Vogámos ao sabor das correntes
de frases sem rédeas e, distraídos,
fundeámo-nos virgens
em portos estranhamente conhecidos.
 
À vela de sorrisos desfraldados,
brindámos, de mãos dadas,
com as nossas próprias taças
a transbordar de ternura.
 
Espartano, hesitei…
Então, o mar Egeu do teu corpo
a beijar o Monte Olimpo,
ofertou-me um oráculo.
 
Decifrei-o.
Procurei e encontrei-te:
No meio das tuas gregas colunas,
sucumbi no teu altar de Afrodite.
És uma Deusa, afinal.
 
Jaime Portela

quinta-feira, 23 de junho de 2016

No teu rosto [075]

 
No teu rosto,
revivo a alvorada.
Nas meninas
dos teus olhos tristes, a alegria,
hoje menos preguiçosa.
Relemos, nos lábios da noite,
os segredos que nos falam
das fronteiras do que somos,
margens que calamos
porque as sabemos largas de sóis.
Afundo-me no centro dos teus vértices,
no teu anel de mosaicos
que me ofereces
liquefeito num abraço de carícias.
Beijamo-nos,
engolidos por silêncios de ventos
perfumados em espirais
a crescer de ternura.
Respiramos o pólen a dilatar-se
em cogumelos de sentidos
no âmago de vórtices de veludo,
onde acasalamos odores e desejos
transpirados.
Adormecemos brandos
nas meninas dos teus olhos a sorrir,
crianças intactas na brancura
transparente de anjos inocentes.
 
Jaime Portela
 

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Na geometria do sonho [074]


 

Ergueu-se o horizonte, entorpecido,
numa espera de mil anos.
Revelaste um firmamento
semeado de estrelas com voz
que emitiam sinais claros de luz
a balizar-me para ti.
Detonaste o assombro
no trilhar de verbos estrangeiros
em tapetes de vertigem.
Viste-me em gestas de fogo teu
por entre as frestas
do gelo que te cercava num cais
em chamas de vazios.
O nosso grito não será diluído
na geometria do sonho, recíproca,
voará com o nosso sangue inscrito.
 
Jaime Portela

quinta-feira, 9 de junho de 2016

O que sentimos [073]


 

O que sentimos
não deixa que a chuva nos molhe,
não tem dentes
porque é por dentro que nos abriga.
O malmequer da saudade
não nos devasta,
não nos desgasta,
porque atrai borboletas sem unhas.
As palavras que dizemos
não são navalhas,
são pétalas
que escanhoam a tristeza pela raiz,
são enxadas que nos mostram
as ervas daninhas
do nosso caminho roçadas.
Os beijos que trocamos
não se estranham,
são lampreias
que desovam no rio onde nascemos.
O pasto do teu corpo
é uma fogueira
onde o meu corcel se alimenta,
a galope,
de crina em riste, altaneira.
O mar do meu corpo corsário
é pelo teu barco domado,
és navegante sem precisar de remar,
rasgas marés vivas, pirata,
até à gávea do mastro.
 
Jaime Portela

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Os nossos dias foram expulsos do tempo [072]


 

Os nossos dias foram expulsos do tempo
e não se corrompem
na noite da distância envidraçada.
         O escuro não existe no teu corpo
         e a luz perdura no meu peito.
 
Os nossos dias não serão colados por vazios
nem cosidos por contínuos tracejados,
porque encheste os olhos de mim,
já ocupado por ti
sem vidro nos telhados.
 
Os nossos dias, memoriais da paz coabitada
sem começo aparente,
são exteriores aos compassos do tempo
e estão presos à liberdade sem hiatos.
         São datados os teus finitos sinais
         como num coito vestido de infinito.
 
Jaime Portela

quinta-feira, 26 de maio de 2016

A minha imagem real [071]


 

A minha imagem real
anda do corpo arredia, fugidia.
Não a vejo, não a toco,
escorrega-me dos dedos
qual enguia libertina.
Não a domino, a vadia.
Cata-vento e dançarina,
mostra-se sempre diferente,
muda de cor, de feitio,
de tamanho e de feição
a cada olhar que pressente.
Estou a pensar que a travesti
é obra alheia e não minha.
Por isso,
não presumam como certos
os retratos que vos dou.
Inacabados e toscos, nenhum
deles me revela por inteiro
e nem eu sei o que sou.
 
Jaime Portela

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Não adormeças verde [070]

 

 
Não adormeças verde
à sombra de palavras rosa,
nem de branco procures
frutos coloridos
com o círio da tua fantasia.
Não bebas o som multicor
que se liberta da forma,
como se ele pudesse lapidar
a desordem azul da tua vida.
O verso, mal dissecado,
é avesso à perceção,
ao sentir,
já que a lira te dá apenas
um serenar movediço.
Uma cor deformada
é pior que uma tormenta,
pode dourar horizontes do porvir
como um anjo imaginário.
Não te escondas,
esquece o escrito e descobre-te
na respiração do inscrito,
pois quase nada
do que é dito é transparente.
 
Jaime Portela
 

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Deixei de ver nos teus lábios [069]


 

Deixei de ver nos teus lábios
a madrugada
e de respirar um segredo.
Já não leio nos teus olhos
nenhuma certeza
e abraço a espessa fronteira
que sangra de ausência.
Ainda que desassossegados
da mesma poesia sem muros,
mas com tijolos ternamente diferentes,
fomos iguais nas paredes de pele
que arquitectamos tocar.
Mas deixámos de querer
cascas ruidosas no ar,
capazes de provar
a duração efémera do universo.
Ensurdecido pelo trovão
de um contentamento que se desfez,
agora inalo a futura nicotina,
o meu anestésico
na mutação das margens destruídas.
 
Jaime Portela

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Há mãos vazias que partem do cais [068]


 

Há mãos vazias que partem do cais,
apressadas,
fugindo em naus que sulcam águas
de brandura na querença da chegada,
cavadas na crença de rasgarem, destemidas,
quaisquer vagas alterosas
que à proa do desígnio se acostem.
Há barcos velhos ancorados
numa enseada de mar traiçoeiro
a encarecer os sonhos,
mal estivados e a zarpar sobrelotados,
na maresia da flor de sal espraiados
de tão arpoados no sangue.
Há vontades acossadas de partir e de ficar,
de ser pássaro migrante e sedentário,
de passar a vau para a outra margem
sem percorrer todo o rio de gente que sufoca.
Haverá limbos verdejantes e fanfarras
que desfraldem cantilenas de braços abertos
no porto de abrigo à chegada?
Ou apenas umas tábuas
para os afogados que derem à costa?
Porto de uma razão e timoneiros da desgraça,
vão na esteira de outras partidas
numa rota vezes de mais naufragada.
 
Jaime Portela

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Atiro no primeiro que falar [067]


 

Entro armado no palco e grito:
- Atiro no primeiro que falar.
Faz-se silêncio. As luzes acordam,
encarniçam-se e procuram o homicida
na minha fronte de amante suicida.
Declaro-me, exponho-me, mostro-me.
Não me defendo, estou inocente
mas lanço granadas de fumo.
O drama e a trama, sem ponto,
são metáforas polimorfas esboçadas
à luz de espelhos curvos da memória.
Ela entra em cena,
duplicada de mel e fel suplicantes:
- Faz-me tua… ou MATA-ME…!
Acaricio as suas formosuras, trapos vivos
atados ao anzol para engodar peixes famintos,
levanto a pele de um fruto proibido
e devoro a polpa até ao tutano.
Ouvem-se rumores…
- Atiro no primeiro que falar.
Faz-se silêncio de novo. Ela fica com aquele
olhar cortejado, diria maroto, de um qualquer
filme mudo de animatógrafo obsoleto,
que é apenas o olhar simples e intrincado
de mulher desarmada, que tanto irrita
outras mulheres por saberem que esse olhar
perturba espectadores-homens, de olhos,
mãos e nariz insolentes,
habituados a avaliar os melões apenas pela casca.
A serpente, já entorpecida, agora num
êxtase melancólico de leoa empanturrada:
- Faz-me tua… ou mata-me…!
E eu, todo nu, sem deixa que me valha:
- Atiro no primeiro que falar.
O pano cai de repente. Na plateia
morrem olhos a procurar uma serpente.
 
Jaime Portela