De fogosa e surreal,
tal como a carta astrológica antecipava
(censurado para menores de 18)
a ocasião foi sagrada.
O corpo claro do sonho,
imerso em primaveras inimagináveis,
fazia acabar a ideia agreste
do desperdício da vida.
Tudo renascia, apesar do engano,
como se antes houvesse
algo mais pesado que algodão.
Adivinhar o porvir é uma perda de tempo,
há sempre um nevoeiro
que se infiltra no cérebro
e o futuro sabe a passado, até a bolor.
Logo, no desencanto de afinidades,
os rios passaram a chorar por osmose,
num orvalho sem cloreto de sódio
ao som de uma melodia indistinta
de flores à procura do sol.
As nossas sortes,
polichinelos que a cáfila cuspiu,
são tiros remotos no escuro,
penumbras fugazes,
sonhos inacabados
sem que haja um deus que os salve.
Mas houve um lado saudável:
os silêncios consagraram de real
o navio que zarpou do cais
e não mais foi avistado um regresso.
E o vapor do ser, ilacrimável,
desenroupou os limites do nada,
sobrevivendo apenas a tristeza
das águas dormentes da ausência.
Milagre, só se voltares,
mas os ventos dizem
que nunca mais chegará qualquer nau
e os pombos do teu correio
ficaram sem GPS nas asas.
Pensa em mim e Deus talvez acorde
por ser em mim que tu pensas.
Talvez eu descanse, talvez eu esqueça.
Entretanto, vou queimar o horóscopo.
© Jaime Portela, Março de 2026
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