Translater

segunda-feira, 16 de março de 2026

O horóscopo [659]



De fogosa e surreal,

tal como a carta astrológica antecipava

(censurado para menores de 18)

a ocasião foi sagrada.

O corpo claro do sonho,

imerso em primaveras inimagináveis,

fazia acabar a ideia agreste

do desperdício da vida.

 

Tudo renascia, apesar do engano,

como se antes houvesse

algo mais pesado que algodão.

Adivinhar o porvir é uma perda de tempo,

há sempre um nevoeiro

que se infiltra no cérebro

e o futuro sabe a passado, até a bolor.

 

Logo, no desencanto de afinidades,

os rios passaram a chorar por osmose,

num orvalho sem cloreto de sódio

ao som de uma melodia indistinta

de flores à procura do sol.

 

As nossas sortes,

polichinelos que a cáfila cuspiu,

são tiros remotos no escuro,

penumbras fugazes,

sonhos inacabados

sem que haja um deus que os salve.

 

Mas houve um lado saudável:

os silêncios consagraram de real

o navio que zarpou do cais

e não mais foi avistado um regresso.

E o vapor do ser, ilacrimável,

desenroupou os limites do nada,

sobrevivendo apenas a tristeza

das águas dormentes da ausência.

 

Milagre, só se voltares,

mas os ventos dizem

que nunca mais chegará qualquer nau

e os pombos do teu correio

ficaram sem GPS nas asas.

Pensa em mim e Deus talvez acorde

por ser em mim que tu pensas.

Talvez eu descanse, talvez eu esqueça.

Entretanto, vou queimar o horóscopo.

 

© Jaime Portela, Março de 2026

Sem comentários: