Algures onde a minha inquietação, sem o saber,começava a germinar,descobri a pardalita quase sitiada, a esvoaçar,das sombras tenebrosas a escapar-se.Já eu mergulhava na intangível fantasia quando ela,inábil ou visionária, se afastou do seu altare pousou a saltitar na mão que lhe estendi,desconhecendo ser o ninho que há muito ansiava.Acalentada e amparada, abdicou da partida, ofegante,exausta de iludir a sua ave de rapina.Enquanto repousava, agitada, salpiquei-acom chuviscos refrescantes,murmurados na inquietude que então me assaltou.Mas nunca mais lhe vi intento de empenharas suas asas para voltar ao ponto de partida.Agora, dorme comigo, as suas penasdescansam no peito do meu entendimento.
Translater
sexta-feira, 12 de junho de 2015
Pardalita [024]
quinta-feira, 4 de junho de 2015
Quero o teu corpo [023]
Vejo o teu corpodeitado no ar que respirohumedecido de estrelas.Sinto o teu corpode luar que me incendeiano frio da insónia.Ouço o teu corpoAo sol e à chuva, que afago baixinhoCom mãos de guitarra.Cheiro o teu corpotépido e branco, que me inebriacom pérolas vivas.Provo o teu corpooásis de mim, que ocupo sedentocheio de água da paz.Quero o teu corpoda alma trajado, que anseio ditosoe arrebatado.
quarta-feira, 27 de maio de 2015
Cansado das palavras [022]
Cansado das palavras,saí da tua pintura e abracei-te.Puxaste-me para ti,espaço esmaltado num pedestalque ansiava descer para o meu.Para trás, nesse preciso momento,ficou a construção,traço a traço, dos alicercessobre os quaishasteámos a nossa bandeira.Hoje,das janelas do nosso castelo altaneiro,olhamos os frutosde uma planície verde e sem nuvens,uma tela feita de nós próprios.
terça-feira, 19 de maio de 2015
De tanto te querer [021]
De tanto te querer,sou estorvo de mim mesmo.Perco-me por atalhos sem espelhos,agito águas imprópriaspara a tua naue sorvo as minhas próprias armadilhas.Ao tecer este incauto abalroarem tais ínvios azimutes,onde o trivial seria naufragarcom os bolsos repletos de chumbo,sei que serei salvo pela vozdo teu farol benevolente, que me atraie perdoa sem que eu resista à sua luz.Embrulhar-me nas ciladase salvares-me deste meu distraído desacerto,é um perigo com o risco de quebraruns quantos fios nas amarrasque nos atam livremente,mas também é o fruir antecipadoda entrega remoçadae o reforço, experiente e libertário,da alargada e perene (re)união.Mas o desígnio é de emenda:procurarei, a todo custo, fugir às emboscadasdos trejeitos desusados, para que, assertivos,possamos comer o teu arroz sossegados.
quinta-feira, 14 de maio de 2015
Jamais [020]
Jamaisme inquietaria, alvoroçado,com a chuva açucarada dos teus olhos,quais gruasque me alteiam quietudesnum mar de mansas ondas de paixão.Porém,não ficam quedas, no teu corpo,as mãos que enlouquecem quando acendoo fogo do desejo,a crepitar,nos poros que um a um te vou bebendo.Porquanto,em mim, do teu sorriso alado,habita a cidadela que te abrigana paz fortalecida,que revejo,a cada beijo mais enamorado.
terça-feira, 5 de maio de 2015
A tua voz [019]
Ouvir a tua vozÉ comerFrutos silvestres acerejados de melEspalhados no teu corpo.Adormecer na tua vozÉ fundirA nossa pele no olhar que me agarraA cada onda de prazer.Acordar na tua vozÉ a certezaA desnudar a criança de incertezasNo teu fogo de mulher.
sábado, 25 de abril de 2015
Promessa [018]
Quebrámos as convençõesque tolhiam a nossa liberdadecom a coragemde um touroe a naturalidadedos cravos,com a promessa de continuarmos a decifraro gozo essencial do sonho,e de, nele mesmo,nos mantermos mergulhados,com a certezade abraçarmos a lembrançaque nos fará entoarcantos à madrugada do agoraem concertos de liberdade para o futuro.
quinta-feira, 16 de abril de 2015
Acordei [017]
Acordei, nos teus lábios,a língua das minhas falhas embaraçada,arrependida.No meu cérebro, o sol explodiu libertadonum mar de estrelas que te dei,para lavarmos,crianças, as tuas mágoas sofridas.Percorri-te o corpo do meu descuido sentido,devolvi-te o brancopara que regressasses à pureza original.Ansiaste, então, pela entrega abandonada,numa sinfonia indestrutível de sons,que preservaremos,sem estigmas, em sinopses do porvir fortalecido.
sexta-feira, 10 de abril de 2015
Olhares [016]
Olhocomo quem nasce docemente,cercado por névoas que se consomemà medida que as lemos devagar.Olhocomo um aprendiz, no seu espanto,a primeira mulher que vê nua,lembrando-se da imagem para sempre.Olhosem medo de ser acusado,vazio da predição da maldadeaté que o verbo dobre insinuante.Olhocomo um faminto do excesso,para a força que em ti é sedutorae vestida com uma formosura alucinante.
sábado, 4 de abril de 2015
A feiticeira [015]
Por vezes, passo noites de sonoa lutar no meio de tumultos de giestas.Elas esfolam-me, arranham-me,aturdem-me os tímpanos, cegam-me.Tento escapar a correr como um louco,mas dou comigo, confuso e esbaforido,no poço das feiticeiras,sítio assombrado da meninice perdida.A erva, alegre como um pardal, embala-mea pele, que fica sarada, sem marcas,ao som de um poema sinfónico de Strauss,abraçado de imagens tão deslumbrantescomo as dos Cem Anos de Solidão.Então, sinto a leveza dos teus poros,ouço a tua cristalina voz, maviosa, e vejogolfadas de luz brotando de ti.Já sei, é tudo obra tua enquanto durmo,minha feiticeira.
Subscrever:
Mensagens (Atom)