Translater

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

As palavras que eu te disse [043]



As palavras que eu te disse,
solistas no contraponto
de ventos insuflados de ternura,
são arbustos que cresceram no teu peito,
convertendo-se no denso arvoredo
do bosque dos nossos silêncios.
A ausência das tuas palavras,
num corpo boleado
de crenças em lenta combustão, há de ser
o espigar da embriaguez indecisa do teu ventre,
onde o sol reinventará
a tua alma de amante em lençóis de estrelas
enamoradas pela tua pele celeste.
Continuo a ver-te árvore,
mas corro o risco de te confundir com a floresta
que nos rodeia em chamas,
que te incendeia, que me queima,
devagar, neste Verão que tarda em acabar.
 
 

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

No compasso do teu corpo [042]



No compasso do teu corpo, afogas-me de mel
quando percorro os teus lábios
e arrastas-me até ao luar, que nos molha
em beijos com bocas de fome há muito plantadas.
 
Abandonas-te no que me perde e sou colo da tua
flor orvalhada de pássaro mulher, que ocupo
como o vento a afagar a delicada seara até que
as sementes fiquem maduras nos motins do teu olhar.
 
Morres no que me nasce e te invade no calor
desnudando os teus segredos,
entregues à descoberta sempre nova a cada chama,
a cada gesto de alma e coração desmesurados.
                                                                    
Libertamos os humores do nosso sangue,
detonados em clamores de fogo universal,
e adormecemos o sonho das nossas bocas
em conchinha de batel, de beijos de mel saciadas.


quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Sem pés de barro [041]



O barro de que és feita,
foi-se colando à minha pele.
Galgados os poros,
acariciou-me as quinas dos sentidos já dormentes.
O meu barro, por sua vez,
foi aderindo aos teus segredos
e aguou as tuas mágoas
para te moldares à mulher quase sem medo
dos medos de antigos sóis.
Modelámo-nos na roda de sol
do Verão da nossa fantasia de oleiros
e passámos a ser um querer
barrado pelo desejo
e pelo sabor agridoce da partilha de suores,
onde navegámos
em nuvens de algodão e barquinhos de papel.
Mas,
porque temos a força de dois oleiros em delírio,
vamos moldar de novo o nosso barro,
a quatro mãos,
nos corpos ardentes das nossas noites de Outono,
cozendo-o no altar, sem pés de barro,
da Primavera da vida.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Beijar-te [040]



Beijar-te,
será desvendar o gozo puro nos teus olhos
em berço largo fremente de candura.
 
Será entrar
no anel de fogo que inunda a tua carne
embriagada pela entrega com loucura.
 
Será reconhecer
aves intactas que voam
inocentes no sorriso delicado do teu rosto.
 
Será incendiar-te,
afogar-te o peito
levantado pelas chamas dos meus braços.
 
Será rasgar a minha fronte
para que a tua
se alague da nudez divinal que te habita.
 
Será sussurrar-te
palavras com rastilhos até que atices a pólvora
na desordem do meu grito sobre o teu.
Beijar-te,
será coabitar-te
até que eu morra a cada espasmo que te mate.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Brando povo [039]



Raro,
é atirarmos pedras ao lago adormecido,
onde navegamos à bolina
de ventos nem sempre verdadeiros.
Frequente,
é ninguém gostar [nem nós]
das ondas que felizes provocamos
na loucura mansa do sentir.
Dos naufrágios,
na espuma fátua dessas ondas reprimidas,
nem sequer somos capazes de salvar
a vertigem do sonho, a desmanchar-se.
Acorda brando povo,
porque, de brandos costumes,
mesmo num jardim à beira-mar plantado,
está o inferno mais que cheio.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Ainda era vivo o teu desassossego [038]



Ainda era vivo o teu desassossego,
em mim foste noviça,
nasceste pura num templo insinuado
de cachaça e cocaína.
Do mutismo das tuas ruínas,
foi brotando uma flor
que passou a olhar-me como um sol
na timidez do nascente.
De feição embaraçada e ausente de ti,
o teu corpo, despido de festa,
era uma derrocada imponderável.
Foi então que as minhas mãos,
num enlace inesperado,
te entregaram aquilo que era teu.
Vive, mantém o corpo e a alma
para sempre inseparáveis, reconciliados.


quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Sem chave nem relógio [037]



Sem chave nem relógio,
fechamos o nosso tempo,
completamos o que ficou incompleto.
Mas viverei com esse tempo,
ainda que ele me habite inacabado.
Ficará guardado
no baú das minhas joias de corsário,
até agora estranhamente devoluto.
Predadores e presas,
fomos vencidos,
subjugados,
mas também tornados livres
para depois desse tempo viver outras virtudes,
porventura outros pecados.
A chave desse baú,
trago-a no bolso,
para o abrir no futuro
sempre que de saudade
me quiser encantar empanturrado.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Acredito em ti [036]



Sem o pedir,
desvendaste-me as feridas dos teus olhos.
Na tua boca,
adivinhei um corpo de mágoas
a precisar de abrigo no aconchego da madrugada
[à nossa espera quieta, alucinante].
Num impulso, senti que gostaria
de esperar o tempo
com o rosto parado no teu peito de mar e tristeza,
de ouvir as ondas de lobos-marinhos do teu sangue,
de envolver com o meu sossego, feito leme,
a tua candura de nuvem à deriva
[presa na ilha que te cerca],
de te amar sobre as pedras da tua praia,
tornando-as areia.
Acredito em ti, porque amanhã,
se não tiveres a quem desvendar as feridas dos teus olhos,
sei que vais saber como sorrir para ti própria.


quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Canta [0035]

 

Canta, porque conheces o aroma do teu mar
nas asas do Pégaso que me habita
banhado pelo vento colorido do teu sal.
Dança, porque adormeces anjo
no leito de fogo das minhas vigílias,
urdido de estrelas sonhadas para ti.
Voa, porque a saudade morrerá, continuamente,
para lá da eterna praia do castelo onde sorrimos.
 

 

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Calendário de prisioneiro [034]



Até que o teu corpo claro me abrace leão,
enquanto as nossas mãos
voam através das paredes nas asas do beijo original,
temos os pulsos atados em brando lume de sol
pelos sóis que ainda faltam.

Enquanto espero,
vou fazendo cruzinhas num calendário de prisioneiro,
emoldurando em chamas de saudade
o cintilar de cada noite numerada
à medida que as tuas asas te aproximam do ninho.

Mas nesta espera de pulsos, cruzinhas e ninhos,
descobri que as noites não são escuras
porque tenho um calendário pendurado na parede
onde, todos os dias,
acredito que não farei mais cruzinhas.