O amor é, porventura,
o resultado
de uma longínqua influência religiosa.
É uma indumentária tecida pela imaginação
para ornamentar outros seres
em que o nosso pensamento se convence
que o enfeitamento lhes serve.
Mas não há roupagens eternas e,
mais cedo ou mais tarde,
debaixo do traje da ideia que fizemos,
que se evapora,
vemos a nudez da realidade do ser humano.
O amor, então,
é uma vereda para o desencanto,
que só não o é
se determinarmos mudar de fantasia
a cada passo
para que se atualize a aparência
do ser por nós vestido.
Na verdade, nunca amamos,
amamos o conceito que temos de alguém.
© Jaime Portela, Março de 2025