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segunda-feira, 22 de junho de 2026

Memórias gustativas [674]

 


Sentado no sofá,

com um copo de uísque na mão, sou rico.

Mas se o copo tiver água,

volto à infância onde quase tudo era pobre.

As prédicas eram feitas à base de proibições,

como faltar à missa, comentar a política

ou dizer mal do senhor professor,

do senhor padre ou do senhor regedor.

Aos senhores, todo o respeito era pouco.

 

Uma mera guloseima

pode desconjuntar-me os vigores

com a intemperança de memórias que os sacode.

Se na minha língua escorrega

o leite-creme dourado,

revivo os tachos de cobre da minha avó,

as corridas com os carrinhos de lata

ou as proezas com os barcos à vela

feitos com a casca grossa dos pinheiros.

 

O chocolate, talvez por ser negro,

transporta-me à lenda e às tréguas

da guerra entre cristãos e turcos

onde o casamento, ao som da contradança,

do rei mouro com a Floripes,

irmã de Ferrabrás,

finalmente enganou e sossegou Oliveiros

e o imperador Carlos Magno.

 

Mas é o maldito cigarro

que me restaura estados idos,

que me lava de azos mortos

e me branqueia de paz certos momentos

enquanto, paulatinamente,

me enegrece por dentro.

 

© Jaime Portela, Junho de 2026


38 comentários:

Pedro Coimbra disse...

Deixar o cigarro só tem um segredo - força de vontade.
Falo por experiência própria e por inúmeros exemplos de amigos.
Força de vontade.
Sem medicação, sem substituto, sem nada.
Um abraço, boa semana

Luiz Gomes disse...

Bom tarde meu querido amigo e poeta Jaime. O Brasil tem uma curiosidade, somos cortados pela linha do Equador. Temos uma capital brasileira, chamada Boa Vista, ela está no Hemisfério Norte, está no Verão, as demais capitais brasileiras, estão no inverno. Uma excelente tarde de segunda-feira, para você e todos os seus familiares em Portugal e um grande abraço do seu amigo carioca.

São disse...

Verdade, as memórias aparecem , por vezes, em momentos inesperados...

Felizmente, deixei de fumar há mais de vinte anos... e nem me foi muito difícil. Espero sinceramente que consigas!

Abraço, alegre Verão :)

Cláudia disse...

Forte e interessante.
Gostei.

Boa semana

Nal Pontes disse...

Oi Jaime, que bom vim no seu cantinho. Amei a poesia cheia de Criatividade. Parabéns. Um abraço

chica disse...

Muito linda tua poesia,Jaime! E temos tantas memórias gustativa ! Boas as que remetem à infância...abraços, linda semana,chuca

ematejoca disse...

É fascinante como a nossa memória sensorial funciona como uma verdadeira máquina do tempo. O contraste que descreve é profundo: o uísque representa o sucesso material do presente, enquanto a simplicidade da água ou o sabor do leite-creme ativam uma riqueza emocional e nostálgica que o dinheiro não consegue comprar.

Abraço das margens do Rio Douro.

Emília Simões disse...

Boa tarde Jaime,
Um poema magnífico em que as memórias sensoriais estão bem presentes!
Todos nós em alguns momentos somos transportados para tempos idos, de boas memórias, pelo menos as afetivas.
O cigarro, esse maroto, nem sei que lhe diga!
(Por exemplo: comece por deitar fora 1 cigarro/ dia). Será que resultará?
Beijinhos e uma boa semana.
Emília

AMALIA disse...

Siempre nos regalas muy buenos y bellos poemas.
Un placer su lectura.
Feliz semana.
Un abrazo.

Lucimar da Silva Moreira disse...

É melhor um copo de água e ser pobre do que um copo de uísque e ser rico, a bebida leva a pessoa para um abismo sem fim, Jaime desejo uma ótima semana abraços.

Lucia disse...

Olá caro Jaime.
Essas memórias são os nossos tesouros.
Adorei seu poema, viajei nessas palavras.
Senti saudades de quando realmente se vivia.
Parabéns meu amigo poeta.
Boa semana.
Beijo!

J.P. Alexander disse...

Me gusto mucho tu poema. Te mando un beso.

VILMA ORZARI PIVA disse...

Olá, amigo poeta Jaime,
Que belo poema nos transportando às doces memórias gustativas e também reacendendo através do paladar momentos que se eternizaram em nós.
Parabéns pela inspiração.
Tenha uma ótima semana.
Beijos!

Roselia Bezerra disse...

Amigo Jaime, boa noite de Paz!
Todos temos boas lembranças em muitos quesitos, os que não são bons, eliminamos que seja aos poucos para o nosso bem.
Poema muito bem construído.
Tenha dias abençoados!
Abraços fraternos

TORO SALVAJE disse...

La memoria despierta con objetos, gustos, sonidos...
Buen poema.

Saludos.

Marta Vinhais disse...

Há sabores que enchem as memórias, fazem com que se reviva novamente os sonhos de infância...
Beijos e abraços
Marta

Marisa Alonso Santamaría disse...

Hola, Jaime.
Para mí un vaso de agua fresquita cuando tenía sed, de lo mejor de mi infancia. Piensa que hay lugares en los que ni siquiera tienen agua...
Un abrazo muy fuerte y feliz día.
Por favor, dime si te sale última mi entrada. ¡Gracias!

Mário Margaride disse...

Olá, amigo Jaime.
Poema muito interessante aqui nos traz. Lembranças passadas e memórias presentes. Onde estes valores muitas vezes ainda se cruzam, para a nossa inquietação.
Deixar de fumar não é assim tão difícil. Basta o querer e a força de vontade.

Gostei bastante. Parabéns!

Abraço e boa semana.

Mário Margaride

Adriana Helena disse...

Seu poema me fez voltar à infância, à casa da vovó, principalmente quanto aos tachos de cobre e o respeito nas missas dominicais.
Mas tenho certeza que o cigarro em breve será abolido para a restauração da saúde!! Vai dar tudo certo!!
Linda semana Jaime!! :))))

© Piedade Araújo Sol (Pity) disse...

Boa tarde JP
Um poema de forte carga evocativa, onde os sabores e os aromas funcionam como chaves que abrem as portas da memória.
Gostei particularmente da forma como o quotidiano mais simples, um leite-creme, um chocolate ou um cigarro, desencadeia viagens entre a infância, as tradições e as marcas do tempo.
Um texto sensível e reflexivo, que nos recorda como certas memórias permanecem vivas nos sentidos muito depois de tudo o resto ter mudado.
Belo trabalho poético!
Boa semana com saúde e paz.
:)

Antônio Lídio Gomes disse...

Que poema extraordinário e de uma construção primorosa, Jaime. O amigo consegue, através dos sentidos, abrir portais para o tempo, costurando a maturidade presente com os fios dourados e as sombras da infância. O título é de uma precisão cirúrgica, pois o corpo não esquece o que a alma viveu. Parabéns, um fraterno abraço.

brancas nuvens negras disse...

Recordar os momentos de prazer é tempo bem utilizado.
Um abraço.

Eduardo Medeiros disse...

As boas memórias devem ser cuidadas com carinho.
Certos objetos possuem esse poder de nos conectar diretamente com algum ponto do nosso passado. Eu, por exemplo, viajo na hora à infância quando pego nas mãos uma lata de leite condensado.

abraços

Silent Movie - ©Theda Bara disse...

Thank God I haven't acquired any vices in my life. But I remember my maternal grandfather smoking cigars daily. I don't recall if he smoked more than one a day. But the house had that characteristic smell, and whenever I smell cigars, I remember him.
(ꈍᴗꈍ) Poetic and cinematic greetings.

Jaime Portela disse...

Tradução: Graças a Deus não adquiri nenhum vício na minha vida. Mas me lembro do meu avô materno fumando charutos diariamente. Não me lembro se ele fumava mais de um por dia. Mas a casa tinha aquele cheiro característico, e sempre que sinto cheiro de charuto, me lembro dele.
(ꈍᴗꈍ) Saudações poéticas e cinematográficas.

Olinda Melo disse...

Aquilo que saboreamos na infância volta sempre na nossa vida adulta.
É o arroz doce, o café com leite, o pão com manteiga, enfim, um sem-número de sabores que nos assaltam e nos fazem lembrar momentos bons e outros nem sempre agradáveis.
Pela vida vamos ganhando outros
hábitos. Há pessoas que se acalmam fumando um cigarro...
Grande abraço, caro Jaime.
Olinda

Maria Rodrigues disse...

Profundo e belo poema.
São tantas as memórias que guardamos no coração e por vezes, basta um cheiro, um som, ou um sabor para nos levar até ao passado.
Quanto aos cigarros, o melhor é viver sem eles, fazem mal à saúde e à carteira.
Beijos

Garfield disse...

Todos os meus vícios estão relacionados à comida e, como comer me dá sono, também sou viciado em dormir. rsrsrsrs

Nova Tirinha Publicada. 😼

Abraços 🐾 Garfield Tirinhas Oficial.

Olavo Marques disse...

Olá talentoso Jaime! A sua poesia tem o dom particularmente interessante de mexer com os nossos sentidos. Descreveu muito bem como um simples sabor nos consegue transportar instantaneamente no tempo, despertando memórias tão vivas da infância. Parabéns por mais uma excelente escrita! Forte abraço. 🤗

Malania Nashki disse...

Hola Jaime. Los recuerdos de cuando éramos niños no se podrán olvidar. El chocolate caliente, en la taza que teníamos que llevar cada uno de los alumnos de la escuela primaria los días festivos, con un bollo relleno con dulce de membrillo y cubierto con crema pastelera, comprados o donados por la panadería del pueblo. Ese chocolate espeso, muy rico y que en casa no salía igual.
Y tantos otros recueros como los varenekis de ricota de la tía Irena, o el pan de miel de abejas de la tía María.
Que tengas muy buen día.
Abrazo enorme. Un beso.
Buen fin de semana.

Larissa Pereira dos Santos disse...

Olá Jaime
Amo memórias
Ainda mais com coisas de comer
Lembro de bolo de fuba cremoso
Que minha vó fazia.
Obrigada por compartilhar essa maravilha
Abraço

SOL da Esteva disse...

A Memória e as Memórias são a ligação que nos tem na Vida.
Num momento, nos tornamos crianças na imaginação.
Excelente, Jaime. Um Tratado sobre as Memórias.


Abraço,
SOL da Esteva

Mário Margaride disse...

Olá, amigo Jaime.
Passando por aqui, para desejar um feliz fim de semana, com tudo de bom.

Abraço de amizade.

Mário Margaride

http://poesiaaquiesta.blogspot.com
https://soltaastuaspalavras.blogspot.com

Pedro Luso de Carvalho disse...

Olá, amigo Jaime, a excelência deste seu poema
é uma amostra do talento do poeta.
Um poema com suas lembranças digno de nossos aplausos.
Votos de um ótimo domingo, com muita paz e saúde.
Grande abraço.

Fá menor disse...

E, no entanto, um simples copo de água, cristalina e pura da fonte, depressa se tornou um luxo inacessível a poucos...

Beijinhos, amigo Jaime! Tudo de bom!

Anna Lucia P Gadelha disse...

Esse poema trabalha um tema muito bonito: a memória despertada pelos sentidos. Cada objeto cotidiano — o uísque, o leite-creme, o chocolate e o cigarro funciona como uma chave que abre uma porta para o passado. A linguagem é simples, mas carregada de simbolismo. Magnífico!! Abraços

❦ Leoa ❦ disse...

Teu poema toca fundo pela maneira como transforma sabores, cheiros e pequenos hábitos em passagens vivas da memória.
Há uma melancolia elegante em cada verso, como se a infância permanecesse escondida dentro de cada gesto cotidiano, pronta para despertar ao menor sinal.

Achei especialmente belo o contraste entre o uísque e a água — um simples detalhe que abre um abismo entre o homem do presente e o menino das origens humildes.
Isso dá ao texto uma força humana imensa.

Também me encantou a forma como as lembranças surgem carregadas de imagens antigas: os tachos de cobre, os carrinhos de lata, os barcos improvisados… tudo tão visual e afetivo que parece desfilar diante dos olhos do leitor.

E o final é magistral.
O cigarro aparece quase como um velho cúmplice da memória: consola, resgata, acalma… enquanto destrói silenciosamente por dentro.
Um fechamento intenso, reflexivo e dolorosamente verdadeiro.

FORTE ABRAÇO
Poema lindíssimo, cheio de identidade, memória e sensibilidade.

Eros de Passagem disse...

Quantas lembranças guardam o narrador e quantas evocam no leitor uma vez que o poema explora como os sentidos despertam a memória afetiva. Os líquidos, uísque e água; as proibições e as autoridades; os doces e os brinquedos; o chocolate e imaginação; o cigarro e a dualidade. Beleza de poema, meu caro poeta!
Um abraço,