Sentado no sofá,
com um copo de uísque na mão, sou rico.
Mas se o copo tiver água,
volto à infância onde quase tudo era pobre.
As prédicas eram feitas à base de proibições,
como faltar à missa, comentar a política
ou dizer mal do senhor professor,
do senhor padre ou do senhor regedor.
Aos senhores, todo o respeito era pouco.
Uma mera guloseima
pode desconjuntar-me os vigores
com a intemperança de memórias que os sacode.
Se na minha língua escorrega
o leite-creme dourado,
revivo os tachos de cobre da minha avó,
as corridas com os carrinhos de lata
ou as proezas com os barcos à vela
feitos com a casca grossa dos pinheiros.
O chocolate, talvez por ser negro,
transporta-me à lenda e às tréguas
da guerra entre cristãos e turcos
onde o casamento, ao som da contradança,
do rei mouro com a Floripes,
irmã de Ferrabrás,
finalmente enganou e sossegou Oliveiros
e o imperador Carlos Magno.
Mas é o maldito cigarro
que me restaura estados idos,
que me lava de azos mortos
e me branqueia de paz certos momentos
enquanto, paulatinamente,
me enegrece por dentro.
© Jaime Portela, Junho de 2026
15 comentários:
Deixar o cigarro só tem um segredo - força de vontade.
Falo por experiência própria e por inúmeros exemplos de amigos.
Força de vontade.
Sem medicação, sem substituto, sem nada.
Um abraço, boa semana
Bom tarde meu querido amigo e poeta Jaime. O Brasil tem uma curiosidade, somos cortados pela linha do Equador. Temos uma capital brasileira, chamada Boa Vista, ela está no Hemisfério Norte, está no Verão, as demais capitais brasileiras, estão no inverno. Uma excelente tarde de segunda-feira, para você e todos os seus familiares em Portugal e um grande abraço do seu amigo carioca.
Verdade, as memórias aparecem , por vezes, em momentos inesperados...
Felizmente, deixei de fumar há mais de vinte anos... e nem me foi muito difícil. Espero sinceramente que consigas!
Abraço, alegre Verão :)
Forte e interessante.
Gostei.
Boa semana
Oi Jaime, que bom vim no seu cantinho. Amei a poesia cheia de Criatividade. Parabéns. Um abraço
Muito linda tua poesia,Jaime! E temos tantas memórias gustativa ! Boas as que remetem à infância...abraços, linda semana,chuca
É fascinante como a nossa memória sensorial funciona como uma verdadeira máquina do tempo. O contraste que descreve é profundo: o uísque representa o sucesso material do presente, enquanto a simplicidade da água ou o sabor do leite-creme ativam uma riqueza emocional e nostálgica que o dinheiro não consegue comprar.
Abraço das margens do Rio Douro.
Boa tarde Jaime,
Um poema magnífico em que as memórias sensoriais estão bem presentes!
Todos nós em alguns momentos somos transportados para tempos idos, de boas memórias, pelo menos as afetivas.
O cigarro, esse maroto, nem sei que lhe diga!
(Por exemplo: comece por deitar fora 1 cigarro/ dia). Será que resultará?
Beijinhos e uma boa semana.
Emília
Siempre nos regalas muy buenos y bellos poemas.
Un placer su lectura.
Feliz semana.
Un abrazo.
É melhor um copo de água e ser pobre do que um copo de uísque e ser rico, a bebida leva a pessoa para um abismo sem fim, Jaime desejo uma ótima semana abraços.
Olá caro Jaime.
Essas memórias são os nossos tesouros.
Adorei seu poema, viajei nessas palavras.
Senti saudades de quando realmente se vivia.
Parabéns meu amigo poeta.
Boa semana.
Beijo!
Me gusto mucho tu poema. Te mando un beso.
Olá, amigo poeta Jaime,
Que belo poema nos transportando às doces memórias gustativas e também reacendendo através do paladar momentos que se eternizaram em nós.
Parabéns pela inspiração.
Tenha uma ótima semana.
Beijos!
Amigo Jaime, boa noite de Paz!
Todos temos boas lembranças em muitos quesitos, os que não são bons, eliminamos que seja aos poucos para o nosso bem.
Poema muito bem construído.
Tenha dias abençoados!
Abraços fraternos
La memoria despierta con objetos, gustos, sonidos...
Buen poema.
Saludos.
Enviar um comentário