Translater

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Somos enfermeiros das nossas fronteiras [210]



Ensombrados pelos archotes
no útero de uma chuva de insensibilidade
(imensa, seja grossa ou miudinha)
prenhe de guelras falaciosas e fados,
somos carcereiros do paiol
e praças-fortes de éticas que esvoaçam
e em mil sóis apenas nos deslumbram.
Guardiães das ameias vazias,
empunhando bisturis estranhos ao tempo
onde nos sitiamos,
somos donos e videntes,
somos enfermeiros das nossas fronteiras,
alamedas de encantos
laureadas por suspiros de valores penhorados.
Apesar da madraça labuta,
temos o cinzeiro da noite,
onde, zelosos, nos lavamos do lodo
e da greve de cinza do dia,
onde afugentamos o cigarro
da vergonha esquecida entre os dedos
e onde o nosso feito desfeito é defecado.


© Jaime Portela, Fevereiro de 2019


quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Não sou marinheiro [209]



Não sou marinheiro, mas,
se for preciso,
serei o mais ousado pirata
a saquear uma galé.

Com um golpe seco,
serei capaz de rebentar
amarrações e retenidas malfazejas.

Irás a bordo comigo
para as ilhas livres de liames,
onde verás o Fogo de Santelmo
nos mastros de velas enfunadas.


© Jaime Portela, Janeiro de 2019


quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Um clarão [208]



Um clarão,
talvez um murro
ou um sussurro
apreendido a colar-se no meu zelo
antes distraído.

Ou então

Um vagão, dois vagões,
um comboio
a passar,
a rolar por cima de mim
lavrando as suas marcas.

E eu

Um fruto nos teus dentes
às mãos do teu feitiço,
um prazer de doces
no existir
só apenas depois disso.


© Jaime Portela, Janeiro de 2019


quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Icei as velas no vento [207]



Icei as velas no vento
das ondas do meu desejo
levei comigo o lamento
de sentir o que não vejo.

Meti rumo ao teu porto
regressei sem me perder
perdi-me ao ver teu rosto
antes mesmo de o saber.

Abarquei-te numa vaga
fundeei-me no teu cais
nem um sorriso se apaga
ao leme que sempre vais.

Marinheiros de água doce
navegaremos tormentas
um mar aberto que fosse
no sonho que me acalentas.


© Jaime Portela, Janeiro de 2019


quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Elefantes bêbados [206]



Com a dúvida permanente, ficamos secos,
e, orvalhados na incerteza ou na ignorância,
tornamo-nos esfinges da desconfiança
e o que somos é um enigma para nós próprios.

Para andar em concórdia connosco,
ficamos em discórdia com os outros
e o contraditório chega a ser diabólico,
ainda que disso se possa fazer luz.

Por vezes, numa cegueira nisto curada,
vemos que atos, pensamentos
e o que temos sido, são tão voláteis
que nos espantamos do que fomos.

Se vemos que não somos o que pensávamos,
ficámos como elefantes bêbados
a espezinhar o que realmente somos
em vez de nos atirarmos à água da mudança.


© Jaime Portela, Janeiro de 2019


quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Para quê [205]



Para quê fugir-te se me encontras
sempre que queres
um amor a ferro e fogo de paixão?

Para quê esconderes-te
se não te sobrevivo na ausência
numa saudade futura de ti?

Para quê inventar se ao meu toque
o teu corpo estremece em poemas
submersos em regaços domingueiros?

Para quê iludir-me
se me tremem as mãos na tua pele,
aturdidas, ao enxergar a razão?

Para quê… se queremos
carícias desenhadas por todas as mãos,
sensatas e loucas, vadias e afáveis?

Para quê, então, tanta tortura,
se queremos noites quentes, desmedidas,
à medida do nosso encantamento?


© Jaime Portela, Janeiro de 2019


quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

O comboio da utopia [204]



Tecendo a maré, deambulamos
pelas nossas fantasias
a colorir sonhos de nuvens.
Embriagamo-nos
nos vapores de uma ilusão,
à chuva de um sorriso
num comboio com o freio nos dentes.
Pegamos numa estranha mão
e já o abraço é conhecido,
com o comboio, desgovernado,
a fugir-nos fora dos carris.
Inebriamo-nos com a aparência
de um sol, com o cérebro enganado
a apitar de alegria que nem um desalmado.
Navegamos nas águas
dos nossos devaneios
ao comando de um barco sem leme.
Afundamo-nos dentro do sonho
e caímos redondos, enganados,
sucumbimos ao naufrágio,
perdemos o pé na maré que tecemos.
Pouca terra, pouca terra,
será sempre pouca a terra firme
nos carris do comboio da utopia.


© Jaime Portela, Dezembro de 2018


quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Há sempre [203]



Há sempre um resto de noite
no caminho que se abate,
em névoa, a cada nova madrugada.
Há sempre um resto de tédio
inevitável que se imola, suicida,
no reparo da alvorada.
Há sempre detritos de sonhos,
em cada página, que se espatifam
antes do parto, no nada.
Há sempre lixo, do antes,
na via triste ou alegre
do hoje vivido ou sentido.
Há sempre rostos de nós
por toda a pátria não resolvida
de vontades teimosamente apátridas.
E há sempre um enorme vazio,
buraco negro de fado agoirento
dos sonhos não abarcados.



© Jaime Portela, Dezembro de 2018


quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Por entre risos [202]



Por entre risos de champanhe
da nossa conivência delatores,
assalta-me, na lareira de fogo,
o calor do teu olhar.

Na vertigem da árvore de luz,
aconchego-me numa consoada
com lembranças e desejos
de uvas passas.

E vou perdendo as mãos
a acrescentar pauzinhos
na fogueira do teu corpo.

Por fim, num mar de estrelas,
saboreio, na tua voz distinta,
a cereja no bolo-rei do desejo.


© Jaime Portela, Dezembro de 2018


quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Fotografia [201]



Fotogénica, posaste
de sorrisos sinceros maquilhada
a olhar o passarinho.
Em gestos de formiga diligente,
captei a tua imagem
no papel da nossa fantasia.
Com as mãos,
dei luz às palavras e ao desejo,
colori os beijos que me deste.
Agora, quero focar
o teu olhar semicerrado,
ouvir os teus gemidos
na câmara escura
iluminada pelo teu corpo molhado.
Depois,
quero abrir lentes, portas e janelas,
gritar, dançar, cair para o lado,
morrer aos teus braços revelado.



© Jaime Portela, Dezembro de 2018