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quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Vai de férias [236]




Vai de férias,
esquece Berardos e Salgados,
os naufrágios de imigrantes,
a Faixa de Gaza e as greves.

Faz a tua mente voar
mesmo sem sair de casa,
leva contigo o desejo
de abraçar um fogo adolescente.

Põe o cansaço a léguas
e pendura o casaco das alegrias na alma,
despe a saudade
e faz tréguas com as mágoas.

Vai de férias,
fecha os olhos e sente,
até a fazeres entrar no teu corpo,
a doçura das águas,
dos ventos e dos pássaros.

Vai de férias e volta,
mas não verás a paz
porque raramente [ou nunca] prendem
os que inventam a guerra.


© Jaime Portela, Agosto de 2019


quinta-feira, 1 de agosto de 2019

A convicção é a adrenalina da vida [235]



Vivemos na procura
de um destino movediço,
essa montanha parideira de ratos
que só distraída
acede aos nossos desejos.

Se necessário,
não dormimos toda a noite,
vivemos enfiados numa gruta
onde os espelhos são côncavos
e tudo fica ao alcance da mão.

Mas, como a convicção
é a adrenalina da vida,
temos de acreditar que há virtude
nos embuçados sonhos da fantasia.

Na ausência de sonhos,
somos torrentes de pedras
que se afundam
na erosão do tempo
subtraídas à força da crença.

Tal como as palavras,
que renascem nas próprias palavras,
continuemos a sonhar, porque
o Homem é o produto
da soma de sonhos realizados.


© Jaime Portela, Agosto de 2019


quinta-feira, 25 de julho de 2019

O fogo-de-santelmo [234]




Nas dobras dos dedos,
os montes,
os vales,
os joelhos,
despertos e dobrados.

O rio do teu mar
a provocar um desnorte
de naus
rendidas às carícias
das ondas do teu cheiro,
que me vara.

O fogo-de-santelmo
a aproximar-se
e nós a desejá-lo,
a puxá-lo,
a adiá-lo,
a gozá-lo na fronteira.


© Jaime Portela, Julho de 2019


quinta-feira, 18 de julho de 2019

Vivamos [233]




A seda indiscreta não recata,
acicata a ânsia da procura do que vejo
e já beijo
sob esse manto descartável
a desamparar o teu corpo.
Ao roupão,
morto por voar,
as minhas mãos dão-lhe as asas
para que libertem a alvorada do sentir
e toda a sede rubra do teu ventre.
Nos suspiros,
desencarnados ais na garganta.
Nos braços e nas pernas,
o desejo que os quebranta.
Vivamos,
no universo que criámos só para nós
até desaguarmos
em oásis de veludo incontornáveis
a reluzir chamativos,
somos água e pouco mais,
às voltas.



© Jaime Portela, Julho de 2019


quinta-feira, 11 de julho de 2019

O sorriso dos teus olhos na lapela [232]




As flores do verde maio,
ao tocar nesse teu maduro violino,
não mais terão sombra
na sinfonia de cores da nossa porta.
Na boca,
terás uma rosa à janela da alegria
e eu o sorriso dos teus olhos na lapela.
No rosto, a fertilidade
da vertigem das alturas será tua
e o trinado limiano do teu corpo
a corrente do meu rio de lembranças.
Até que tudo seja pó,
serão as plantas vicejadas pelo teu canto
a suster a minha entrega
de raízes em ti firmes,
nutridas pela chuva de flores e pólen
a cair do telhado
em permanente construção.


© Jaime Portela, Julho de 2019


quinta-feira, 4 de julho de 2019

Na carícia repartida a quatro mãos [231]




Na carícia repartida a quatro mãos
o cabelo renuncia ao penteado
e o vento afasta o rumo da palavra.

No denso gosto da luxúria do querer
pode rasgar-se a cortina
da prova da janela nunca aberta.

E é a espada e o sim que se entrelaçam
para que a pele se dobre e se atordoe,
para que a nascente
brote e morra, engolida e sequestrada.

É o insano e primevo beber
da loucura líquida
no zénite da sua matriz mais sólida.


© Jaime Portela, Julho de 2019


quinta-feira, 27 de junho de 2019

Há rosas que nascem das pedras [230]



Há rosas que nascem das pedras,
sem água nem sol,
mas que, quando sentem o céu,
passam a ter o pólen dos amantes.

As nossas, surgiram assim,
e foi para elas que criámos a chuva
e que concebemos o seu perfume
regando-as com palavras.

Mas eu fico estranho
quando não há meio de colher as pétalas
com vida na tua boca, porque, assim,
não posso tocar os teus seios.

Quanto anseio por te amar
depois de te beijar com asas de céu
para que as pedras e as sombras
se afastem e eu não padeça…

O que fazer nos intervalos de ti se,
quando toco a tua rosa,
ficas sem corpo e o meu tem de renascer
quando se apaga no teu?



© Jaime Portela, Junho de 2019


quinta-feira, 20 de junho de 2019

Deixemos o amor livre como a onda [229]



Ao amor, no seu perseverante deambular
por curvas não equacionáveis,
não devemos obrigá-lo a acomodar-se,
para que, no seu mar nem sempre chão,
possa emitir o seu lamento ou a sua exaltação.

Deixemos o amor livre como a onda
que, ao inútil e utópico propósito de ser colhida,
prossegue, impávida, a sua equação
na lealdade ao ignorado fulcro que a gerou,
resistindo, até, às falaciosas voltas que o vento inventa.

Seja o amor, então, o epicentro da emoção
sem se apartar da razão inexplicável de si próprio
e desfrute das chamas que o seu fogo incita e alimenta
na sua combustão interminável,
porque é nuclear e não vem de um sol que arrefeça.


© Jaime Portela, Junho de 2019


quinta-feira, 13 de junho de 2019

Dar voz ao coração [228]



Quando não há candeia
a alumiar o caminho, apesar de claro,
é perigoso deixar de ouvir
a voz do coração.
Quando essa candeia existe,
são os nossos passos
que falam mais alto,
porque a luz brota dos pés
e a ordem rebenta nos dedos da vitória,
num contentamento
tão fundado como o ar que respiramos.
Por isso, há que abandonar
a culpa do silêncio e dar voz ao coração,
há que devolver o rumo
ao nosso porta-aviões [se à deriva]
e ver as caixas negras
de cada cicatriz do coração.


© Jaime Portela, Junho de 2019


quinta-feira, 6 de junho de 2019

Escuta o canto pungente das mãos [227]




Escuta o canto pungente das mãos
que te procuram
e que da espera se contorcem na tristeza.

Não há pranto, não há nuvens
para que o amor fique num canto
amordaçado e ferido, porque
a cada minuto sem ti
há um mar de incertezas
que no meu pensar se afundam
com uma pedra ao pescoço do desencanto.

Sem ti, sem o teu fogo,
sou um coveiro de sonhos
a remexer nas cinzas
do que não foi queimado na fogueira
do teu não.


© Jaime Portela, Junho de 2019