Se
pensas que os teus olhos perderam
o
verde despudorado, tão usual como inocente
nos
montes e vales, por que caminhas
com
a dúvida, a cada encruzilhada do caminho,
como
quem se acautela, temerosa,
da
investida de um amante intempestivo?
Se
sentes, mesmo sem olhar de soslaio,
que
há atalhos que vão dar à liberdade,
por
que te esqueces de inscrever sob as pálpebras
a
verdade que anda à solta sobre a tua pele,
se
ela se debrua transparente de desejos tão banais?
Se
achas que és agora uma planície descorada,
impregnada
das fragilidades quebradiças
do
trigo maduro, por que tentas fugir
do
vento que te penteia de carícias,
quando
o teu corpo é uma seara espigada por ceifar?
Se
és tudo isso, eu já não sei por que me queres
quando
te deitas comigo na compreensão dos trigais.
© Jaime Portela, Dezembro de 2020