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segunda-feira, 11 de novembro de 2024

Tacticismos [586]

 


O estridor,

na azáfama do arregimentar

dos cardumes do peixe miúdo

nas salgadeiras dos votos,

é costumeiro.

No rescaldo,

há mão firme na queimada

de escárnio e maldizer

para que a ruína dos opositores

se construa.

E, não havendo misericórdia

para os perdedores,

os beneméritos hipócritas

são desnecessários.

 

© Jaime Portela, Novembro de 2024


segunda-feira, 4 de novembro de 2024

O futuro é já ali depois da morte [585]

 


O tempo pode ser um lago sem margens

onde se torna invisível.

Quando o sentimos, é um rio em linhas sinuosas

que flui por entre as pedras,

contando histórias de lembranças

e seguindo os destinos que nos podem marcar.

 

Cada escolha no tempo

é um universo que altera o futuro,

é uma tela em branco de um novo caminho,

é um sopro de vento que nos impele

numa jornada mais importante que a chegada.

 

O tempo não perdura no futuro

porque este ainda não existe.

Todos nos limitamos a medir o futuro

em passos que iremos dar

e em sonhos que brotarão da luz

que perseguimos.

 

O tempo é um amigo que espera por nós.

Quando dormimos, o tempo não passa.

Os crentes

não precisam de medir o futuro em anos-luz,

porque o futuro é já ali depois da morte.

 

 

© Jaime Portela, Novembro de 2024


segunda-feira, 28 de outubro de 2024

As forjas de Wall Street [584]

 


O tempo capitaliza as cifras

que dançam em labirintos de vidro e aço

ao som de uma música suave

que sai das forjas a fabricar canhões

para uma guerra bem longe.

 

O pulsar frenético do mercado,

em cliques metálicos,

vai trocando sonhos por números,

em transações de esperança

nas telas que piscam à velocidade dos mísseis.

 

Mas há quem sucumba à ganância,

vendo a sua ambição escorregar

para as mãos de vigilantes

que manipulam o vento

de ratings sombrios a instigar a queda.

 

Nas sombras, a pobreza persiste,

perpetuada pela indiferença egoísta

das forjas de ilusões nas mãos do poder,

que querem ver a sua riqueza, já desmedida,

sem nunca parar de crescer.

 

 

© Jaime Portela, Outubro de 2024


segunda-feira, 21 de outubro de 2024

Toupeiras voadoras [583]

 


No ventre escuro da terra oficial,

tão fundo, tão silencioso,

as toupeiras cavam os seus rumos

num mundo secreto e misterioso.

 

Sem o brilho das estrelas jornalísticas

nem o calor do sol auricular, elas conversam,

em sigilo, onde a vida não gira,

é a mentira no escuro das palavras ocultas.

 

Com as suas garras miúdas,

desenham no subsolo os projetos da vitória,

rasgando o terreno em linhas curvas

como se descobrissem o céu.

 

E sonham, quem sabe,

com um paraíso onde o vento corre livre

e sempre de feição,

deixando o inimigo numa ilha deserta sem luz.

 

Mas, se pudessem lançar-se

no voo que ambicionam e desconhecem,

os ratos-cegos do poder

talvez se perdessem nos céus.

 

Mas o voo das toupeiras

nunca será como o dos pássaros,

é um mergulho para dentro,

e armadilhar é o inverso de sonhar.

 

Entre raízes egocêntricas e pedras falaciosas,

desenham o seu destino

no silêncio profundo da maquinação,

onde o mundo não é divino.

 

E assim vivem as toupeiras voadoras,

numa dança privada e negada sem fim,

não no céu aberto e livre das aves,

mas no voo das catacumbas, porque sim.

 

© Jaime Portela, Outubro de 2024


segunda-feira, 14 de outubro de 2024

A política nas redes sociais [582]

 


É no ruído primário

sobre ideias fanáticas

que mascaram

o apocalipse da esperança

que o desespero investe.

 

E a reprodução giratória

faz crescer pela ressonância

o ímpeto e a vulgaridade

das palavras perversas

e insultuosas

dirigidas aos rivais.

 

E nem doutorados com borla

se esquivam à mixórdia,

onde ser fogo e ser queimado

se confundem.

 

 

 

© Jaime Portela, Outubro de 2024


segunda-feira, 7 de outubro de 2024

Manteiga nos versos [581]

 


Quando o motim interior

se plasma num mínimo poema que seja,

a pauta normalizada é distorcida

pela torrente encorpada

a deslizar por entre fragas mandantes.

 

O cortejo de palavras dispensáveis

naufraga ou desmantela-se

contra as pedras do caminho

e jazem agoniadas por ação da borracha,

que as elimina e empurra

para a periferia do papel.

 

E ficam, quando há talento,

apenas as palavras precisas

para que o motim se revele

sem distorções nem empecilhos,

ainda que leituras possam reclamar

mais manteiga nos versos.

 

 

© Jaime Portela, Outubro de 2024

segunda-feira, 30 de setembro de 2024

O populismo [580]

 


A infeção,

sem a lavagem que a centrifugação

dos pensamentos primários poderia fazer,

provoca um turbilhão já previsível.

 

As elipses pintam as parábolas

em círculos alegóricos,

que descem impressivas,

e é preciso um chapéu de sabedoria

para filtrar o trigo do joio.

 

Mas há sempre alguém

que se enamora pela chuva antropófaga,

numa atração por abismos de proposições absurdas

onde o livre arbítrio adoece.

 

 

 

© Jaime Portela, Setembro de 2024


segunda-feira, 23 de setembro de 2024

Suplício de Tântalo [579]

 


No frondoso vale, Tântalo desespera

e, nas trevas do castigo, a sede é uma tortura.

A água, fugidia, em vão ele procura,

e a fruta ao seu alcance, foge-lhe, severa.

 

Em tormento perpétuo, a alma desfalece

nas margens do rio que lhe nega o alento.

Na fome voraz, a sua vida é um tormento

num ciclo cruel que jamais se emudece.

 

Sob o peso do céu, em cruel suplício,

Tântalo sofre condenado ao sacrifício

e é forçado ao martírio sem redenção.

 

Assim, entre o desejo e a realidade,

o suplício de Tântalo ecoa na eternidade

como símbolo presente da humana condição.

 

 

© Jaime Portela, Setembro de 2024