Translater

quinta-feira, 5 de julho de 2018

Somente [179]



Somente o peso do dever
arrisca estrangular
a vaga libertária que há em ti,
indecisa.
É a nudez da leveza que te seduz
na procura de traições
numa rotina de caprichos redutores
vestidos de fogo
em ombros despidos,
na razão esmagada pelo prazer
como alguém sufocado pelo vício.
Esgravatas equilíbrios
que desvendas na deusa
e na prostituta que há dentro de ti,
na existência amealhada
em inventários impossíveis,
na procura de essências que viveste,
sem as viveres,
para saberes viver como sabes.
Ou então, minha amiga,
sabes, sentes e vives,
e eu é que estou estrangulado,
corrompido ou viciado na existência
de prostitutas e deusas.


© Jaime Portela, Julho de 2018


quinta-feira, 28 de junho de 2018

Em construção [178]




Caminho
afastado de terrenos interditos,
percorro trilhos
arredados de recatos burilados
do meu mutismo.

Mas a cada verbo que empurra
a distância para longe
deixo de ver
o que de mim persiste
aceso ou destruído.

E palmilho o desvendar
e o devorar do engano
que teria amanhecido
em todos os começos,
pensando-me já construído.



© Jaime Portela, Junho de 2018


quinta-feira, 21 de junho de 2018

Dentro de nós [177]




Dentro de mim,
as tuas mãos açucaradas
trazem rotas nas vielas
onde nos queremos beijar,
enquanto adivinhamos
o chamejar dos festins
aos nossos pés ajoelhados.

Dentro de mim,
as tuas formas plantadas
atam asas nas janelas
onde nos queremos olhar,
enquanto ousamos
o rebentar dos motins
aos nossos ais atiçados.

Dentro de ti,
as minhas dores desmaiadas
trazem gozos nas flanelas
onde nos quisemos amar,
enquanto harmonizamos
o ressoar dos clarins
aos nossos vens acabados.

Dentro de nós, belisco-te
para que de novo me acordes.



© Jaime Portela, Junho de 2018


quinta-feira, 14 de junho de 2018

Uma planta, frágil que seja [176]




Uma planta, frágil que seja,
move-se,
agita-se,
retorce-se e pode até perder folhas e ramos,
mas aproveita a acção do vento
para afundar as raízes no solo
e ganhar mais equilíbrio,
enfrentando-o sempre mais forte.

Cambaleias e dobras-te
no vendaval dos lençóis escuros da insónia,
com o sabor adormecido na boca em desejo,
e maldizes os cardos que o teu corpo
teima em abrir na solidão do teu peito.
Magoas-te desgrenhada no sonho
à procura do equilíbrio,
mas cresces.

Enquanto isso acontece,
nada mais devo fazer que fabricar prateleiras
para que organizes
a tua lucidez e os teus gestos.




© Jaime Portela, Junho de 2018


quinta-feira, 7 de junho de 2018

Overdose [175]



Gosto de escrever para me desprender,
fazendo coisa diferente e mais leve
do que faço pelo dever.

Mas hoje as palavras acenam-me
com o peso vital da razão
e estendem-me
[mandantes e revoltadas]
a avenida do triste enfado da pátria,
a passadeira do negrume da crise
e a diária deturpação da notícia.

As palavras incriminam a algazarra
que dissimula o culpado,
mas naufragam [ignoradas]
na vozearia avidamente trincada
até se esmigalharem em escândalos
e em linchamentos na praça pública.

Para gáudio de um povo necrófago,
na curiosidade mórbida
de ver o acidente na estrada,
alimentamos shares e audiências
de tudo o que é tabloide.

Seremos nós [maldito fado]
para sempre viciados
no consumo de uma oferta
em doses cada vez mais virulentas?



© Jaime Portela, Junho de 2018


quinta-feira, 31 de maio de 2018

És a minha casa [174]





Quando olho a minha casa,
o que eu vejo é diferente
da imagem que outros veem.

Vejo abertamente por dentro
a parte aos outros fechada,
que a de fora
aos meus olhos nada encobre.

Os outros desconhecem a cor
dos tapetes e das flores,
a luz que as paredes espalham
e até por quantas janelas e portas
a casa se refresca.

És a minha casa, meu amor,
não te vejo só por fora.
Quando olho para ti,
vejo-te toda,
és transparente e a tua beleza é real.




© Jaime Portela, Maio de 2018


quinta-feira, 24 de maio de 2018

Persistiremos [173]




Aliados,
cicatrizamos as desventuras
despidos ao Sol,
mas a mágoa não se abate redonda,
de olhos fechados,
em pecados já mortos
pelo fogo dos nossos milagres.

De mãos dadas,
encolhemos as fronteiras das sombras,
detendo a noite,
e apostamos em cruzadas
de palavras brancas
para enterrar vivos
os nossos fantasmas que rosnam.

Mas continuaremos a voar
transpirados de gritos nas veias
e a respirar suspiros na síntese da voz,
que a garganta adelgaça,
enquanto não tocarmos
em pássaros a rir de tristeza.

E persistiremos
em esvaziar as circunstâncias da carne
que fervilha de seiva
e em encher a alma com uivos de Sol
enquanto não ouvirmos sereias
a chorar de prazer ao luar.



© Jaime Portela, Maio de 2018


quinta-feira, 17 de maio de 2018

Destino [172]




Do tempo,
em nós encavalitado
e incapazes de o impedir
rumo ao infinito irrevogável,
somos pauzinhos inúteis
na engrenagem do pêndulo sideral.

Nesse trajeto,
que acompanhamos
com a mesma influência das pedras,
reeditamo-nos em mortos futuros
para alongar a viagem
que sabemos finita.

Mas, incongruentes,
derretemos demasiado gelo no uísque
do nosso consumismo
e abreviamos enfatuados a excursão,
cada vez mais quente e contaminada.

Depois disso, o tempo caminhará
sem a nossa companhia,
a menos que tenhamos arte e engenho
de nos mudarmos para outro relógio
a tempo inteiro habitável.

 

© Jaime Portela, Maio de 2018


quinta-feira, 10 de maio de 2018

Quando a claridade surge [171]




Quando a claridade surge
do ventre da noite,
és a derradeira musa
a esconder-se no palco.
E ainda a noite estrebucha,
já gasta e quase morta,
és a primeira graça
a entrar em cena com luz.

Nessa metamorfose,
demoro-me na indecisa crisálida
que troca de vestes
e acaricio desbragadamente
o teu corpo,
num camarim aceso
pela sorte que me apraz
em ter o ensejo
de te ver assim intacta.

Mas…
Não me pertences… És perfeita,
em mim, integralmente.
És íntegra, para além de mim,
perfeitamente.


© Jaime Portela, Maio de 2018


quinta-feira, 3 de maio de 2018

Se me lembro de ti [170]




Se me lembro de ti
e do teu corpo em suspiros,
o inverno afasta-se, tocado pelo calor
da  brisa libertada pelo teu nome.
Então, sei que estarás comigo a despir
as pétalas do teu sorriso
e sei que beijarei cada bem-me-quer
que nos teus olhos cintile.

Num festim mais que perfeito
de uma verdade só nossa,
não alheia, muito menos desatenta
às emoções do estio
que tinge a nossa pele de amor,
vejo então o teu desejo florir
sublimado no lampejar dos teus olhos
e o nosso sangue é feliz.



© Jaime Portela, Maio de 2018