Translater

quinta-feira, 16 de maio de 2019

Dentro de mim [224]




Dentro de mim,
és eterna como o rio a correr para o mar.
És a harmonia hospedada e ancorada na claridade
que exalas a fluir alegremente no meu sangue.
Por isso, fico ansioso na expectativa
do cumprimento de cada promessa, ténue que seja,
porque sei da verdade e do sentido
que afloram no instante da nudez de cada gesto.
O que acontece na longevidade de cada momento
é a nossa realidade, são sementes lançadas à terra
pela queda vertical dos frutos do nosso querer.
Fora de mim, serias uma luz transitória.
E eu, um fogo-fátuo sem mastro nem vela.
Naufragaria.


© Jaime Portela, Maio de 2019


quinta-feira, 9 de maio de 2019

Vê o que te cerca [223]



Vê o que te cerca,
não basta esvoaçar, andar por aí,
partir e chegar.

Ninguém te vai mostrar o caminho
ou perguntar para onde vais
e muito menos por que o fazes.

A vida precisa de ser abraçada
e enganada.
Cai, mas burla o fado
e esquece o coitadinho de ti.

É importante que te does,
que te entendas e que saibas
o que te levará a existir como pensas.

Vive e contagia,
agarra a luz na testa
e distribui os tesouros que encontres
na mina da vida.

Dá sentido aos teus passos,
põe amor nas entranhas do que fazes
e renasces.


© Jaime Portela, Maio de 2019


quinta-feira, 2 de maio de 2019

Um povo que decidiu ser livre [222]



Contra a vontade
dos que permanecem a cavalo
do poder despótico sobre a fome e a pobreza,
a revolta descalça dará frutos,
mas somente muitos mortos depois.

Ainda que ensanguentadas,
vencerão a verdade e as sementes
das plantas que trarão a paz,
vencerá a insurreição do querer renascer
sem olhar às incertezas do viver.

Já que os punhais geram punhais,
que vençam as flores
a dissolver a tirania que estrangula o povo
na míngua de mesas vazias.

Em qualquer caso, vencerá a liberdade
de um povo que decidiu ser livre,
porque não tem voz nem pão que lhe valha.


© Jaime Portela, Maio de 2019


quinta-feira, 25 de abril de 2019

A sagração das primaveras [221]



Apenas te vejo de fora
mas sempre iluminada por dentro,
um rio quente de sons que não dormem
e de onde a melodia corre
para que eu pare de encanto.
Imagino, então,
que és um violino,
um soprano de timbre aveludado
e eu o arco,
disposto a fazer das minhas mãos
crinas de cavalo a percorre-te de Sol a Sol,
acariciando as tuas colcheias sem pausa.
Dançaremos esse poema
até que o inverno nos deixe sem luz.
Dançaremos na poesia
até que os sons se apaguem
nas cordas desgastadas pela vida.
Até lá, tentaremos viver
nas inflexões do canto florido e prolongar,
o mais possível,
a sagração das primaveras.


© Jaime Portela, Abril de 2019


quinta-feira, 18 de abril de 2019

Viva a Páscoa [220]



E, chegados à Páscoa,
embriagamo-nos
fartamente abençoados com doces.
Não se vêm hambúrgueres
nem batatas fritas,
abolimos por um dia
todo e qualquer fast-food da nossa tentação.
Há muito esquecidos do roxo,
dos 40 dias do dilúvio
e da provação do deserto,
somos o acre amelaçado
e o gelado quente da quadra.
Também somos, dentro e fora da Páscoa,
o pão-de-ló da Europa
e os ovos-moles das crises.
Não há jejuns, não há abstinências,
só para os pobres,
que são bem-aventurados
e a isso estão obrigados.
Católicos, ateus e outros,
fazem de conta que celebram
o que já não é celebrado,
até porque na semana santa
já nem há música sacra na rádio.
A Páscoa morreu.
Viva a Páscoa.


© Jaime Portela, Abril de 2019


quinta-feira, 11 de abril de 2019

Quando a primavera chegou [219]



Quando a primavera chegou,
vimos a alegria de pássaros
nas flores que semeámos
para que nos brotassem dos olhos.

Repetimos este gesto de fome
onde as rosas passaram a respirar
dentro de ti como eu,
até que tudo se transforme num eco.

Então, soubemos que o outono
seria deslumbrante
e com toda a sorte de cores,
murando o frio e a tristeza ao inverno.

E, assim, será mais simples de vermos
o tempo maduro a crescer
depois da cíclica e fecunda ocasião
das flores e dos pássaros.


© Jaime Portela, Abril de 2019


quinta-feira, 4 de abril de 2019

Nada mais falta que um verão [218]




Nada mais falta que um verão
para que te cubras de calor
à medida que te despes,
para que melhor te adivinhe
e te veja à medida que te cobres.
Tu percebes que me prendes
e fascinas ainda mais
[se é grande esse recato
maior é a minha tentação]
porque há um deus a avivar a tua luz.
Sonha, estou inconsciente
à sombra do teu corpo
a ver o mundo em ti a renascer.
Mas, quando acordares,
estarei certo e consciente
da raiz do teu sonho a renovar-se.


© Jaime Portela, Abril de 2019


quinta-feira, 28 de março de 2019

Podes pensar que apenas tu [217]



Podes pensar que apenas tu
continuas tristemente incomodado
e que, na insana pátria
que te esbulha e troca as voltas,
o travo amargo na garganta te magoa.

Podes pensar que apenas tu
és um brilho na penumbra fustigado
e que, nas vinte e quatro horas que te mirram,
cada minuto é uma ordem
para escorraçar os que te esmagam.

Podes pensar que apenas tu
és andorinha de esperança migratória
e que, dado o vagar do fogo finalmente a crepitar,
cada medida que te explora
é mais uma acha lançada para a fogueira.

Podes pensar que apenas tu és sofredor,
mas olha à tua volta
que verás milhões de espoliados
a espumar na lividez que os amordaça
com o basta que se esfuma acobardado.


© Jaime Portela, Março de 2019



*** Poema inspirado nos tempos em que quase não havia greves (Troika/Passos Coelho/Cristas/Gaspar/etc.)***

quinta-feira, 21 de março de 2019

Naquela tarde [216]



Naquela tarde,
todos os pássaros aguardaram,
pousados,
à espera de um sinal dos teus olhos.
E até o bulício do mar se encolheu
quando as flores se tornaram mais vivas
ao sol do ar que parou.
Os mais avisados,
cismaram no prenúncio de tempestade
e eu, desavisado, parei de respirar.
Naquela tarde,
os teus olhos disseram que sim.
Os pássaros voaram de novo
e o mar voltou a enrolar-se, afirmativo.
Respirei,
era o nosso tempestivo começar.



© Jaime Portela, Março de 2019


quinta-feira, 14 de março de 2019

Não acredito em profetas [215]



Não acredito em profetas,
da fortuna ou da desgraça,
e nos céus e infernos do futuro
que me apontaram outrora.

Não acredito no impossível
e no fim do mal pelo bem
sem espinhos sangrentos
que rasguem fundo a carne.

Mas acredito em tudo
o que é imortal num momento
e em amores, mesmo absurdos,
encontrados com a bênção do  luar.

E piamente acredito
que só o saber de bom uso,
sabiamente abraçado à honestidade,
nos fará, sem receio, acreditar.


© Jaime Portela, Março de 2019