Translater

quinta-feira, 18 de junho de 2020

O que sou já nem eu sei [284]



Não sei se sou uma aldeia
que flutua, envergonhada, na firmeza das ideias
por entre a incerteza das palavras,
se uma cidade que deambula, meretriz,
na clareza dos verbos
com a boca na ambiguidade das ideias.

Em todo o caso, debato-me enleado
na força que não faço das fraquezas
e sinto-me roubado no absurdo das certezas
perante as verdades consertadas.

Serei gota que perdura, imiscível,
num mar de gente que da lua é igualzinha?
Ou rio de evasão e permanência,
num cacto que vive morto em quarentena
para resistir à falta de água?

Ou serei, estranhamente,
um corpo só, que na poesia se arrima
para melhor se calar?
Melhor explicado, pois também
não sei dizer tudo aquilo que não sou,
o que sou, já nem eu sei.


© Jaime Portela, Junho de 2020


segunda-feira, 15 de junho de 2020

Ao abrires as bainhas da pele [283]



Ao abrires as bainhas da pele
numa cadência de um milímetro por dia
[até que fiques nua],
vislumbro, em cada poro,
o indício e a fragrância da volúpia.

Do teu corpo, ora proibido, nada vi…
As minhas caladas mãos
não foram além da feição visível
[na tremura do toque e do tacto]
do teu medalhado decote.

Deste pousio,
um retiro intacto de propósitos
num conflito de herbicidas de enganos
com fertilizantes de mel,
germinará o ciclo virtuoso
da colheita sucessiva
[sem delito serôdio ou temporão]
dos recatos da alma, primeiro,
e dos recantos do corpo, depois.

Deste amadurecido vagar,
usufruto maior que a razão haverá:
as nossas bocas não serão estrangeiras
no beijar de caminhos
afeiçoados aos arbítrios da língua
e correrá geleia real [finalmente]
nos meandros das nossas fronteiras.


© Jaime Portela, Junho de 2020


quinta-feira, 11 de junho de 2020

Chamar os sonhos à realidade [282]



Por vezes, notamos que o canto, dantes alegre,
deixa cair uma lágrima sentida,
esquecendo que o sonho preserva a queda
na triste elipse que nos confina
à letargia do não existir fetal.

Também sentimos que há momentos, sem magia,
em que não deixamos correr a meninice,
esquecendo que o tempo não refreia a nascente
da qual provém o enorme rio da vida.

Vemos, até, que a voz, habitualmente vibrante,
às vezes fica mortiça, declinada,
deixando de abrir prisões que acorrentamos ao colo,
esquecendo a fuga essencial
aos medos que conservamos em naftalina
nas gavetas das nossas fragilidades.

Nessas alturas, esquecemos que o sonho
antecipa o prazer das alvoradas
que hão de chegar como o vento,
que de tão prometedoras são o ar do nosso fôlego.

Mas nada de mal sucede quando a vida,
sem espartilhos, regressa célere à ribalta do sentir,
para que resista na voz de um canto menino
que pegue nos sonhos de novo
e os chame à realidade.


© Jaime Portela, Junho de 2020


quinta-feira, 4 de junho de 2020

Depressão [281]



De mansinho, à falsa fé de tão subtil,
vai parasitando, da vida,
os fios do rumo e as âncoras do prumo.
Há um querer respirar
a verdade indivisível dos oásis e,
quando à porta do arvoredo viçoso,
evapora-se o refresco
da sombra sedutora das palmeiras
num caldo sem água,
inquieta e logo desfocada
no logro de uma ilha inatingível.

Erra a vida, pesarosa, na instabilidade da areia
num descompasso indizível,
e nunca há a certeza
onde é maior o doer deste confuso andar:
Se no vazio do peito,
ressequido, de um tão sofrido sentir,
se na mudez que se escuta tão conformada
a carpir.

O deserto, prepotente,
escava a fundura de um poço
donde é difícil fugir,
porque a vontade é uma avezinha entorpecida
pelos olhos especados da serpente
que a está a tentar engolir.


© Jaime Portela, Junho de 2020


quinta-feira, 28 de maio de 2020

A ignorância das flores [280]



Quando vejo uma roseira esquecida
a fervilhar na margem de um caminho,
sou picado pela abelha da surpresa
e vejo nas flores uma exceção aos jardins.

Afastada a estranheza,
sou como um raio de sol, que vê, sem o perceber,
a regra de uma qualquer lei
que faz crescer na roseira flores de tanta beleza.

Comburentes da vida e da morte,
os dias passam de igual modo no jardim e fora dele
por tributo à mesma regra,
mas as flores desconhecem que são perseguidas
pelo ferrão da sua fátua existência.

O amor tem a regra e a exceção polinizadas,
tem a beleza e a ignorância das flores.


© Jaime Portela, Maio de 2020


segunda-feira, 25 de maio de 2020

O povo nunca ordenou [279]



Felizmente, não partimos muitas pernas.
Mas foi mais um fragmento de Abril
que morreu, gradualmente estrangulado
pela soberania das nossas costas a ele voltadas.

Do fracasso, deveria nascer o desejo
de pendurar um Maio de giestas em cada porta,
para que o bicho cão da indiferença
não lavasse o prato da fraternidade com a língua
nem ladrasse de egoísmo à igualdade aterrada.

Deveria germinar a fome de mudança
para que a miséria morresse dentro de portas
e não morresse Abril à frieza do ferrolho.
O povo nunca ordenou. E continuamos impassíveis
com o Maio a desflorar-se caído das maçanetas.


© Jaime Portela, Maio de 2020


quinta-feira, 21 de maio de 2020

Vistam-se do presente [278]



Vistam-se do presente
em brisas de carinhos, serenos,
semeando gestos a concertar o futuro.
Aguardem, calmamente,
que desabroche o que plantaram
na mira da Primavera do sonho.
Do chão, colham o fogo
e a luz, renascidos,
com a loucura sadia a nutrir-se
no sofá vermelho dos sentidos.
Amigos, omitam o ferro e a ferida.
Sejam luz dentro da luz,
um clarão onde não há o ontem.
Nem o depois. Só o agora.

© Jaime Portela, Maio de 2020


segunda-feira, 18 de maio de 2020

Encontrei a cidadela [277]



Encontrei a cidadela, assinalada
por estandartes, sob o distraído olhar
do castelo, velho, de costas para o burgo
e com o nariz metido no mar.

Não vi canhões nem portas da traição,
intangíveis por falta de inimigos,
mas avistei sargaços em catadupa
nas vagas da caravela a mim abraçada.

Provei, nervoso, o sabor da alegria
há tanto tempo amuralhada, sem pé
nem tempo para encher piscinas de marés.

As gruas, ao largo, batiam palmas,
que ecoavam em redutos
de há muito conhecidos. Os nossos.


© Jaime Portela, Maio de 2020


quinta-feira, 14 de maio de 2020

A coxear fora do ritmo [276]



Há muito que percebemos
que o que sempre procuramos é um dia
mais claro que o de ontem, um azul mais azul
do que o que temos e tudo, em nós,
a exalar felicidade. Enquanto isso não chega,
é à pouca sorte e aos outros que, sobranceiros,
endossamos as razões de tal desgraça.
Ainda não aprendemos a ser felizes
com o que temos e, preguiçosos, pouco ou nada
fazemos para que aconteça o que queremos.
Muito menos aprendemos
que os outros querem o mesmo, e que é em nós
e no acaso que eles veem a raiz dos seus fracassos.
Crentes e infelizes, desafinados,
mas firmes e professorais, cantamos o fado
com um pé na fé da sorte à viola e com o outro
a coxear fora do ritmo, achando que estamos certos.
Errados, a discordar à guitarra da verdade e idiotas,
estão quase todos ou mesmo todos os demais.


© Jaime Portela, Maio de 2020


quinta-feira, 7 de maio de 2020

Procuro-te [275]



Procuro-te, no limiar da janela,
com a hora do lobo [que alimentamos,
já corpulenta] a afoguear a garganta.

Nas mãos, a pequenez da distância
a derreter a manteiga [rubra e casta]
no pão que as nossas bocas semeiam.

Resisto às cortinas como o ouro
no fundo do oceano [sem estragos]
mas não ao dedo que tens na boca.

Vejo-te multiplicada em cada quadradinho
da janela, embaciado no avesso
pelo ar que ainda não respiras.

Amolecidos pelos óculos de Pessoa,
os teus lábios [chamejantes e assertivos]
declamam o espelho de ti no que escrevo.

Do teu olhar [que eu não vejo nem oiço, mas
sinto] não me bastam dois sorrisos nem o som
que a tua rouca voz rouba ao silêncio.


© Jaime Portela, Maio de 2020