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quinta-feira, 18 de agosto de 2022

Lentamente [428]

 


Lentamente, tudo ganhou forma

e se cobriu das mais variadas cores.

Terei sido eu o escultor ou o pintor

da obra de arte que representas?

O fio de água desce a montanha

por caminhos abruptos e,

a menos que seja impedido,

não tem outro destino

senão alargar-se até à foz.

No auge do seu caudal, deixa de ser rio

e passa a fazer parte do mar.

Apesar de já existires antes de te ver,

fui eu quem mais tarde te inventou.

Mas sei que deixei de existir, tal como fui,

desde que passei a fazer parte de ti.

Serás o rio que sozinho encheu o mar?

Ou o efeito que engoliu a sua causa?

 

© Jaime Portela, Agosto de 2022


segunda-feira, 15 de agosto de 2022

Tenho acordado [427]

 


Tenho acordado

com os aromas das flores de Abril enevoados,

a agonizar por entre as moitas do desânimo

e o gosto acre da chuva

derramada pelo temporal da tua ausência.

Abro a janela e vejo o horizonte

a ser puxado para baixo

a cada minuto que passa sem te ouvir

e o grasnado das gaivotas diz-me

que ninguém sabe de ti.

Roubo as asas de uma gaivota e vejo-me,

ofegante,

um trovador à procura do castelo da princesa,

alarmado e volátil como o espírito,

sem palavras de tormenta ou de bonança.

Do alto, vejo-te a sorrir num areal imenso,

beijando o mar a rugir de sofrimento

e afastando o arrepio dos ventos,

indiferente ao meu ciúme tresloucado.

Exausto, tento abrigar-me da borrasca,

mas esmago,

apago,

restauro e

dilato

este sofrer de amar-te porque sim,

este enlevo de algemas

que de mim se faz teu prisioneiro

num jardim pejado de asas diárias de gaivota.

Moribundo,

a respirar páscoas de flores ausentes,

mergulho em calafrios de pétalas insípidas

e adormeço à espera do encanto do teu cheiro.

 

© Jaime Portela, Agosto de 2022


quinta-feira, 11 de agosto de 2022

Miragem de trigo e girassóis [426]

 


Somos um mar humilhado e nauseado

de tão desastrado navegar.

Obscenos,

os ventos juntaram-se pela falha das virtudes

dos homens bons e generosos,

com arte e engenho

para a epopeia fecundante, impreterível,

ventos esses fortalecidos pela burla

bem urdida nos porões da autocracia.

Mas a nossa voz continua opaca,

sem clamores de rebeldia.

E, sem timoneiro,

somos remos vãos de movimento.

As vozes são poucas, são cata-ventos

com as mãos atadas à voz do comodismo.

Enfraqueceu a vibração do grito,

firme à mentira

e resistente ao despotismo,

neste terreno onde abundam malfeitores,

piratas infames da nossa indignação.

Gritemos indignados

porque o tempo é de desgraça,

prendam-se os ricos oligarcas

banqueiros

e padrinhos que arruínam a paz.

O mar fecha-se,

inquinado,

envenenado e poluído

pelo asqueroso poder que vomita

mísseis cegos a cavar valas comuns,

onde remamos

com a miragem de trigo e girassóis.

Conquistem-se

outras velas ,

outro vento,

outro rumo,

porque se a injustiça nos queima

também engorda a revolta

nos ventres que ião parir, por certo,

a água e os remos

para o barco do nosso movimento.

 

© Jaime Portela, Agosto de 2022


segunda-feira, 8 de agosto de 2022

Este é o tempo [425]

 


Este é o tempo
onde o amor em que te mostras
é ternamente insuportável.
É lua-de-mel
[o fascínio mata as feridas]
e primavera
[o fogo encontra o trevo

e digere-o como erva-do-amor].
Este é o tempo
onde se comprimem a inocência e a paixão.
O que na alma se revela
fica embutido
[sem remédio]
no tronco do sangue,
caldeado em sucessivas transfusões.
Este é o tempo
onde o coração da existência se soma
ao corpo da oferenda
[encantamento nos
braços largos de tão escasso tempo].

 

© Jaime Portela, Agosto de 2022


quinta-feira, 4 de agosto de 2022

Pirilampo mágico [424]

 


Da ténue claridade do pirilampo,

aprendi a decifrar
a luz que emana do teu corpo.
O interruptor da tua luz
está nos meus olhos.
Ligo-a se os fecho,
se preciso
de a ver num pedestal da tua alma.
É assim que sinto o teu desejo,
tão real e mágico,
que ouço a voz do pirilampo
pronto a acasalar, pronto

a apagar-se na tua luz de mulher.

 

© Jaime Portela, Agosto de 2022


segunda-feira, 1 de agosto de 2022

Do teu retrato [423]

 


Do teu retrato,

que pendurei extremoso

entre a sala do amor e o quarto do desejo,
tenho a lembrança guardada no corredor

da verdura acastanhada dos teus olhos.
Do teu sentir,

que adornei com tatuagens de flores

entre palavras de bolso e bocas de cerejas,
tenho a presença penhorada nas paredes

com o sabor do toque dos teus lábios.
Do teu corpo,

que venero dedicado entre

os sussurros das mãos e a pele da emoção,
tenho o cheiro infiltrado nos lençóis,

que afago em pés nus de algodão doce.
Do meu querer,

que guardei afortunado entre a ramagem

da utopia e o tronco da existência,
tenho o amor plantado

onde respira e se acrescenta.

 

© Jaime Portela, Agosto de 2022


quinta-feira, 28 de julho de 2022

O tempo mede-se a partir de ti [422]

 


É no teu âmago que batem as horas
que nos arrastam ao recomeço,
samba inadiável nas artérias

do fuso difuso das emoções.
Os dias
contam-se pela fermentação do mosto,
adormecido,
até que o álcool ruborize as nossas bocas,
destilando bebidas seminuas,
imagens a dançar
coladas ao odor do nosso orvalho.
Nesse tempo de choco,

pouso ave inebriada nos teus seios
ao ritmo a que me adotas
no teu corpo,
ao compasso do começo sem ponteiros
a germinar no teu rosto.
Revolvemos
a terra e o ar da hora desmedida,
onde os ventos sem lama se derramam

nas unhas que se apegam à carne,
em fogo.
O nosso tempo só é cadáver
quando as nossas bocas, cansadas,
deixam de se alimentar

das estrelas da carne.
É o alarme para darmos corda

ao relógio do nosso silêncio,
o tempo de nos alvoroçarmos
para voltar ao recomeço.
O tempo mede-se a partir de ti.

 

© Jaime Portela, Julho de 2022


segunda-feira, 25 de julho de 2022

Sou um inseto [421]

 


Observador,
agarro o meu queixo
para iluminar
a verdade no teu rosto.

E sinto que viajo
em círculos, na tua esfera,
atraído pela voz centrípeta
do teu cheiro.

Sou animal articulado,
ando em seis patas,
respiro por traqueias
e tenho metamorfoses.

Cego, sou um inseto
à volta da luz chamativa
que cintila nos teus olhos.

 

© Jaime Portela, Julho de 2022


quinta-feira, 21 de julho de 2022

Diz-me [420]

 


Diz-me,
esboça nos lábios uma sílaba muda
de humana hesitação
que eu saberei ler os teus sinais.
Franqueia-me
as tuas verdades eternas,
pousadas em alicerces de realidade
ou assentes em areias de volúvel incerteza.

Diz-me,
esboça a ilusão da fantasia,
no limbo por onde erras
ou no redil cercado de lobos que evitas
em dias de sóbria embriaguez,
sem que as gargalhadas
alarmem a virtude do teu ser,
essa força dispersa que por vezes
te sacrifica o cordeiro feliz
no altar da fraqueza.

Diz-me,
esboça o teu ser entre o preto e o branco,
num crescendo de cores
sem espetros de céu e de inferno,
sem levantar muros
ao bálsamo da madrugada,
e foge do veneno das trevas,
mosto das mil cepas que moldam o vinho
que produzes e bebes.

Diz-me.
Não sou eu, és tu que tens de ouvir.

 

© Jaime Portela, Julho de 2022

segunda-feira, 18 de julho de 2022

Não é fácil [419]

 


Não é fácil dizer-vos por palavras
o que o som agudo sibilante

acrescentou ao castigo das luzes,
à paralisia na dor por conjetura
que escorria debulhada na babugem
da caricatura da minha retorcida língua.
Talvez eu tenha sido
um calado barítono de opereta
açaimado por uma orquestra barroca
de alicates e agulhas dançantes,
ao ritmo desconchavado das pernas
de um tango esbugalhado.
Senti-me um filho da guerra
banhado em sangue,
vítima inocente com cara de imbecil
a ver as estrelas que, sem clemência,
me atormentavam a alma
enquanto era perfurado sem poesia.

Não é fácil,
não é nada fácil dizer-vos por palavras
quanto custou retirar o tártaro

da bárbara pedreira dos meus dentes…

 

© Jaime Portela, Julho de 2022