Translater

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Alterações climáticas [631]

 


Curvado sobre a terra

a fazer regos para que a água passe

e regue o milheiral na perfeição,

cavo com o jeito dos meus antepassados.

Ao mesmo tempo,

desço um rio bem largo e caudaloso

dentro de um barco a remos

evitando dragões que dormem nas margens.

E eis que salta uma rã aos meus pés

e um dragão cospe fogo

por cima das águas turvas do rio.

O susto e o desassossego misturam-se,

salto para o rego seguinte,

que ainda está seco,

e remo depressa para fugir ao dragão.

As duas coisas são claras como água

de uma fonte cristalina:

a terra molhada da enxurrada

que os meus pés descalços pisam

e a quilha do barco em terra seca

onde os remos proclamam

uma contínua chiadeira por falta de óleo.

Olho para trás e vejo que o milho

está a ser queimado pelos dragões.

O convés está cheio de gente,

a assistir, insegura e curiosa,

enquanto come pipocas e bebe coca-cola

a olhar para o espetáculo da fumarada.

 

 

© Jaime Portela, Setembro de 2025


segunda-feira, 25 de agosto de 2025

Da tristeza e da alegria [630]

 


Por que morrem os fadistas de Lisboa

De saudade ao cantar na Madragoa?

Por que chora a guitarra de Alfama

A trinar a triste sina que derrama?

 

Por que rodam as moçoilas de Viana

A sorrir ao dançar a chula safardana?

Por que tocam tão bem as concertinas

Com tantas malgas de verde e sardinhas?

 

A alegria e a tristeza são heranças

Do sangue, da paisagem e do clima

Ou são contas herdadas de outras danças

Que, espontâneas, vêm ao de cima?

 

 

© Jaime Portela, Agosto de 2025


segunda-feira, 18 de agosto de 2025

As ideias [629]

 


As ideias quase nunca são nossas,

tomámo-las dos outros,

tal como aprendemos a falar.

Podemos puxar-lhes o lustro,

mas as ideias dos outros

são rios por onde a água só desliza

ao sabor dos seus desejos.

Mimetizamos os outros? Não,

oferecemos-lhes a possibilidade

de nos imitarem.

Porque uma ideia

pode ter dimensão e beleza,

mas se não tiver uma ou outra,

a influência nos outros

será reduzida proporcionalmente.

 

 

 

 

© Jaime Portela, Agosto de 2025


segunda-feira, 11 de agosto de 2025

Muda de alma [628]

 


Queres ter novas sensações?

Será fácil,

basta construir uma alma nova,

mais jovem

ou diferente da que tens.

Gorado será o esforço

de querer sentir

de um modo diferente

sem trocar de alma.

Porque tudo é como o sentimos

e a forma única

de veres coisas novas

é haver originalidade

no experimentá-las.

Tu sabias isto sem o saberes,

por isso, muda de alma.

Não me perguntes como,

tens de ser tu a descobrir.

 

 

© Jaime Portela, Agosto de 2025


segunda-feira, 4 de agosto de 2025

O jornalismo é uma guerra [627]

 


Bebemos apenas os títulos

sem mexermos as cartilagens.

Ou, no máximo,

os lides ou preâmbulos.

E nem percebemos que o corpo

tem um líquido diferente

e normalmente mais macio.

 

Jornalismo e sensacionalismo,

sem contrapeçonhas visíveis,

passaram a rimar gota a gota

em toneladas de manchetes roliças

a bem das santas audiências ou tiragens.

Embaraçam o caminho alheio,

ferem e destroem os outros a frio

à custa de remotas suspeitas.

 

O sucesso pertence a quem não sente.

O jornalismo é uma guerra

e a notícia é a síntese da batalha.

 

© Jaime Portela, Agosto de 2025


segunda-feira, 28 de julho de 2025

Compradores de inutilidades [626]

 


Os compradores de inutilidades

são mais inteligentes do que parecem,

constroem fantasias

e imitam as crianças nas compras.

 

As pequenas coisas supérfluas

que os seduzem,

conquistam-nos do modo contente

de uma criança

que coleciona búzios na areia do mar.

 

Sonham com eles fechados nas mãos

porque, se desaparecem,

perdem pedaços do sonho

e choram como um todo-poderoso

a quem tirassem

o mundo recém-construído.

 

 

© Jaime Portela, Julho de 2025


segunda-feira, 21 de julho de 2025

Mantos dourados [625]

 


Um lago sossegado reflete o céu

mas, no fundo imerso,

há enigmas que sempre virão à superfície

como o azeite.

 

A altivez que encobre a corrupção

tem mantos dourados,

ornamentados com palavras de glória

que escondem as sombras da história.

 

Quando o espelho protetor se quebra,

a imagem desfoca o enfeite

e o pânico leva à gaguez

ou à fuga para a frente

de uma arrogância acrescentada

num castelo feito de bravatas

e reptos para um duelo,

construindo um novo foco.

 

O riso torna-se fumaça, esconde a incerteza,

mas a verdade rasgará o véu e,

sob a fachada de força e honradez,

a essência surgirá despida e vergonhosa,

com o trono a ruir sob os seus pés.

 

Ou talvez não,

se o político corrupto tiver amigos na Justiça.

 

 

© Jaime Portela, Julho de 2025


segunda-feira, 14 de julho de 2025

Piruetas [624]

 


O vício do ilógico

e da contradição

é o contentamento boçal

dos descontentes.


As pessoas normais

dizem tolices por vaidade

e dão pancadinhas

nas costas dos amigos

por exaltação.


Os cegos à emoção e ao júbilo

apenas mostram

pequenas atitudes da vida

dando piruetas com a mente.

 

 

© Jaime Portela, Julho de 2025


segunda-feira, 7 de julho de 2025

Não uso cocaína [623]

 


Não uso cocaína,

haxixe ou outras drogas,

os meus incentivos são sensíveis

à espuma de um café

e ao fumo de um cigarro.

 

Isso basta-me

para saber mentir com a verdade porque,

sendo social,

a arte precisa de estímulos

para se entranhar

nas almas sensíveis ou vigilantes.

 

Se a construção mente,

ela também nos brinda com a verdade,

que não existe,

através do embuste da ficção.

 

 


© Jaime Portela, Julho de 2025