Translater

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Viajamos confinados [299]

 


Viajamos confinados

na cauda de um cometa em extinção

a queimar laços que tombam apagados

para a negra vertigem do nada.

Sentimos as mãos a enferrujar

no amanhecer das lágrimas,

delgado rio a estilhaçar margens

em sossego de aquário.

Somos filhos incógnitos de um querer

estrangulado pelo inamovível asceta

que persiste de mãos atadas no peito.




© Jaime Portela, Outubro de 2020


quinta-feira, 24 de setembro de 2020

O alento desta arte de esperar [298]

 

O alento desta arte de esperar,

paciente, está no feitiço da voz

do último silêncio e nos muros de finura

que entre nós interpões.

 

Díspar estátua,

salto os muros desatentos

e subo ao telhado

para escorregar pela caleira.

Ao cruzar com a janela,

passo leves os meus dedos

a chiar no vidro dos teus lábios.

 

Diva e gelatina,

atiras-me beijos em queda livre,

que me acertam em cheio

como um vaso de flores

no caminhante indefeso.

 

Com a arte deste alento,

vou tentando

e esperando que te lances da janela

e dês aos meus braços

o que me roubas faz tempo.



© Jaime Portela, Setembro de 2020


quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Apatia [297]

 

É andar pelas águas de um lago

sem espanto nem pranto

e sonhar ao ritmo das baladas

de um mar sem sal nem vendaval.

É trazer dentro do peito estagnada

a ordem contrafeita

e amarrar pelos cornos o tumulto

do jazz da rebelião.

É esquecer que a mudança é fruto viçoso

do impulso que faz o sangue vibrar.

É ignorar que a bola não rebola

sem um chuto

e que sem a batalha das asas

o voo cai maduro no chão.

É beber das rotinas o ferrete

que coze a vida em fogo mole.



© Jaime Portela, Setembro de 2020


quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Rio de silêncio [296]

 

A renúncia,

marcada na areia dos dias

como dunas a percorrer a pele,

a desenhar-se nos poros.

 

A distância,

ampliada no olhar,

a penetrar na voz

de ouvidos metodicamente fechados.

 

O sol,

a debelar-se banal

à luz da prece dispersa na noite,

de mão retraída no brilho.

 

O temer

que para lá do fim

há uma pedra na matéria,

um nada, um muro,

alguma terra invisível

e um rio de silêncio sem retorno. 



© Jaime Portela, Setembro de 2020


quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Até já [295]

 

Há pétalas aflitas,

mas também rosas seguras como heras,

na viagem inquieta do teu corpo.

 

Sem que a voz se apague

com o hiato da chama escurecida,

enquanto a luz andar presa no teu âmago

haverá fogo verdadeiro

no regresso dos teus olhos.

 

Vai, até já, fala com os anjos e diz-me

da brancura da noite ao acordares.

Traz agarrada à cintura a tua palavra,

líquida e sólida

como a certeza de te amar.



© Jaime Portela, Setembro de 2020


quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Da beleza da gravata ao esplendor do verniz [294]

 

Vejo, por vezes, o desconcerto

do insustentável mau trato da língua.

Então, porque o descuido que destroça a palavra

é distinto e redito,

imagino a vanidade do remo sem água

nos que se deixam molhar até à medula

com a chuva de tolices estampadas,

enquanto contemplam, acéfalos,

o remoinho do regurgitado.

 

Não há horas felizes nessa bravata de gargarejos,

onde o poema, ferido,

se contorce com vários trejeitos

[ouvindo aplausos à  beleza da gravata

e ao esplendor do verniz]

à espera que o saber da palavra construa, enfim,

o sustentável bom trato do verbo.



© Jaime Portela, Agosto de 2020


quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Neste cais do desespero [293]

 

Na praia da nossa rebentação,

construí um cais equipado com espanta nevoeiros,

draguei um ancoradouro sem baixios

e levantei um farol para afugentar os naufrágios.

Tive ainda o cuidado de espalhar argamassa no areal

para que a nossa fortaleza não se desmoronasse.

 

Dei-te bússolas e cartas mareantes,

assinalei o penedo ladrão com uma boia vermelha

e engalanei com bandeiras coloridas

os mastros que havia no cais.

Tornei o teu porto de abrigo um lugar demarcado

e aguardei a tua chegada com a maré.

 

Nunca chegaste.

Mas é melhor que não chegues, deixei de te esperar

e de rezar ao Senhor dos Mareantes.

Demoli a fortaleza, o cais e o farol,

afundei a boia vermelha e rasguei as bandeiras.

Mas, se chegasses, reconstruiria tudo para ti

neste cais do desespero.



© Jaime Portela, Agosto de 2020


quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Em ti [292]

 

Em ti, há fascinação,

que se liberta em forma de asa delta

e me dá o suspenso esvoaçar

para beijar em sobrevoos de carícias

as planícies e os vales do teu corpo.


Há também adolesceres

que os teus braços me emprestam

e me impelem a pintar danças perfeitas,

a transbordar cristalinas

na quilha do teu bote em que me deito.

 

Sim, nem sempre

as asas hipotecadas no amanhã

quebram os sonhos do voo

ou apunhalam a voz da atração

mergulhados e vivos no agora.



© Jaime Portela, Agosto de 2020


quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Do sal das formigas que produzem [291]


Do tempo,

de um Homem que gasta o olhar

entre o melhor de ontem e o pior de hoje,

temo a ausência do desígnio do amanhã,

porque tudo é pessimismo amplificado

pelo eco informativo espalhado aos quatro ventos.

Do espaço, 

das Nações entretecidas

em fumos de antítese permanente,

temo a perda da noção do que não é fogo-fátuo,

porque quase tudo o que nos dizem é espuma,

que apenas se esvai

a cada nova onda de espuma.

 

Recuso respirar a perda de tempo

que há no vento do pessimismo

e não quero banhar-me na falta de espaço

que há na rotina da espuma.

Do tempo real, prefiro o optimismo

que há no ar que as flores respiram

e o espaço temporal da verdade

que há no sal das formigas que produzem.



© Jaime Portela, Agosto de 2020