Translater

quinta-feira, 7 de março de 2019

Poema de um avô babado [214]



Tens no olhar
a flor do verde pinho inteligente
e a mãe da cobiça
na beleza de Afrodite.
No teu andar,
a crescer mas ainda miudinho,
vejo a guitarra
que no meu colo nina
e a vespa sem ferrão
de cintura em duas mãos.
Ouço o anjo de sorriso divinal
no teu falar
e em cada aprendizagem soletrada
há uma carícia embebida.
E há, nos teus gestos de menina,
beijos de harpas dengosas
que me desgrenham
o ser e a razão.
Agora, contigo, nada mais vejo.


© Jaime Portela, Março de 2019


quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Pertenço à multidão [213]



Pertenço à multidão,
que sei minoritária,
de pássaros indiferentes aos ramos
cada vez mais desusados,
já sem a esperança de frutos.

Espero, sereno, a migração sem retorno,
não com a pressa da vida
mas no passo ronceiro da lesma,
a menos que venha a ser
subitamente empurrado.

Enquanto aguardo,
prefiro o pousio de ave saciada
e pensar-me perpétuo,
que o perene germina
se na demora do sabor o semeiam.

Optei por ser um pássaro melódico
a salvo do alvoroço do tempo,
na esperança que isso seja a predição
de uma alvorada permanente até ao fim.
Quero ser vagarosamente eu.


© Jaime Portela, Fevereiro de 2019


quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Quanto vento [212]



Quanto vento
pusemos nas velas solares
desse espaço sem fim,
que nos incitava
a inflamar o denso brilho da escolha,
onde nos abraçávamos em nuvens azuis
na origem de onde tudo proviria.

Quantas mãos
pousámos nesse tempo,
sempre célere a enrugar páginas
nos livros da pele
a cada ano sempre moço,
para ficarmos abraçados como estátuas
a escaldar-nos com a carne de uma esfinge.

Quanto tempo
a dissolver o insolúvel,
para agora sobrevivermos nulos
e a bebermos de um copo
que nem sequer está meio cheio de água.


© Jaime Portela, Fevereiro de 2019


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Uma boca cosida [211]



Uma boca cosida com linhas
de segredo, manto de mistério
bordado a sedução, burka
vermelha a dilatar desassossegos
e paixões.
Os teus olhos castanhos, sinto-os
de todas as cores, opacos,
transparentes na fantasia do que vejo.
À tua janela, a poesia não sai
dos beijos que não me deste.
Sem rumo, aborreço-me
a condensar as lágrimas de um Carnaval
ausente do teu rosto que não vejo,
mas sei.


© Jaime Portela, Fevereiro de 2019


quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Somos enfermeiros das nossas fronteiras [210]



Ensombrados pelos archotes
no útero de uma chuva de insensibilidade
(imensa, seja grossa ou miudinha)
prenhe de guelras falaciosas e fados,
somos carcereiros do paiol
e praças-fortes de éticas que esvoaçam
e em mil sóis apenas nos deslumbram.
Guardiães das ameias vazias,
empunhando bisturis estranhos ao tempo
onde nos sitiamos,
somos donos e videntes,
somos enfermeiros das nossas fronteiras,
alamedas de encantos
laureadas por suspiros de valores penhorados.
Apesar da madraça labuta,
temos o cinzeiro da noite,
onde, zelosos, nos lavamos do lodo
e da greve de cinza do dia,
onde afugentamos o cigarro
da vergonha esquecida entre os dedos
e onde o nosso feito desfeito é defecado.


© Jaime Portela, Fevereiro de 2019


quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Não sou marinheiro [209]



Não sou marinheiro, mas,
se for preciso,
serei o mais ousado pirata
a saquear uma galé.

Com um golpe seco,
serei capaz de rebentar
amarrações e retenidas malfazejas.

Irás a bordo comigo
para as ilhas livres de liames,
onde verás o Fogo de Santelmo
nos mastros de velas enfunadas.


© Jaime Portela, Janeiro de 2019


quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Um clarão [208]



Um clarão,
talvez um murro
ou um sussurro
apreendido a colar-se no meu zelo
antes distraído.

Ou então

Um vagão, dois vagões,
um comboio
a passar,
a rolar por cima de mim
lavrando as suas marcas.

E eu

Um fruto nos teus dentes
às mãos do teu feitiço,
um prazer de doces
no existir
só apenas depois disso.


© Jaime Portela, Janeiro de 2019


quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Icei as velas no vento [207]



Icei as velas no vento
das ondas do meu desejo
levei comigo o lamento
de sentir o que não vejo.

Meti rumo ao teu porto
regressei sem me perder
perdi-me ao ver teu rosto
antes mesmo de o saber.

Abarquei-te numa vaga
fundeei-me no teu cais
nem um sorriso se apaga
ao leme que sempre vais.

Marinheiros de água doce
navegaremos tormentas
um mar aberto que fosse
no sonho que me acalentas.


© Jaime Portela, Janeiro de 2019


quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Elefantes bêbados [206]



Com a dúvida permanente, ficamos secos,
e, orvalhados na incerteza ou na ignorância,
tornamo-nos esfinges da desconfiança
e o que somos é um enigma para nós próprios.

Para andar em concórdia connosco,
ficamos em discórdia com os outros
e o contraditório chega a ser diabólico,
ainda que disso se possa fazer luz.

Por vezes, numa cegueira nisto curada,
vemos que atos, pensamentos
e o que temos sido, são tão voláteis
que nos espantamos do que fomos.

Se vemos que não somos o que pensávamos,
ficámos como elefantes bêbados
a espezinhar o que realmente somos
em vez de nos atirarmos à água da mudança.


© Jaime Portela, Janeiro de 2019


quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Para quê [205]



Para quê fugir-te se me encontras
sempre que queres
um amor a ferro e fogo de paixão?

Para quê esconderes-te
se não te sobrevivo na ausência
numa saudade futura de ti?

Para quê inventar se ao meu toque
o teu corpo estremece em poemas
submersos em regaços domingueiros?

Para quê iludir-me
se me tremem as mãos na tua pele,
aturdidas, ao enxergar a razão?

Para quê… se queremos
carícias desenhadas por todas as mãos,
sensatas e loucas, vadias e afáveis?

Para quê, então, tanta tortura,
se queremos noites quentes, desmedidas,
à medida do nosso encantamento?


© Jaime Portela, Janeiro de 2019