Translater

quinta-feira, 9 de abril de 2020

A praia dos sentidos [271]




Cresceste em mim,
brisa suave que não vergava a indecisão
a embargar a voz,
a esculpir com mão ignorada
uma pergunta, um espaço
à procura de espaço entre prisões.

No embaraço, passeámos ignorantes
em palavras de sinais impercetíveis
pintalgados de nós,
que nos envolviam no gesto involuntário
de aprendiz, a submeter-nos legítimos
com as nossas próprias teias.

Perplexos, despertámos
num céu-aberto ao desejo encarnado
[enevoado por cegueiras falsas,
a rirem-se do falho ensaio de vendas]
e mergulhámos, sem o achar,
na água doce da praia dos sentidos.


© Jaime Portela, Abril de 2020


quinta-feira, 2 de abril de 2020

O verdadeiro poema [270]




O verdadeiro poema
não voa pela vida, mas acima dela.
É um incerto deambular que atira
as imagens ao ar ainda não respirado
e as ata,
em braçados de palavras redondas,
no horizonte da retina de cada olhar.

O verdadeiro poema
conduz mais vozes de fora para dentro
que o inverso.
É um filme ao contrário onde a bala,
que não é disparada
pela espingarda do poeta,
atinge o leitor ao carregar no gatilho.

Mas, se o horizonte é pequeno,
não há ricochete e o verdadeiro poema
morre por fuzilamento.


© Jaime Portela, Abril de 2020


quinta-feira, 26 de março de 2020

Gostava de fugir de ti [269]



Gostava de fugir de ti,
mas sou jóquei sem chicote
a deliciar-se nas tranças das tuas carícias
de amazona sem rédeas.
Deste tempo de esporas,
aferroado pelo galope da ideia desgovernada
no arco dos sentidos,
sou um coxo sem estribo
a desviar-me dos teus arroubos em flecha.
Sem trote, sucumbo aos teus
empolgados assaltos e morro
[com o freio nos dentes]
à boca da ternura virgem
desenfreada pelo teu corpo de Diana,
certo que vou renascer corcel resoluto
a cavalo da razão apeada.
Gostava de fugir de ti, do teu arco,
mas vou cortar as peias que me tolhem
e consagrar-me, devoto,
à jarra de cristal oculta
que guardas no templo da tua pele impoluta.


© Jaime Portela, Março de 2020


quinta-feira, 19 de março de 2020

Há cigarros assim [268]



Um cigarro deu comigo
no meio do deserto.
O fumo tragava amenamente
o sol de uma só cor
e nem sombra de palavras
a espevitar o meu fogo tão mortiço.
Mergulhei em miragens desfocadas
ao alcance falacioso
de um gesto entorpecido.
Vagueei fixo
nas imagens trémulas
para além do horizonte da razão.
Da minha fortaleza,
abatida e conformada,
só enxergava a cidadela enevoada,
derrubada,
asfixiada de sons indecifráveis.
Não me evadi,
desertei cobardemente
para a jaula do silêncio dos meus verbos
nos braços de fantasmas abstratos.
Há cigarros assim…


© Jaime Portela, Março de 2020


quinta-feira, 12 de março de 2020

Navegar [267]



o teu corpo no mesmo espaço que o meu
juntos
seduzidos
na cocaína da ternura
na pele mágica do toque
no suor fresco depois do calor da paixão
perdidos numa noite de sonho
sentados no espelho de água
da fronteira que mistura
o desejo de quilha afogada
louca pelo suspirar veloz das ondas
cíclicas
que se abrem e fecham à sua passagem
prendendo e libertando
o corpo do nosso corpo
em convulsões submersas de beijos
redobrados com a lenta acostagem
de barco fundeado
naufragado no cais de pernas
de braços largos
de remos
a navegar abandonados
nos gestos parados do olhar
até que vagas sucessivas
sem regresso
inundem o arrebatamento final


© Jaime Portela, Março de 2020


quinta-feira, 5 de março de 2020

O poema é uma lide [266]




O poema é uma lide
de cortesias e espadas.
O toiro, uma besta, é a palavra.
O poeta é o toureiro,
a cavalo ou apeado,
ousa tércios de bandarilhas
ou passes de muleta no verso.
É forcado sem capote,
pega as palavras de caras
e nunca de cernelha.
É cavaleiro que finta
as investidas do toiro,
pode matar ou morrer,
cortar rabos ou orelhas
na arena das palavras.
Mas só vencerá
se terminar a faena
com chicuelinas,
pegar o touro pelos cornos
e o inteligente atestar.


© Jaime Portela, Março de 2020


quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Cem mãos de irrequieta centopeia [265]



Deambulei pelo cerne de caminhos
construídos à chuva de palavras
levando nos bolsos
promessas líquidas de carícias
derramadas pelas viagens do teu olhar.
Caminhei por avenidas carregadas
com o desejo traçado
por cem mãos de irrequieta centopeia,
a desaguar aturdidas no teu corpo
ao som de rugas enervadas de prazer.
Percorri-te na lenta vertigem do toque
desenhado na inquieta pele da espera,
incapaz de resistir à sede que inundava
as avenidas de um só destino, o nosso.


© Jaime Portela, Fevereiro de 2020


quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Há quem pense [264]



Há quem pense meter ao bolso a lua
e acabar com os cinzentos.
Tudo seria
preto ou branco e a vida seria construída
apenas com suor e betão.
Como o politicamente correto
tem maior aceitação,
passamos o tempo a tentar moldar as máscaras
às circunstâncias,
ainda que falhemos sem espanto.
Prevalece o humano,
e o primeiro impulso
defende a beleza que há na cor
ao amparar um torturado coração.
Porque os que assim agem,
são a maioria e percebem
que é mais dura a maré que o mexilhão.


© Jaime Portela, Fevereiro de 2020


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Há um fado [263]




Há um fado
que nos empurra e segura,
um fado luso
a adubar a estagnação
da nossa marca
de pátria mal-amada.

É uma raiva
de branda insurreição
que nos empolga
sem nos soltar,
que vai do Minho aos Açores,
de terra em terra,
mas não há meio de chegar.


© Jaime Portela, Fevereiro de 2020

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Com este céu [262]




Com este céu,
após tantas estrelas entretanto caladas,
a tua sombra dói e, com a inércia,
não há uma erva que cresça.
Que força
a um estado indolente me obriga
se o teu rosto me atrai e se,
nos meus ombros,
cavalgam lampejos de saudade?
Apenas vejo um ser que se verga
às mãos de um exorcismo de trevas
e de uma venda justiceira que cega,
um ser entre o vazio e o ficar
onde começa a ausência de futuro.
Serei um pássaro sem pio,
acomodado nos ramos,
que teme a saída do ninho?


© Jaime Portela, Fevereiro de 2020